Palavra do irmão Marcelo para o Tríduo Pascal
Meditações para a Páscoa do ano de 2002


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Queridos irmãos e irmãs,


Com a celebração desta noite de 5a feira santa, começamos as celebrações pascais deste primeiro ano do novo milênio. Antigamente, os cristãos chamavam esta noite: "A Páscoa da Ceia" porque recordamos a noite em que Jesus, ceando com seus discípulos, na véspera da paixão, fez da Ceia o sinal maior de sua presença e sua aliança de amor a nós. A ceia é como a antecipação da entrega da vida que ele viveria no dia seguinte.

Hoje, pensando no que as Igrejas estão celebrando nesta noite, sofro. Sinto que transformamos a ceia de Jesus em um culto religioso tradicional. Jesus revelou que veio como médico aos doentes e como pão da vida para os pequenos e pecadores. Durante sua vida pública, ceou com as pessoas consideradas erradas e abriu sua mesa a todos. Fez da ceia um sinal do amor de Deus pelos pequenos e pecadores. Propôs o memorial da Páscoa libertadora tornando a ceia um instrumento de partilha verdadeira. Assim como sendo muitos, participamos do mesmo pão, também partilhamos a vida para sermos um só no Cristo.

O evangelho de João que lemos nesta noite não conta a instituição da ceia. Conta que, colocando-se à mesa, Jesus se levanta e lava os pés dos discípulos e aquilo não era um ritual. Era um gesto profético de vida. Que esta celebração da Páscoa nos ajude não apenas a celebrar a eucaristia, mas a vivê-la. Santo Agostinho diz: "Quando o celebrante nos estender o pão, ele dirá: "Corpo do Cristo". Nós responderemos "Amém" ao que nós mesmos somos, porque nós é que somos o Corpo do Cristo. O pão representa o que nós somos. Sejamos, então, o que este pão significa" (sermão 272).


Meditação para a sexta-feira santa

Hoje é a Páscoa da Cruz, a celebração da vitória de Deus pela cruz e morte de Jesus. Historicamente, foi um assassinato cruel e injusto que continua acontecendo no mundo. Nunca deveremos justificá-lo religiosamente: "Deus quis sacrificar o filho, ou coisas assim".

O que devemos compreender é que Deus se revelou fraco e impotente, presente e crucificado, em todas as realidades nas quais a humanidade é crucificada, seja nos campos de concentração nazista, seja nos porões das ditaduras militares, seja nas situações de injustiça e miséria a que a sociedade condena os povos do terceiro mundo. Diante dos sofrimentos, muita gente continua perguntando: "Onde está Deus?". O evangelho responde: "Na cruz com Jesus e com todos os irmãos que Jesus fez na cruz".

João nos diz no seu relato que, na cruz, Jesus inclinou a cabeça e entregou o espírito. Nós o podemos receber e viver o seguimento de Jesus como pessoas ressuscitadas.

O CIMI conta que em 30 anos, no Brasil, 13 povos indígenas, considerados extintos, agora estão ressuscitados e se reorganizando com sua cultura própria e sua língua original. Quem lhes deu esta força e como explicar esta resistência?

Relendo hoje o relato da paixão de Jesus, repitamos com Jesus: "Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade (que o Reino de Deus é verdade. Deus cumpre o que promete. Não é caloteiro). Quem é da verdade, ouve a minha voz".


Meditação para o sábado santo, preparando a Vigília Pascal:

Hoje, me sinto feliz em preparar e esperar a Vigília Pascal que para mim e percebo que também para meus irmãos é como uma terapia espiritual que nos renova e refaz. Deixo com vocês um trecho da homilia que em uma noite como esta fez Santo Agostinho no século IV:

"Vigiemos, irmãos caríssimos, porque nesta santa noite que agora preparamos, o Cristo permaneceu ainda no sepulcro. Foi no final desta noite que se realizou a ressurreição. Esta santa noite começará para nós a grande festa da Páscoa. De fato, era preciso que o Cristo ressuscitasse ainda na escuridão da noite porque é sua Ressurreição que ilumina tudo o que em nós é escuridão. Ela nos iluminará se nós deixarmos que isso aconteça. Que mistério maravilhoso somos convidados a celebrar.

Nossa fé, já fortalecida pela ressurreição do Cristo, será capaz de tirar todo o sono que pode nos impedir de festejar. E nós fazemos uma Vigília para iluminar a noite com toda a claridade que pudermos dar a esta noite. É esta noite sagrada que nos dá a esperança que recebemos da Igreja da terra inteira, a esperança de que não seremos surpreendidos dormindo na noite quando o Senhor vier. Por que ele vem.

Para nós cristãos, viver não é outra coisa do que vigiar e o que é realmente vigiar, fazer vigília? É abrir-se à vida, ao inesperado, ao futuro. É claro que é necessário dormir para retomar as forças e nos repousar de nossas atividades. Mas, quando fazemos vigília, lutamos contra o sono que é sinal e fardo da morte e ficamos despertos como sinal da vida nova da ressurreição. Por isso façamos esta Vigília com coração bem despertos. Como podemos dizer que aspiramos à eternidade se nem somos capazes de vigiar? Esta noite, mais ainda do que em qualquer outro momento, celebremos nossa vigília com fervor. Esta é a vigília que dá nome a todas as outras vigílias. Se não fosse esta, que sentido teriam as outras. Escutem as palavras que lhes direi sobre esta noite: ela é a mãe de todas as vigílias da Igreja. Nesta madrugada feliz, o Senhor ressuscitou. Como poderíamos dormir se ele adormeceu para que tenhamos o direito de despertar, ele aceitou a morte para que nós vivamos?

As luzes que vamos acender nesta Vigília deve acordar a terra e o céu. Mesmo os que não crêem serão despertados pela nossa alegria e nossas luzes porque nesta noite se cumpre o que está escrito no salmo: "A noite será clara como o dia".

Nesta noite, acendamos luz em nosso coração, expulsando toda tristeza. Que fique o único peso: o dos nossos pecados. Mas, mesmo a isto, aceitemos a alegria de que a graça da ressurreição do Senhor deles todos nos liberta. Passemos em vigília a noite que foi a única testemunha da Ressurreição do Senhor e Ele nos dará a graça de reinar com ele em uma vida sem fim".


Palavra para o domingo da Ressurreição:

Meus irmãos e irmãs,

Revivemos, hoje, a madrugada escura daquele domingo do qual o Evangelho nos fala. Nós somos como aquelas discípulas de Jesus que caminhando para a morte, encontram o túmulo vazio e os mensageiros (anjos) de Deus dizendo que Ele está vivo e nos espera na Galiléia, na periferia de nossas vidas, no lugar escuro do nosso ser. Espera-nos onde ninguém nos encontra e ali revela que a vida é mais forte do que a morte.

Ainda é escuro. Os problemas da vida continuam iguais e nós que gostaríamos de mudar tantas coisas em nós mesmos, continuaremos aparentemente iguais... Mas, é escuro da madrugada que já contém os primeiros raios do sol. Na hora em que a comunidade ia retomar o canto do Aleluia, depois dos 40 dias da Quaresma, nós cantamos: "Lá vem a barra do dia...". Como dizia o poeta: "Faz escuro, mas eu canto...".

Somos chamados a um dia novo em nossa vida e a um encontro conosco mesmos como um ser novo. Deus acredita e sopra em nós o espírito da ressurreição. Nós é que temos dificuldade de crer não apenas em Deus ou na ressurreição de Jesus, mas em nós mesmos... Será que podemos mesmo desmentir os prognósticos e diagnósticos pessimistas da morte: "Não tem jeito! Isso vai ser sempre assim...".

Encontrando o Cristo Vivo, o recebemos para ser corpo ressuscitado do Cristo, eu e vocês: começo desta vida nova, pascal... Vamos crer e ousar vivê-lo. O Cristo ressuscitou verdadeiramente, aleluia.


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