. O Fórum Social Mundial e a Espiritualidade no plural
Iniciando um debate  -  Marcelo Barros
Pág. Marcelo

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peixe fóra d'água "Dêem-me alguém que ame e compreenderá o que eu digo. Dêem-me alguém que deseje, que caminhe neste deserto, alguém que tenha sede e que suspire pela fonte. Dêem-me esta pessoa e ela sabe o que quero dizer" (Santo Agostinho) .

Sem dúvida, quando, no futuro, os historiadores quiserem caracterizar o ano de 2002, terão de dizer: este ano foi marcado pela realização do 2o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Ou será que já houve, na história, algum encontro que tenha reunido 60 mil pessoas, de todas as categorias e classes sociais, vindas dos cinco continentes, num debate democrático e fraterno, visando construir juntos um projeto novo de sociedade?

De fato, já o 1o Fórum Social, em 2001, não reuniu apenas gente rica ou governantes, embora estes também pudessem estar presentes e alguns estavam, participando ativamente do grande mutirão pela Paz e pela Justiça. O fato novo é que neste 2o Fórum, foi como se a humanidade tivesse mesmo marcado um encontro comum e o número de participantes excedeu a tudo o que se podia prever. Eram homens e mulheres, jovens e pessoas mais velhas, brancos, índios e negros, gente de cidade e lavradores sem-terra... Todos se encontraram para atestar: o modelo econômico neoliberal, hoje, dominante no mundo não é inevitável nem o único possível.


1. Breve apresentação do 2o Fórum Social Mundial

Os órgãos de comunicação da grande imprensa brasileira noticiaram pouco. Alguns ignoraram ou até ridicularizaram. Não puderam, entretanto, desconhecer que, em Porto Alegre, de 31 de janeiro a 05 de fevereiro de 2002, o 2o Fórum reunia cerca de 60.000 representantes de milhares de "entidades" de 150 países, sendo 16 mil delegados e 35 mil ouvintes. Aconteceram 42 conferências, mais de 100 seminários e cerca de 800 oficinas. Mais de 4.000 jornalistas cobriram o II FSM, dos quais 2.400 representavam 1.050 veículos de comunicação de todo o mundo. Em conexão direta com o 2o Fórum Social Mundial, aconteceu também: o Fórum das autoridades locais; o Fórum parlamentar; o Fórum da Via Campesina, entidade que congrega interncionalmente movimentos pela Terra e por Reforma Agrária; o Fórunzinho, com mais de 2.500 crianças e 800 educadoras e outros. Mais de 6.000 famílias de Porto Alegre hospedaram participantes do Fórum.

O jesuíta Bernardo Lestienne tem razão : " O 2o Fórum Social Mundial foi tão rico e diversificado que fica difícil falar algo resumido. Multidão de línguas, raças, culturas, idades, sem falar das expectativas, interesses e idéias do participantes! A densidade do programa oficial, distribuído a cada um é apenas um reflexo disso. A Carta dos Princípios do Fórum explicita bem seu objetivo. Para constatar isso, basta citar o 1o artigo: " O Fórum Social Mundial é um espaço aberto de encontros para o aprofundamento da reflexão, o debate democrático de idéias, a formulação de propostas, a livre troca de experiências e a articulação de ações eficazes, por parte de entidades e de movimentos da sociedade civil que se opõem ao neo-liberalismo, à dominação do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo e investem seus esforços para a construção de uma sociedade planetária, centrada sobre o ser humano ".

Por ocasião do ato final do 2o Fórum Social Mundial (FSM), um dos organizadores declarava: " Nosso principal objetivo foi atingido: reintroduzir na agenda dos debates mundiais a discussão sobre a globalização e a necessidade de mudar a lógica que garante todos os direitos ao mercado para reconhecer a prioridade dos seres humanos e da natureza na construção do desenvolvimento ".

A idéia de um Fórum Social Mundial, como alternativa e contra-peso ao Fórum Econômico Mundial de Davos, surgiu em 2000, entre alguns líderes de ONGs et movimentos sociais brasileiros. Logo, receberam o apoio de algumas grandes redes e ONGs mundiais. O 2o Fórum foi além da vocação de ser um simples anti-Davos. Certamente, tudo é contrário. Bernard Lestienne escreveu: " O direito de inscrição de uma organização em Davos custava 25 mil dólares, sem contar a inscrição pessoal e os gastos de hotel de cada participante. Em Porto Alegre, cada organização pagava 60 dólares para o primeiro inscrito e 30 para os seguintes. New York mobilizou 3500 soldados para a segurança dos 3000 participants ; à Porto Alegre, 700 policiais bastaram para a segurança de 60.000 inscritos. Mas, isso não é ainda o essencial. Correndo o risco de caricaturar, um dos organizadores do Fórum Mundial dizia que, em Davos, a principal preocupação era a do aumento e da acumulação da riqueza, enquanto em Porto Alegre, a primeira preocupação era a redistribuição desta e a preservação do planeta " .

Frei Gilvander Moreira escreve: "Vimos, com nossos próprios olhos: em todos os rincões do planeta Terra, que há grupos lutando por cidadania, justiça, fraternidade, pois acreditam que um novo mundo é possível e necessário. Há muito mais gente engajada na construção de um mundo mais irmão do que imaginamos. No Fórum, sentíamos ser uma só comunidade, participando da teia da vida, na casa comum, o planeta Terra. Saboreamos a fraternidade universal".


2. O Fórum Social e a Espiritualidade

Cada vez mais, há mais gente convencida: este mundo novo não se fará apenas por uma reforma social e econômica, mesmo se esta é urgente. É preciso uma transformação que toque no mais profundo do ser humano: no seu espírito. Uma das oficinas mais concorridas do Fórum foi sobre a relação entre Mística e Militância. No Fórum estavam muitos jovens ligados a um movimento que se espalha por todo o Brasil e se chama MIRE (Mística e Revolução). Mais do que no 1o Fórum, havia a presença de muita gente que estava ali pela sua fé e espiritualidade, sejam mais de dez bispos católicos, como monges orientais e uma multidão de pessoas que procuram ligar o compromisso espiritual com esta esperança feliz de que "um outro mundo é possível".

Neste 2o Fórum, houve oficinas conduzidas por órgãos da Igreja Católica como Caritas e Comissão Justiça e Paz da Ordem Dominicana, organismos ecumênicos como o CEBI (Centro de Estudos Bíblicos), a organização de teólogos Ameríndia, um grupo ecumênico reunido para um Jejum pela Paz e a presença significativa de grupos e pessoas de diversas religiões e caminhos espirituais, como muitos monges e monjas ligados ao Movimento Proutista e à Organização Internacional Ananda Marga e também fiéis do Movimento Hare-Krishna, gente ligada ao Islã, rabinos judeus, budistas e assim por diante.

A comunidade monástica do Mosteiro da Anunciação do Senhor, em Goiás, formada por monges e contando com a presença de leigos e leigas consagrados é um grupo dedicado à oração e ao trabalho pela Unidade. Decidiu participar do Fórum para dar um sinal de fraternidade e procurar ligar a busca do mundo novo possível com a espiritualidade ecumênica. Para nós era uma maneira de dizer que também nós, monges, buscamos "um outro mundo possível", reconhecemos a prioridade de transformar esta sociedade e cremos que uma espiritualidade profunda e plural pode ser um elemento fundamental nesta busca comum.

Como era a primeira vez que fomos e não conhecíamos o ambiente, houve certos imprevistos. Quando nos inscrevemos no Fórum, tínhamos nos proposto a fazer, durante o Fórum, orações ecumênicas pela Paz. A proposta era nos juntar com outros grupos, cristãos e não-cristãos, e ligar o que se estava vivendo ali com a experiência concreta de orarmos juntos. Pouco a pouco, nos demos conta de que os grupos ligados a nós, todos estavam com oficinas e com programação fechada. Nosso propósito de orar só caberia dentro de mais uma oficina paralela e desligada das demais. Desejávamos fazer orações ecumênicas e inter-religiosas, mas como sem termos podido preparar isso através de um contato humano prévio que criasse diálogo e confiança entre os diversos grupos?

A quem juntaríamos? Algumas pessoas de Porto Alegre propuseram que fizéssemos orações aproveitando o espaço do templo "Igreja da PUC". Acabamos tendo de aceitar isso e fizemos algumas orações lá. Mas, orando dentro daquela Igreja só conseguíamos atingir a quem, naturalmente, já entra com facilidade em um templo católico. Não que desejássemos conquistar pessoas ou sempre reunir massas. Não se trata disso. Mas, de nos abrir à juventude e dialogar com quem normalmente anda distante de religião. Desejávamos também nos inserir com os sem-terra, os índios, os negros, os jovens, em busca de como unir mística e militância. Tínhamos, por isso renunciado a ter nossa oficina própria (Vigília da Paz, na 6a feira e sábado, às 14 horas). Comunicamos isso por internet à equipe de organização do Fórum. Na ultima hora, vendo o livro da programação distribuído a todos, constatamos que, apesar de avisados, os organizadores não retiraram da programação a "oficina do Mosteiro". Muita gente lia aquela informação e se mostrava interessada e desejando participar. Acabamos fazendo, a partir do sábado, 02, pela manhã e à tardinha, orações ecumênicas, fora do horário oficial dos eventos.

Talvez, o ponto alto tenha sido mesmo o Ato Ecumênico no amanhecer do domingo, 03, no anfiteatro, ao ar livre. Observadores escreveram que participaram deste ato 3000 pessoas. Como o acampamento da juventude era próximo, havia muitos jovens. Tivemos conosco representantes de diversas tradições espirituais, apresentando-se um pouco de forma justaposta e não juntos como gostaríamos. Mas, foi a primeira vez e nesse sentido, foi positivo e nos ajuda a planejar melhor uma próxima vez. Quem participou avaliou positivamente.


3. Apreciação pessoal sobre alguns eventos ligados à espiritualidade

No 1o Fórum Social Mundial, o aspecto da espiritualidade ecumênica esteve quase ausente. Neste 2o Fórum, esteve presente, através de muitos representantes religiosos presentes e de algumas oficinas específicas. Mas, me pareceu ainda um esforço dispersivo e fragmentado. Em uma sala, reuniam-se os que optaram pela oficina da Comissão Justiça e Paz dos dominicanos; em outro local, a Caritas reunia outro grupo. Em dia e local diferentes, o Cebi fez sua oficina. Em uma tarde, reuniu-se o movimento jovem que busca unir Mística e Militância. De um lado, foi bom promover várias oficinas e diferentes, mas, do outro, não se sinalizou nenhuma unidade e esse esforço ficou meio pulverizado em meio a tantos eventos e assuntos importantes desse Fórum.

- Fui um dos encarregados de animar a oficina do Cebi. Fico feliz em saber que a avaliação do pessoal que participou foi positiva. Pessoalmente, não "desgostei" e, no final da oficina, avaliei positivamente. Depois, prefiro ser mais crítico e exigente comigo mesmo. Continuo achando que foi boa, mas não a senti como algo marcante. O ambiente de sala de aula, ao lado de muitas outras e com gente entrando e saindo não facilitava. Talvez o tema que escolhemos era amplo demais e pouco concreto para apenas duas horas de oficina. Diferentemente de outros, fomos realmente fiéis em ficar no método de oficina. Ninguém de nós deu palestra ou dominou. Mas, talvez, eram muitos assessores para muito pouco tempo. Também me perguntei se a maioria das pessoas que vieram participar de nossa oficina não era de gente já ligada ao Cebi que não precisa daquela oficina para trabalhar com a Bíblia ligada à vida. Como fazer? Dar uma presença e participação do nosso modo de ler a Bíblia em oficinas afins e não fazer uma própria? Fazer uma mais "dirigida" diretamente a jovens?

- Gostei muito de estar uma tarde com o grupo ecumênico que fazia um jejum pela Paz. Uma iniciativa estupenda e o grupo teve uma experiência forte e realizou uma verdadeira profecia. Só lamentei que aqueles companheiros e companheiras, encerrados em um Colégio de Porto Alegre, não pudessem colaborar melhor para o grande Ato Ecumênico na madrugada do domingo e deixassem de sinalizar a presença dos irmãos de Igrejas evangélicas no conjunto do Fórum. Gostei demais de estar com eles e admirei sua disciplina e despojamento. Mas, fiquei depois me perguntando: "Será que não seria melhor, de outra vez, fazer o jejum alguns dias antes do Fórum, concluindo-se no primeiro ou segundo dia do grande encontro, de tal forma que, ao menos nos dias finais, pudessem estar mais liberados para participar com os outros de eventos marcantes neste caminho ecumênico?

- Do mesmo modo, na 2a feira, 04, à tarde, participei por algumas horas no Seminário Inter-religioso sobre o Caminho das Religiões e a superação da Violência. Tinha muita gente interessada e boa. Minha avaliação foi que o método adotado de mesas redondas e de sorteio entre os participantes para ver quem compunha o painel, tornou o Seminário democrático, mas menos incisivo sobre o assunto em pauta e, ao menos tive essa impressão, quem mais teve a palavra no Seminário não foram as pessoas das diversas religiões e caminhos espirituais e sim os professores de Ciência da Religião das universidades que fizeram palestras sobre o assunto e os representantes religiosos escutavam. O tema mesmo (religiões e violência) me pareceu ter sido tratado de forma muito teórica e quase tangencial. De qualquer forma, valeu a pena investir naquele seminário, a grande quantidade de pessoas inscritas revela o interesse pelo assunto e o fato de juntar tanta gente sobre isso já valeu a pena. Em tudo, havia um forte vento de esperança.


4. Sonhos e esperanças para um próximo Fórum

Cada vez mais, parece claro: este mundo novo é possível, mas não se fará apenas por uma reforma social e econômica, mesmo se esta é urgente. É preciso uma transformação que toque no mais profundo do ser: no seu espírito. No Fórum, uma das oficinas mais concorridas foi a que se propunha a aprofundar a relação entre Mística e Militância. Tiveram de improvizar três grandes salas e, no final, não cabia tanta gente. A maioria era constituída de gente jovem.

Como cristão acredito que esse trabalho de renovação interior não se dá apenas por esforço pessoal. É ação divina em nós. Pede a abertura do mais profundo do ser à ação divina que nos torna pessoas novas, sinais e testemunhos deste mundo novo possível e desejado. Vejo os exercícios de meditação e os métodos de oração, em qualquer religião que seja, como um aprendizado desta abertura do coração à ação divina.

Talvez, lendo essas páginas, você se pergunte o que estou querendo. Penso que nem precisaria dizer isso, mas talvez seja bom sublinhar: não quero sacralizar o Fórum, ou comprometer sua densidade laical, civil e pluralista. Também não desejo, de forma alguma, dar visibilidade às religiões por elas mesmas, como se estivesse querendo fazer "missão". Minha intuição é que as revoluções sociais que, nos anos 60, levaram muitos ministros e cristãos a fazer a Igreja sair do confinamento nos templos e ir às ruas com os jovens e movimentos sociais têm, hoje, uma correspondência forte no Fórum Social. E, hoje, apesar de que a CNBB apóia oficialmente o Fórum e o próprio bispo presidente esteve presente em algumas oficinas, as Igrejas e religiões têm mais dificuldade de inserir-se na caminhada do povo em busca do "outro mundo possível".

Sei que o papa João Paulo II, o Dalai Lama e muitos líderes espirituais concordam com o pensamento do Hans Küng: "Para que o mundo tenha paz e justiça, é necessário e urgente que as religiões e tradições espirituais façam um esforço de diálogo e unidade".

Em 1892, por ocasião do quarto centenário da conquista da América, um bispo presbiteriano de Chicago propôs e conseguiu fundar o "Parlamento das Religiões pela Paz". Em 1970, líderes espirituais de várias tradições, com o apoio de Dom Hélder Câmara e até a assinatura de Paulo VI começaram a "Conferência das Religiões pela Paz". Nas últimas décadas, organismos semelhantes têm se multiplicado. Neste ano, em agosto, haverá no Rio de Janeiro a assembléia mundial da URI (Iniciativa das Religiões Unidas). Nós da América Latina, desde 1992, temos a APD (Assembléia do Povo de Deus), um organismo macro-ecumênico que busca a unidade a partir do dialogo e comunhão com as culturas oprimidas e contra o neo-liberalismo. Há 11 anos, em Campina Grande, cada ano, no carnaval, pessoas das mais diversas tradições se unem no "Encontro da Nova Consciência". Mas, concretamente, qual a conseqüência de tantas iniciativas louváveis para as bases de nossas comunidades? Até que ponto, esse movimento é de comunidades e tem respaldo no meio do povo? Como fazer com que não seja apenas a iniciativa de pessoas especiais, isoladas, que ficam fazendo encontros e discussões entre si? Muitas vezes, essas pessoas mais abertas são sempre as mesmas, seja qual for o nome da organização que os reúne. Será que o Fórum Social Mundial não seria, hoje, o ponto de encontro e a base civil e não religiosa necessária para que tais iniciativas se tornassem mais democráticas, menos burocráticas e mais ligadas concretamente à vida do povo oprimido?

O 3o Fórum Social Mundial, este grande encontro da humanidade já agendado, poderia ser a maravilhosa oportunidade para os religiosos/as das diversas tradições testemunharem o seu compromisso social e conectarem melhor o discurso e a prática religiosa com a busca comum da humanidade. Seria o lugar em que, novamente, as diversas tradições se comprometessem com o futuro e o presente da humanidade e do Planeta. E, concretamente, pudessem prestar a todos os presentes, a colaboração própria desses caminhos espirituais.

Será que mesmo nas esferas e círculos dos que trabalham para que um "outro mundo seja possível", às vezes, o modo de lidar com o poder não é ainda do mundo velho que criticamos? Será que não estamos querendo propor um mundo novo e não conseguimos nem dialogar entre nós como irmãos e pessoas que aceitam que o outro seja diferente de mim? Será que, como, uma vez, em Cuba, me sugeria o então ministro de Estado, Manuel Pinheiro, não deveríamos desenvolver e explicitar entre nós uma Ética e uma Espiritualidade não religiosa do/da militante deste mundo novo que buscamos? Os religiosos e religiosas abertos presentes não teriam uma função aí dentro?

Vivemos no meio de um povo, roubado de seus ritos ancestrais e ao qual só lhe é oferecido pelos meios oficiais "Casa dos artistas" e "Big Brother". Por que os responsáveis maiores pelo Fórum não percebem que se o encerramento do 2o Fórum foi bonito, marcante, comunitário, a abertura foi anódina, provinciana, desarticulada e sem um rito que envolvesse a todos? Será que não é elemento fundamental deste novo mundo possível a participação de todos e não o ficar vendo um espetáculo apresentado por alguns grupos brasileiros em um encontro que se propõe a ser mundial e plural? Não seria tarefa nossa inventar um rito leigo e pluralista, afetuoso e significativo de uma acolhida e de um caminho pela Paz que envolvesse a todos e abrisse efetivamente com o pé direito o grande encontro?

Por que para fazer um Ato Ecumênico pela Paz, durante o Fórum, tivemos de fazê-lo às 05, 30 h da manhã do domingo e praticamente fora do espaço e do tempo do Fórum? A idéia de um amanhecer ecumênico é boa e pode ser mantida, mas deveríamos pensar algo que atingisse o conjunto dos participantes e não só quem fica sabendo do evento e consegue levantar de madrugada para ir a este tipo de coisas.


5. Perguntas e propostas

Não me parece ter sentido nós, religiosos/as comprometidos com as culturas oprimidas, mantermos a APD (Assembléia do Povo de Deus) quando temos um Fórum Social Mundial, muito mais eficiente e falante na reação ao neo-liberalismo e, ao mesmo tempo, em si mesmo, um acontecimento ecumênico (uso o termo no sentido inter-religioso e inter-cultural). Em julho, teremos no Rio, promovido pelo Koinonia a 2a Jornada Ecumênica e em agosto, ainda no Rio, o grande encontro da URI (Iniciativa das Religiões Unidas). Como manter a legítima diversidade de iniciativas, mas evitar a dispersão de esforços com o risco de fragmentação? E que sinal ecumênico damos disso, se nós mesmos, cada um cuida de sua própria instituição? Seria o caso de tentar para o 2o Fórum, planejar uma espécie de "Fórum Mundial das Religiões", como já existe de várias categorias sociais? Pessoalmente, não o creio e nem proponho isso.

Nada impede que os teólogos/as se reúnam em um Fórum de diálogo teológico grande sobre o Pluralismo Religioso e o Compromisso Social. Nada impede que fizéssemos um encontro inter-monástico entre monges e espirituais de diversas tradições sobre como nos apoiar mais uns aos outros em inculturar este tipo de vida ao nosso povo latino-americano. Mas, isso seria em meio a outras oficinas e seminários.

Meu sonho é ver os religiosos e religiosas inseridos nas grandes causas do povo e não fazendo um fórum próprio. Prefiro que estejam na Marcha contra a ALCA, na luta dos Sem-Terra e no Quilombo e no Acampamento da Juventude. A minha proposta é encontrarmos o modo de colaborar com os diversos setores, descobrir como, dentro dessa grande abertura de serviços e presença, dar uma contribuição própria e articulada. Talvez, pudéssemos nos juntar em um Seminário ou Oficina, (um e não dezenas, cada qual com seus seguidores) sobre as Religiões e a Paz do mundo. E fora disso, juntos, oferecer a quem deseja, momentos de oração e meditação nas diversas tradições. Poderíamos para isso ter uma espécie de grande tenda, em lugar central e nos juntar, monges cristãos, hinduístas, budistas e todo mundo que queira. Durante o Fórum, faríamos cada dia um ou dois momentos de oração, ou faríamos orações, hoje, no Acampamento dos Sem-Terra, amanhã no Quilombo, no dia seguinte no acampamento da juventude... Mas, será que a coordenação geral do Fórum favoreceria e organizaria um momento forte de um ato ecumênico (inter-cultural e não só inter-religioso) com todos. Ou dois momentos significativos, um na abertura e outro no encerramento?

Deixo esse texto-carta inacabado para ter sua opinião e receber sua contribuição. Um abraço do irmão Marcelo Barros

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