. Os diferentes rostos do Divino
Uma espiritualidade da libertação nesta mudança de milênio Marcelo Barros
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"Atualmente, alcançamos um conforto material que antes não existia. Mas, este progresso produziu desequilíbrio. Portanto, é superficial. Quando ciência e tecnologia se tornam alienantes, quando não levam em conta a pessoa humana, acabam criando mais problemas. Por isso, este é um tempo de espiritualidade..." (Genzin Gyatzo, o Dalai Lama ). Entre os analistas da sociedade atual, muitos pensam que estamos passando por um momento de mutação civilizacional. Só posteriormente, com certa distância do tempo, os estudiosos poderão concluir se tal hipótese é correta. Lendo-se, hoje, a correspondência que, na Paris do final do século XVIII, Benjamim Franklin enviava a amigos de Boston, encontramos notícias como o levante do povo, a queda da Bastilha e a prisão do rei, mas mesmo um intelectual como ele não conseguia perceber que aqueles acontecimentos eram elos de uma corrente e faziam parte do que, depois, a ciência denominará a "revolução francesa" que trouxe tantas transformações à história do mundo. Ninguém pode negar que vivemos uma época de grandes mudanças. Este assunto interessa muito às religiões mundiais e especificamente ao cristianismo que se sente com a missão de anunciar uma mensagem atual para todos os seres humanos e para o próprio sentido do universo. As Igrejas se sentem mais ainda interpeladas por este momento, pelo fato de verem surgir no mundo inteiro, como um surto, uma espécie de fome e sede de espiritualidade, não sempre no sentido religioso do termo e sim como busca de algo mais profundo na vida, uma nova relação das pessoas consigo mesmas, com o universo e com uma transcendência que se manifesta na vida. Na América Latina, esta sensibilidade nova se desenvolve ao lado de uma revalorização das culturas e religiões ancestrais. Como quem conversa com amigos e faz perguntas, cujas respostas ficam em aberto, convido vocês a refletirmos sobre alguns destes temas e especificamente sobre como nesta realidade se descortina um novo rosto para aquilo que chamamos de "espiritualidade da libertação" nesta mudança de milênio. 1 - Religião em tempos de "Nova-Era" Uma das mais importantes obras da literatura brasileira é "Grande Sertão Veredas" de Guimarães Rosa. Toda a narrativa do romance é centrada nas memórias de Riobaldo, um homem do interior de Minas Gerais que, como um velho barqueiro do rio, ao transportar o leitor como passageiro, conta a sua vida e as lembranças da sua amizade a Diadorim, no tempo em que, quando jovem, havia sido jagunço (homem de guerra) de um bando de justiceiros do sertão. Em meio a essas memórias, Riobaldo opina: " O que mais penso, testo e explico: todo o mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que carece principalmente de religião: para se desendoidecer: desdoidar. Reza é que sara de loucura. No geral, isso é que é salvação da alma... Muita religião, seu moço. Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito todas. Bebo água de todo rio... Uma só para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele de Cardeque. Mas quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca..." . Este modo de falar do personagem expressa um jeito de pensar do povo simples. Hoje, este modo de lidar com o religioso, expresso por Riobaldo, torna-se, cada dia, mais comum. Através dos meios de comunicação de massa, hoje, em qualquer recanto do interior do Brasil ou da Bolívia, as pessoas têm contato com mestres budistas, sufis islâmicos e xamãs siberianos. Isso contém uma riqueza, mas acarreta também um desafio. Enzo Bianchi, prior da Comunidade de Bose (Itália), pronuncia-se no sentido contrário: "Acho que um dos elementos que dificultam a unificação espiritual das pessoas é o fato de que, hoje em dia, vivemos uma situação de excessiva riqueza espiritual. Hoje, as pessoas podem atingir a muitíssimas fontes espirituais. Têm acesso a inúmeras propostas religiosas e culturais do mundo inteiro. Olhem quantas tradições e métodos espirituais estão no mercado... De um lado, esta riqueza deveria ser positiva. Mas, freqüentemente, acaba levando as pessoas a certa superficialidade a respeito do que aprendem. Quando se aproximam dessas correntes espirituais, acabam valorizando aspectos exóticos e supérfluos e essa experiência não as leva a confrontar-se com a própria vida, as próprias raízes, a própria tradição. Muitas vezes, o resultado disso é estéril, infecundo " . Sem dúvida, cada um de nós conhece situações em que isso acontece. O verdadeiro pluralismo não é um tipo de justaposição de crenças e ritos que gera nas pessoas superficialidade e indefinição. Como as religiões reagem a esta nova onda de espiritualismos? A reação de alguns setores religiosos é reforçar o caráter institucional, tornar mais rígidas as leis do próprio grupo e fechar-se ao diálogo com o diferente. Infelizmente, um dos fenômenos mais influentes da nossa época é o fundamentalismo. Os grupos fundamentalistas começaram na primeira metade do século XX em comunidades evangélicas americanas. Agora, espalham-se no meio do judaísmo, do islamismo e de todas as grandes religiões do mundo. Declarações recentes da Cúria romana como a Dominus Jesus são tributárias de certo "fundamentalismo dogmático". Na vertente contrária, alguns grupos continuam o trabalho que, na Igreja Católica o papa João XXIII propunha quando falava em "aggiornamento" da religião ao mundo atual. Iniciativas de várias Igrejas em possibilitar às mulheres o acesso ao ministério ordenado, reformular suas regras morais e dialogar com a ciência fazem parte desse esforço. Há Igrejas e instituições que se adaptam à nova sensibilidade "espiritual", tornando-se menos rígidas, abertas ao diálogo com outros caminhos espirituais e mais centradas no indivíduo do que na comunidade e na transformação da sociedade. Mesmo em Igrejas tradicionais, uma recente pesquisa revela que, cada vez mais, cresce a distância entre o corpo de doutrinas oficiais da Igreja e a forma como as pessoas se relacionam com ele, evidenciando certa flexibilidade doutrinal . "Os fiéis não assumem o corpo de doutrina da Igreja católica, e sim tomam dele diversos aspectos e deixam de tomar outros. As Igrejas têm sido instituições detentoras do monopólio do religioso. Não havia adesões religiosas fora delas, do seu controle e sua salvaguarda. Eram as produtoras do religioso, definiam o que era e o que não era verdadeiro. Isso também está mudando. Os indivíduos compõem, hoje em dia, seu mundo religioso sem adotar em bloco a proposta das instituições. De certa forma produzem seu mundo religioso tomando aspectos que procedem de diferentes tradições, afastando-se do dogmático, do obrigatório e aproximando-se de adesões religiosas menos rígidas e mais flexíveis" . 2 - Espiritualismo e lógica neoliberal Há quem pense que esses atuais grupos e caminhos espiritualistas são simplesmente uma adaptação da religião à lógica e à cultura do neoliberalismo. Tentemos esboçar como seria este "espiritualismo neoliberal". - É intimista e individualista. Sem dúvida, existe uma tendência à privatização do religioso, assim como os governos neoliberais fazem privatização de empresas e serviços. É verdade que esta privatização da religião, de outras formas, já existia em outras épocas e tem até uma versão no catolicismo tradicional. Na América Latina, em época de ditadura militar, a Doutrina de Segurança Nacional sustentava que "padre deve ater-se à sacristia e religião é coisa do íntimo de cada um". E nem sempre as autoridades religiosas protestavam contra este tipo de privatização. Hoje, esta mesma tendência existe no sentido mais de um espiritualismo introvertido e centrado no "eu". - É um espiritualismo "de resultado". Busca soluções imediatas para problemas pessoais. Geralmente se baseia na sensação, no desejo de experiências momentâneas das quais se espera uma conseqüência milagrosa. - É descomprometido com o social e com a vida. Este tipo de espiritualismo se funda nas emoções, sem abertura à dimensão do compromisso pessoal e comunitário. A lógica neoliberal se infiltra nestes grupos espiritualistas como também se encontra em certos grupos e tendências do próprio cristianismo e de qualquer religião. Antigamente, alguns agentes de pastoral acusavam as religiões populares e mesmo as devoções do povo católico de ser alienadas, ou por exemplo, uma religião comercial baseada na troca: "eu dou para que tu dês". Tivemos de assumir que, às vezes, isso existia, mas de modo nenhum tal acusação generalizada era justa com as religiões populares. Hoje, se dá o mesmo com os grupos espiritualistas. Muitas vezes, são justamente grupos que lutam contra a mentalidade vigente na sociedade para proteger a natureza que eles adoram. Outros são formados por profissionais neo-liberais que deixaram empregos rentáveis para mudar de vida e reencontrar uma espiritualidade mais humanizante. Podem ser criticados sob diversos pontos de vista, mas não me parece justo dizer que são neo-liberais. A maioria dos grupos espiritualistas que conheço desenvolve uma sensibilidade religiosa oriental (hindu ou budista) que, mesmo ocidentalizada, não vem de uma sociedade neoliberal. Desconfio que, às vezes, alguns agentes de pastoral usam este tipo de suspeita e acusação sobre pessoas e grupos destas novas correntes de espiritualidade, exatamente pela mesma reação com que bispos tradicionais se sentem "ameaçados" quando percebem que a Igreja Católica perde a hegemonia social frente ao sucesso dos novos grupos religiosos. O assunto merece um estudo sério. Darei um exemplo sobre o que acontece no Centro-oeste brasileiro, onde moro a 23 anos. É a região do Brasil onde mais se desenvolve o esoterismo e novos grupos espiritualistas. Uma pesquisa do início dos anos 90 revelava que somente em Brasília atuavam mais de 700 grupos religiosos diferentes. Mais ao norte, Alto Paraíso é a capital brasileira dos esotéricos e místicos. Há quem pense que esse fenômeno está ligado apenas à classe alta e urbana, de formação ocidental e nada tem a ver com as raízes indígenas e negras. A realidade é mais complexa: ali existe um misticismo de tipo "Nova Era" com características mais orientais. Entretanto, este espiritualismo encontra tanto espaço por aqui justamente porque serve como chama de fogo perto de capim seco. Durante séculos, nesta região, as religiões indígenas e negras foram proibidas. Para manter alguns ritos, os grupos indígenas os conservavam como secretos. Na história recente, alguns movimentos sociais assumiram uma espiritualidade messiânica. Isso aconteceu na revolta dos lavradores em Trombas (1950) e no movimento da Santa Dica. Na década de 30, uma adolescente (Dica) "ressuscitou" do caixão no qual iria ser enterrada. Recebeu mensagem dos anjos para chefiar um exército de devotos na luta pela terra. Os bispos e padres perseguiram o movimento e condenaram a santa. Mas o povo acreditava nela. Diversas crenças que ela pregava, como o culto dos anjos, se juntam agora com a nova sensibilidade espiritual e criam um sincretismo entre religião popular e Nova Era . Esses grupos espiritualistas são muito heterogêneos e nem todos respeitam as tradições populares. Só chamo a atenção para o fato de que nós, católicos e evangélicos, temos uma tal dívida de justiça com as religiões populares, negras e indígenas que, até por uma questão básica de justiça, devemos evitar classificações apressadas e primárias. No sentido contrário, os irmãos e irmãs das diversas confissões cristãs que aceitam dialogar e colaborar com estes novos grupos têm prestado um bom serviço à Ecologia e a uma educação para a cultura da Paz. Este diálogo intercultural e inter-religioso revela que, cada vez mais, a credibilidade de uma religião depende da colaboração que esta dá à humanidade para construirmos juntos um mundo de paz e justiça. 3 - O ressurgimento de uma espiritualidade autóctone Nos últimos dez anos, um dos fenômenos mais importantes da América Latina tem sido o ressurgimento de um movimento popular a partir das culturas negras e indígenas. Viajando por toda a América Latina, o teólogo Giulio Girardi percebeu este fenômeno e tem chamado a atenção para isso . Desde que, em Chiapas, os indígenas chamaram a atenção do mundo inteiro e, através de muito sofrimento e de uma revolução pacífica, conseguiram que sua sobrevivência e sua cultura fossem levadas a sério, o continente latino-americano viu eclodir diversas manifestações de vitalidade e protagonismo de organizações indígenas, como a CONAIE no Equador e outras manifestações indígenas na Bolívia e em diversos outros países. Neste abril de 2000, no contexto das comemorações dos 500 anos de colonização no Brasil, o que chamou a atenção do mundo não foi o conjunto de cerimônias governamentais ou mesmo a Missa feita pelos bispos. O mundo se emocionou com a mobilização indígena que enfrentou pacificamente a truculência dos militares e foi comparada pela imprensa com as manifestações dos dissidentes por ocasião da repressão praticada pelo governo chinês contra os manifestantes na Praça Celestial em Pequim (1990). Este movimento popular que une comunidades indígenas, grupos negros e organizações populares (crioulas) surgiu a partir das comemorações alternativas aos 500 anos da conquista (1992). De lá para cá, mesmo com todas as dificuldades de articulação, têm se fortalecido. Não a partir apenas de reivindicações sociais e políticas, mas baseada na revalorização das culturas. Dentro deste movimento cultural, as religiões desempenham uma importante função. No Brasil, têm crescido muito o culto dos Orixás e toda uma série de ritos indígenas que muitos consideravam extintos. No nordeste brasileiro, há dois anos, o Cacique Xicão foi assassinado por ter reunido novamente a comunidade dos índios Xucuru, dispersos pelas periferias das cidades. Ele conseguiu que os mais velhos ensinassem aos mais novos a antiga língua o modo próprio de louvar a Deus. O cacique foi assassinado por mando dos fazendeiros, mas hoje a comunidade indígena ocupa uma parte de sua terra ancestral, pouco a pouco retoma o seu idioma e nas noites de lua, louva a Deus com seus antigos cultos. Mesmo as populações indígenas já inseridas na cultura ocidental e cuja religião desde gerações é o cristianismo querem ter o direito de ser cristãos como indígenas e de forma verdadeiramente própria. Desta revalorização das religiões indígenas e da busca do direito de se constituir um cristianismo autóctone, indígena ou negro, têm se fortalecido no continente, tanto uma Teologia Índia, como uma Teologia Negra. 4 - A proposta espiritual do Macro-ecumenismo Aprendemos das comunidades indígenas e negras uma profunda abertura para com as mais diversas intuições religiosas. De certo modo, foi esta abertura que, algumas vezes, facilitou a colonização e o desrespeito com que foram tratados. Hoje, sentimo-nos chamados por Deus para nos manter abertos ao diálogo e à comunhão com o outro e, ao mesmo tempo, não ser superficiais ou não cair na moda do mercado religioso do momento. Mantemos a identidade própria de nossa fé cristã. Ela nos chama ao diálogo e realizar verdadeiramente um caminho de comunhão com as culturas e religiões das pessoas e grupos com os quais nos relacionamos. O Macro-ecumenismo é escola de espiritualidade porque é caminho de busca de Deus, onde quer que ele se revele. Como escrevem os bispos da Ásia: "O fundamento principal da teologia do diálogo e das religiões é a certeza da universalidade da graça de Deus. Deus que se dá é algo sobre o qual nós, seres humanos, não podemos exercer nenhum controle. Os caminhos da graça divina são misteriosos e nós conhecemos mal os caminhos de Deus lidando com os seres humanos colocados em grande variedade de situações, inclusive religiosas. Mas sabemos que o Cristo é o centro universal de Deus no seu diálogo com a humanidade. Eis porque deveríamos conhecer o que Deus disse e continua dizendo de mil maneiras. Consagrar a isso nossa atenção é em última análise prestar homenagem à graça divina" . Foi com este espírito que, no primeiro encontro da Assembléia do Povo de Deus, em Quito (14 a 18 de setembro de 1992), organismo que reuniu Igrejas, movimentos populares e grupos indígenas e negros, os participantes publicaram um Manifesto que afirma: "O verdadeiro Ecumenismo é maior do que o Ecumenismo (compreendido como as Igrejas o compreendem), porque a Oikoumene é toda a terra habitada (...) Além de potenciar cada dia mais, o ecumenismo entre as Igrejas cristãs, propomos que se dê um maior impulso à unidade do cristianismo com as outras religiões, especialmente às religiões populares latino-americanas" . Para este ecumenismo que têm as dimensões universais do povo de Deus, Dom Pedro Casaldáliga cunhou um termo que o 1o Encontro da Assembléia do Povo de Deus em Quito oficializou: "Macro-ecumenismo" . Estudiosos e ecumenistas já discutiram o acerto ou equívoco deste termo . Mesmo se concordamos com sua ambigüidade e ninguém falaria em "micro-ecumenismo", o fato é que o termo Macro-ecumenismo tornou-se um símbolo em todo o continente "latino-afro-ameríndio". O Documento de Quito justifica a proposta do Macro-ecumenismo, afirmando que: 1 - Deus é sempre maior do que nossas Igrejas, religiões e projetos humanos. 2- Deus tem um sonho: "a unidade da família humana, dentro da lei suprema do amor. (...) "As cristãs e cristãos presentes neste encontro nos sentimos profundamente chamados à conversão. (...) Queremos, através do testemunho da unidade, colaborar com os processos através dos quais os nossos povos estão construindo a outra democracia, a das filhas e filhos de Deus, irmanados entre si " . 5 - Desafios para a Espiritualidade Macro-ecumênica Seja qual for o adjetivo, chamamos de "espiritualidade" uma vida conduzida pelo Espírito de Deus, como dom a ser vivido e desenvolvido pelas Igrejas. Certamente, um primeiro desafio é que diante de religiões populares, profundamente místicas e espirituais, as Igrejas cristãs não se apresentam como boas interlocutoras neste mesmo campo. Já um autor norte-americano escrevia em 1947 e depois novamente em 1971: "Ao mesmo tempo em que a nossa época sofre de um ardente desejo espiritual, percebemos na religião cristã oficial, um empobrecimento do espírito. Fora de alguns fenômenos excepcionais e de pessoas extraordinárias, não sentimos na Igreja sinais fortes de uma vida espiritual" . Muitas vezes, nas periferias urbanas e no campo, quando o povo precisa de um conselho ou quer alguém de autoridade espiritual reconhecida, procura um rezador, uma benzedeira, ou mãe de santo. Procuram o padre quando precisam de atos oficiais como batizar filhos ou encomendar defuntos. 5. 1 - Bispos, padres e pastores: o que é macro-ecumenismo? Setores oficiais da Igreja Católica e de outras Igrejas aceitam o diálogo com as religiões populares, mas continuam mantendo uma posição de superioridade. Uma mãe de santo desabafava: "É difícil dialogar com católicos porque, em nome de Jesus, eles querem ter a primeira e a última palavra. Da parte do Candomblé, como dialogar quando já se parte do princípio que estamos cheios de erros e temos apenas "sementes de verdade", estas mesmas vindas da Igreja Católica?". Um importante desafio para uma espiritualidade macro-ecumênica é que nós, cristãos, assumamos a fé em Jesus Cristo de modo que ela não nos divida dos outros crentes e não utilizemos Jesus para legitimar nossas divisões humanas. Da parte de alguns setores das religiões indígenas e negras, a longa história de opressão e perseguição provoca revolta e desconfianças. Embora o espírito destas religiões seja sempre aberto e tolerante, com os militantes que os representam, nem sempre se consegue a calma e o espírito necessários ao diálogo. É um problema que só o tempo vai ajudar. Outro desafio importante é que alguns pastores evangélicos, como também bispos e padres católicos aceitam dialogar com religiões populares, mas não com os fiéis destas religiões que são cristãos. Em toda a América Latina, há muita gente indígena e negra que, sem justaposição, vive a fé cristã e, ao mesmo tempo, participa dos cultos ancestrais. Os pastores rejeitam fortemente este "sincretismo", sem se dar conta de que 1 - o sincretismo entre cristianismo e religiões populares existe porque a Igreja obrigou índios e negros a serem batizados como católicos. 2 - assim como existe um sincretismo de confusão (negativo), existe um sincretismo de síntese. Muita gente é católica ou evangélica a partir da cultura negra, ou indígena, assumindo em seu modo de viver a fé cristã, elementos da religião negra ou indígena, sem confusão, nem relativismos. 5. 2 - Desafios da espiritualidade pentecostal No cristianismo, o movimento que mais cresce é o Pentecostalismo. Em um livro recente, José Maria Vigil lembrava que o Pentecostalismo é a forma de cristianismo que mais cresce na África, na Ásia e, a cada hora, 400 latino-americanos entram em um grupo pentecostal. Enquanto algumas Igrejas reforçam uma involução institucional, as massas procuram alternativas em grupos pentecostais e neopentecostais. A intuição pentecostal clássica seduz latino-americanos e africanos porque tem em sua origem uma abertura cristã à cultura negra. O Pentecostalismo começou em meio a grupos negros de Igrejas evangélicas americanas que se sentiam discriminados em suas Igrejas e foram obrigados a se tornar comunidades eclesiais independentes para viver a fé sem a humilhação do racismo. Assim, o primeiro grupo pentecostal começou em 1906, em Azuza Street (Los Angeles) - uma Igreja de negros sob a direção de William Seymour (1870- 1922). Buscava uma espiritualidade ecumênica acima de raças e classes. Pela primeira vez, dirigentes eclesiásticos brancos permitiram que negros lhes impusessem as mãos. "Foi a única comunidade cristã fundada por um cristão negro" . Com o tempo e para serem bem aceitos por outras Igrejas, os grupos pentecostais foram deixando esta base cultural negra e começaram a assumir costumes e estilos das Igrejas evangélicas. Esqueceram a luta contra o racismo e passaram a condenar as manifestações culturais e religiosas negras. Mesmo assim, não conseguem negar a alma negra que persiste oculta por trás das aparências. Para uma espiritualidade macro-ecumênica, o desafio é que a leitura fundamentalista da Bíblia, ainda existente em muitos grupos pentecostais (não em todos) faz com que rejeitem qualquer diálogo com as outras religiões, principalmente com as religiões populares, vistas como demoníacas e idolátricas. Também em setores da Igreja Católica e Igrejas históricas, a mentalidade pentecostal existe nos grupos carismáticos ou de "reavivamento espiritual". Dizem-se grupos do Espírito, mas, ao contrário do que seriam os frutos do Espírito, são fundamentalistas e fechados a qualquer novidade. Graças a Deus, nos próprios ambientes das Igrejas pentecostais começam a surgir grupos mais abertos e ecumênicos. No Brasil, alguns setores das Assembléias de Deus integraram o Movimento Evangélico Progressista, com uma linha política favorável aos partidos populares de oposição. 5. 3 - Neo-pentecostalismo: novos grupos religiosos O fenômeno mais novo no cristianismo latino-americano é o Neo-Pentecostalismo que muitos confundem com o Pentecostalismo clássico. As Igrejas e grupos neopentecostais nasceram na década de setenta, a partir de conflitos e ambições pessoais. São, em geral, Igrejas de um pastor, ou um "bispo", juntando elementos doutrinais de origem pentecostal com outros oriundos do catolicismo popular (bênçãos, símbolos, etc). São grupos que pretendem responder a situações de carência do povo das periferias com uma teologia da prosperidade. "Basta de sofrer! Entre na Igreja e exija de Deus o que ele pode lhe dar". É preciso distinguir nestes grupos, os líderes e as comunidades. Nestas Igrejas, como em qualquer uma, o povo pode viver uma fé autêntica e esperançosa na graça de Deus. Embora nem todos os pastores sejam exploradores, o tipo de teologia destes grupos se presta a isso. Para muitos fiéis, as Igrejas neopentecostais são "comunidades de passagem". Reúnem pessoas que já pertenceram a cinco confissões diferentes e nada garante que permaneçam na nova Igreja por muito tempo. O desafio maior na relação com estes grupos é manter-se fiel a uma espiritualidade ecumênica e, ao mesmo tempo, não ser conivente com fenômenos de exploração do povo. Para ser justos, não podemos esquecer que casos de exploração econômica da piedade popular também existem na Igreja Católica (por exemplo, em alguns santuários de peregrinação). O fenômeno neopentecostal ainda está sendo estudado por pesquisadores da religião e devemos evitar conclusões apressadas. 6 - A espiritualidade macro-ecumênica das CEBs As comunidades eclesiais de base surgiram na década de 60 a partir da intuição de ligar mais profundamente a fé e a vida. Fazem isso, procurando sempre estar abertas à ação do Espírito. Isso supõe viver um caminho de ecumenicidade que não é apenas a pastoral ecumênica ou inter-religiosa no sentido estrito. Chamo de ecumenicidade uma dimensão de universalidade e abertura ao outro que é o próprio jeito de Deus na Bíblia e que aprendemos com Jesus se nos deixarmos ensinar pelo modo de pensar, falar e agir de Jesus. O 10o Encontro Nacional de CEBs em Ilhéus, Ba, (julho de 2000) confirmou que as comunidades continuam e aprofundam este caminho. Eis alguns traços desta espiritualidade das CEBs: 6.1 - É uma espiritualidade inculturada Para que uma amizade seja verdadeira, é fundamental que ambos os parceiros da amizade sejam verdadeiros e cada um/a seja ele/ela mesmo/a na relação. À medida que as comunidades cristãs populares assumem mais a sua cultura própria, traços negros, indígenas e morenos ou crioulos se tornam elementos importantes do rosto comunitário e espiritual. Tanto as orações como toda a vida espiritual destes grupos recebem das culturas originais algumas contribuições próprias, como: - a relação com o próprio corpo. Cada vez mais nas comunidades eclesiais de base, as pessoas vivem a fé a partir do corpo. Quem participa de encontros e celebrações sabe como se valorizam as danças, as expressões corporais e a própria beleza das pessoas. O corpo não é apenas um meio de comunicação. É mais: é sacramento da presença divina e instrumento de comunhão. Há quem, olhando de fora, celebrações e encontros das comunidades cristãs populares, os julgue pouco sérios. Parecem lúdicos demais. Penso que esta é uma das características de seu caminho espiritual. Místicos medievais ensinavam: "Cada um de nós tem uma dimensão mística. É a criança que existe dentro de nós". "Deus conduz a criança que existe dentro de nós a um local secreto e brinca com ela. Ele afirma: "Eu sou teu companheiro de brinquedos. Tua infância é a companhia para meu Espírito. Conduzirei a criança que existe em ti de forma maravilhosa, pois te escolhi" . Nesse sentido, o Evangelho insiste na infância espiritual e na alegria das bem-aventuranças. Muitas vezes, a tradição ocidental fixou-se em métodos de espiritualidade que tornam as pessoas sérias demais, artificialmente adultas. - a relação de gênero: masculino e feminino Nas culturas e religiões populares, mesmo naquelas que também têm traços patriarcais, a mulher tem um lugar importante na mística. Nas culturas negras, muitas vezes é a Iaolorixá: a mãe de santo. Em algumas culturas indígenas, a depositária dos sonhos e da sabedoria dos antigos... Nas comunidades cristãs populares, a maioria dos grupos tem coordenação e animação garantidas por mulheres. Estas celebram a Palavra, pregam e são profetizas de Deus. Nos últimos encontros intereclesiais, as comunidades têm sempre pedido que as Igrejas abram às mulheres o pleno acesso aos ministérios. Nas comunidades de base, este caminho já começou. - a relação com a terra e com a criação Todas as religiões e caminhos espirituais de nossos povos veneram a terra e a têm como sacramento do amor de Deus. As comunidades eclesiais têm recuperado esta espiritualidade da terra, tanto no amor ao cultivo do campo, como na mística que anima os sem-terra e indígenas à luta para recuperarem seus territórios ancestrais, seja mesmo nas periferias urbanas, no trabalho pela moradia e na relação com a natureza. Em muitos lugares, as comunidades têm valorizado a agricultura alternativa e natural por motivações espirituais. Nos cultos, a relação com a natureza está sempre presente. 6.2 - É uma espiritualidade bíblica A maioria das CEBs surge como grupos de reflexão bíblica, em torno da Palavra de Deus, ligada à vida concreta e a todos os seus desafios. Por toda a América Latina, espalhou-se um método de leitura popular da Bíblia que é, ao mesmo tempo, orante e militante, sociológico e espiritual. Nas comunidades, esta leitura bíblica é vivida, prioritariamente como leitura comunitária e aberta a todas as outras religiões e culturas. Hoje se desenvolve uma leitura índia da Bíblia, uma leitura negra e assim por diante, sempre buscando uma forma de ler que crie comunhão e não que exclua. É uma leitura militante, vivida para responder aos irmãos e irmãs o que Deus pede de nós na luta da vida. 6.3 - É uma espiritualidade da Aliança Este convívio com a Palavra de Deus dá às comunidades uma profunda mística da Aliança de intimidade com Deus. A reflexão bíblica é sempre feita no âmbito da oração e esta é vivida como relação de intimidade. Em um encontro bíblico, um lavrador do nordeste brasileiro dizia: "Fui notando que se a gente vai deixando a Palavra de Deus entrar dentro da gente, ela vai nos divinizando. Vai tomando conta da gente de tal modo que chega a um ponto que não se consegue mais separar o que é palavra de Deus e é palavra da gente. Acho que a Bíblia fez isso em mim" . 6.4 - É Espiritualidade de Vida que recupera a Mística do Reino Para ser verdadeiramente macro-ecumênica, uma espiritualidade tem de ser reinocêntrica, o que em nada diminui o lugar central de Jesus Cristo na vida e no amor das comunidades. A Teologia e Espiritualidade da Libertação surgiram a partir de uma moção espiritual dos cristãos que buscavam como responder ao apelo de Deus, testemunhando o seu amor e sua solidariedade às multidões exploradas e empobrecidas pela injustiça do mundo. Hoje, dizemos, mais do que oprimidas, são mesmo excluídas da vida e das possibilidades de viver. Podemos reler todo o acontecimento e os documentos da 2a Conferência dos bispos católicos em Medellin (1968) a partir desta chave da espiritualidade profética e mística do Reino. O próprio tema da Conferência: "A Igreja na atual transformação da América Latina..." indicava uma Igreja que se sentia chamada a responder aos apelos urgentes da realidade e como dizia a introdução aos documentos finais: "a vocação de unir numa síntese nova e genial o antigo e o novo, o espiritual e o temporal, o que os outros nos legaram e a nossa própria originalidade" . O documento continua dizendo: "Nesta assembléia do episcopado latino-americano, renovou-se o mistério de Pentecostes" . É o Espírito Santo que nos abriu a esta dinâmica do Reino de Deus, acontecendo quase palpavelmente no meio dos pequeninos e preferidos do Pai, numa vocação de Igreja-serviço que se vê voltada para o mundo e não para si mesma. Desde o início dos anos 70, esta mística do Reino de Deus deu força à caminhada das comunidades e movimentos populares. Deu esperança a muita gente perseguida, sustentou o testemunho de tantos/as mártires que com seu sangue revelam a veracidade do nosso caminho. Ultimamente, a sensibilidade espiritual mais intimista e a tendência das Igrejas se fecharem mais no religioso-institucional fazem com que, às vezes, a mística do Reino pareça estar meio esquecida ou menos valorizada. As comunidades de base são portadoras deste carisma: relembrar às Igrejas a centralidade da mística do Reino e vivê-la profundamente. É esta mística que permite que, no Brasil, se mantenha firme o Movimento Fé e Política que reúne leigos e leigas que entraram na Política partidária por um apelo da sua fé e de sua missão e não por mera ambição pessoal. Ocorre que, muitas vezes, as Igrejas os educam para assumir esta vocação, mas quando os leigos a assumem e são eleitos para cargos eletivos, a Pastoral não os acompanha. Graças a Deus o Movimento Fé e Política possibilita retiros e encontros nos quais eles e elas podem abastecer-se espiritualmente e receber o necessário apoio fraterno para realizar melhor sua missão, nestes dias, cada vez mais difícil. Hoje, em muitas situações cotidianas, a mística do Reino é simplesmente a defesa da vida e o apego à vida, em realidades onde parece que tudo leva à morte e à destruição. A espiritualidade do Reino é o que nos faz lutar pela vida nossa e dos outros. 7 - Questões para continuar o caminho (Sem querer tirar conclusões) Esta conversa a qual lhes convidei chega ao final. Não à sua conclusão. Muita coisa resta por dizer e refletir, perguntar-se e desejar. Se, por tudo o que lhes escrevi, vocês compreendessem que a Espiritualidade da Libertação está em alta e as comunidades e movimentos populares estão em excelente situação com relação a este assunto, eu teria cometido uma incoerência com o próprio conteúdo mais profundo da Espiritualidade. O sinal de que começamos a conhecer a Deus é sentir que não o conhecemos bastante e que somos pecadores e relaxados. O primeiro apelo que Jesus nos faz é o da conversão permanente. Aqui descrevi a base maravilhosa que recebemos de Deus e da história de nossas Igrejas. Aqui delineei as intuições do caminho, mas muito resta a percorrer. Se pudesse conversar agora com as Igrejas e comunidades que seguem este caminho, lhes recordaria a palavra do Senhor no Apocalipse ao anjo da Igreja de Éfeso: "Conheço tuas obras, tuas fadigas e tua perseverança... mas, tu abandonaste o teu primeiro amor. Arrepende-te e volta ao caminho do princípio" (Ap 2, 2. 5). Com este espírito, a você que está lendo e às comunidades, reparto o que para mim é sempre um propósito diário no caminho espiritual: - Refazer em nós o desejo e a procura de Deus "O teu desejo é tua oração. Tu só deixas de orar se deixares de desejar" (Sto Agostinho) Deus é Aquele que se revela como próximo, mas ao mesmo tempo, ele se revela sempre "por trás da nuvem escura". É muito próximo e, ao mesmo tempo, Deus sempre oculto. Em anos passados, contemplando-o no meio da luta pela libertação, muitos de nós de comunidades de base e movimentos populares falávamos de Deus quase como se o possuíssemos e como se ele, Libertador, já estivesse conosco de forma que quase não o procurávamos mais. Ele nos espera sempre no deserto e se não aceitamos o deserto, não o encontramos. São João da Cruz e Santa Teresa nos falaram da "noite escura da fé" e de como encontramos a Deus no "nada" e no vazio. Parece que hoje é difícil aceitar isso. A cruz de uma multidão de irmãos e o deserto das esperanças políticas nos ajudam a reviver esta tradição no engajamento e na inserção social. - Retomar uma mística de diálogo e sempre rever como lidamos com o poder. Não apenas o poder da Igreja ou do Estado, mas o nosso pequeno poder. O que caracteriza o Deus da Bíblia é que, desde o princípio, Ele cria se retirando. Instaura um diálogo no qual ele se revela como respeitador do parceiro e para encontrá-lo, temos sempre que buscá-lo no outro e aceitar não nos impor. - Retomar de forma ecumênica a relação de amor com Jesus A verdadeira espiritualidade bíblica é para o cristão cristocêntrica no sentido de consistir no seguimento de Jesus como discípulo(a). Mas, o que é ser discípulo(a) de Jesus? É deixar-se penetrar pela fé e pelo amor de Jesus. A carta aos hebreus chama Jesus de "autor e consumador da nossa fé"(12, 2). Então, eu tenho fé em Jesus, assumindo a fé de Jesus: o seu modo de crer, de amar e de viver a relação com o Pai, com a missão e com o mundo. Quando a gente consegue isso, compreende que Jesus é pontífice (aquele que faz a ponte) e não obstáculo entre uma cultura e outra, entre pessoas de uma religião e outra. Uma pessoa ou comunidade cristã tem como opção fundamental parecer-se com Jesus. Jon Sobriño escreve: "Parecer com Jesus é reproduzir a estrutura fundamental da vida dele. É assumir para si a missão e o jeito de Jesus, vivendo como ele a misericórdia com os outros como um princípio permanente e estruturador da vida e aceitando carregar sobre si o pecado do mundo e receber do Pai, pela força do Espírito, a ressurreição" . - Aprofundar uma mística da Paz Na América Latina, em situações de extrema opressão e obrigados pelas circunstâncias, os cristãos engajados participaram de movimentos revolucionários e viveram muitas vezes as lutas pela justiça. Em décadas passadas, tínhamos sempre de insistir na mística da justiça e queríamos a paz, mas nem tínhamos direito a desenvolver uma mística concreta da Paz. Hoje, prosseguimos o mesmo anseio pela justiça e o apoio aos irmãos e irmãs que devem defender a vida em situações-limites, mas somos chamados por Deus a aprofundar uma mística da Paz, tanto em nossas relações interpessoais, como na busca da Paz para o mundo. Isso põe o nosso caminho em comum com muitos irmãos e irmãs do mundo inteiro, de diversas religiões e culturas que professam a Paz como novo nome da fé e como manifestação do Deus da Vida. Hoje, uma Espiritualidade da Vida tem de ser Espiritualidade da Paz. Para nós, cristãos latino-americanos, este caminho de trabalho pela paz é uma forma de obedecer e tornar atual a proposta dos bispos latino-americanos em Medellin: "Que se apresente cada vez mais nítido, na América Latina, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de toda a humanidade" (Medellin. 5, 15 a) (Uma espiritualidade da libertação nesta mudança de milênio) Marcelo Barros "Atualmente, alcançamos um conforto material que antes não existia. Mas, este progresso produziu desequilíbrio. Portanto, é superficial. Quando ciência e tecnologia se tornam alienantes, quando não levam em conta a pessoa humana, acabam criando mais problemas. Por isso, este é um tempo de espiritualidade..." (Genzin Gyatzo, o Dalai Lama ).

Entre os analistas da sociedade atual, muitos pensam que estamos passando por um momento de mutação civilizacional. Só posteriormente, com certa distância do tempo, os estudiosos poderão concluir se tal hipótese é correta. Lendo-se, hoje, a correspondência que, na Paris do final do século XVIII, Benjamim Franklin enviava a amigos de Boston, encontramos notícias como o levante do povo, a queda da Bastilha e a prisão do rei, mas mesmo um intelectual como ele não conseguia perceber que aqueles acontecimentos eram elos de uma corrente e faziam parte do que, depois, a ciência denominará a "revolução francesa" que trouxe tantas transformações à história do mundo.

Ninguém pode negar que vivemos uma época de grandes mudanças. Este assunto interessa muito às religiões mundiais e especificamente ao cristianismo que se sente com a missão de anunciar uma mensagem atual para todos os seres humanos e para o próprio sentido do universo. As Igrejas se sentem mais ainda interpeladas por este momento, pelo fato de verem surgir no mundo inteiro, como um surto, uma espécie de fome e sede de espiritualidade, não sempre no sentido religioso do termo e sim como busca de algo mais profundo na vida, uma nova relação das pessoas consigo mesmas, com o universo e com uma transcendência que se manifesta na vida.

Na América Latina, esta sensibilidade nova se desenvolve ao lado de uma revalorização das culturas e religiões ancestrais. Como quem conversa com amigos e faz perguntas, cujas respostas ficam em aberto, convido vocês a refletirmos sobre alguns destes temas e especificamente sobre como nesta realidade se descortina um novo rosto para aquilo que chamamos de "espiritualidade da libertação" nesta mudança de milênio.


1 - Religião em tempos de "Nova-Era"

Uma das mais importantes obras da literatura brasileira é "Grande Sertão Veredas" de Guimarães Rosa. Toda a narrativa do romance é centrada nas memórias de Riobaldo, um homem do interior de Minas Gerais que, como um velho barqueiro do rio, ao transportar o leitor como passageiro, conta a sua vida e as lembranças da sua amizade a Diadorim, no tempo em que, quando jovem, havia sido jagunço (homem de guerra) de um bando de justiceiros do sertão. Em meio a essas memórias, Riobaldo opina:

" O que mais penso, testo e explico: todo o mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que carece principalmente de religião: para se desendoidecer: desdoidar. Reza é que sara de loucura. No geral, isso é que é salvação da alma... Muita religião, seu moço. Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito todas. Bebo água de todo rio... Uma só para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele de Cardeque. Mas quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca..." .

Este modo de falar do personagem expressa um jeito de pensar do povo simples. Hoje, este modo de lidar com o religioso, expresso por Riobaldo, torna-se, cada dia, mais comum. Através dos meios de comunicação de massa, hoje, em qualquer recanto do interior do Brasil ou da Bolívia, as pessoas têm contato com mestres budistas, sufis islâmicos e xamãs siberianos. Isso contém uma riqueza, mas acarreta também um desafio. Enzo Bianchi, prior da Comunidade de Bose (Itália), pronuncia-se no sentido contrário:
"Acho que um dos elementos que dificultam a unificação espiritual das pessoas é o fato de que, hoje em dia, vivemos uma situação de excessiva riqueza espiritual. Hoje, as pessoas podem atingir a muitíssimas fontes espirituais. Têm acesso a inúmeras propostas religiosas e culturais do mundo inteiro. Olhem quantas tradições e métodos espirituais estão no mercado... De um lado, esta riqueza deveria ser positiva. Mas, freqüentemente, acaba levando as pessoas a certa superficialidade a respeito do que aprendem. Quando se aproximam dessas correntes espirituais, acabam valorizando aspectos exóticos e supérfluos e essa experiência não as leva a confrontar-se com a própria vida, as próprias raízes, a própria tradição. Muitas vezes, o resultado disso é estéril, infecundo " .

Sem dúvida, cada um de nós conhece situações em que isso acontece. O verdadeiro pluralismo não é um tipo de justaposição de crenças e ritos que gera nas pessoas superficialidade e indefinição.

Como as religiões reagem a esta nova onda de espiritualismos? A reação de alguns setores religiosos é reforçar o caráter institucional, tornar mais rígidas as leis do próprio grupo e fechar-se ao diálogo com o diferente. Infelizmente, um dos fenômenos mais influentes da nossa época é o fundamentalismo. Os grupos fundamentalistas começaram na primeira metade do século XX em comunidades evangélicas americanas. Agora, espalham-se no meio do judaísmo, do islamismo e de todas as grandes religiões do mundo. Declarações recentes da Cúria romana como a Dominus Jesus são tributárias de certo "fundamentalismo dogmático".

Na vertente contrária, alguns grupos continuam o trabalho que, na Igreja Católica o papa João XXIII propunha quando falava em "aggiornamento" da religião ao mundo atual. Iniciativas de várias Igrejas em possibilitar às mulheres o acesso ao ministério ordenado, reformular suas regras morais e dialogar com a ciência fazem parte desse esforço. Há Igrejas e instituições que se adaptam à nova sensibilidade "espiritual", tornando-se menos rígidas, abertas ao diálogo com outros caminhos espirituais e mais centradas no indivíduo do que na comunidade e na transformação da sociedade. Mesmo em Igrejas tradicionais, uma recente pesquisa revela que, cada vez mais, cresce a distância entre o corpo de doutrinas oficiais da Igreja e a forma como as pessoas se relacionam com ele, evidenciando certa flexibilidade doutrinal .

"Os fiéis não assumem o corpo de doutrina da Igreja católica, e sim tomam dele diversos aspectos e deixam de tomar outros. As Igrejas têm sido instituições detentoras do monopólio do religioso. Não havia adesões religiosas fora delas, do seu controle e sua salvaguarda. Eram as produtoras do religioso, definiam o que era e o que não era verdadeiro. Isso também está mudando. Os indivíduos compõem, hoje em dia, seu mundo religioso sem adotar em bloco a proposta das instituições. De certa forma produzem seu mundo religioso tomando aspectos que procedem de diferentes tradições, afastando-se do dogmático, do obrigatório e aproximando-se de adesões religiosas menos rígidas e mais flexíveis" .


2 - Espiritualismo e lógica neoliberal

Há quem pense que esses atuais grupos e caminhos espiritualistas são simplesmente uma adaptação da religião à lógica e à cultura do neoliberalismo. Tentemos esboçar como seria este "espiritualismo neoliberal".

- É intimista e individualista.
Sem dúvida, existe uma tendência à privatização do religioso, assim como os governos neoliberais fazem privatização de empresas e serviços. É verdade que esta privatização da religião, de outras formas, já existia em outras épocas e tem até uma versão no catolicismo tradicional. Na América Latina, em época de ditadura militar, a Doutrina de Segurança Nacional sustentava que "padre deve ater-se à sacristia e religião é coisa do íntimo de cada um". E nem sempre as autoridades religiosas protestavam contra este tipo de privatização. Hoje, esta mesma tendência existe no sentido mais de um espiritualismo introvertido e centrado no "eu".

- É um espiritualismo "de resultado". Busca soluções imediatas para problemas pessoais. Geralmente se baseia na sensação, no desejo de experiências momentâneas das quais se espera uma conseqüência milagrosa. - É descomprometido com o social e com a vida. Este tipo de espiritualismo se funda nas emoções, sem abertura à dimensão do compromisso pessoal e comunitário.

A lógica neoliberal se infiltra nestes grupos espiritualistas como também se encontra em certos grupos e tendências do próprio cristianismo e de qualquer religião. Antigamente, alguns agentes de pastoral acusavam as religiões populares e mesmo as devoções do povo católico de ser alienadas, ou por exemplo, uma religião comercial baseada na troca: "eu dou para que tu dês". Tivemos de assumir que, às vezes, isso existia, mas de modo nenhum tal acusação generalizada era justa com as religiões populares. Hoje, se dá o mesmo com os grupos espiritualistas. Muitas vezes, são justamente grupos que lutam contra a mentalidade vigente na sociedade para proteger a natureza que eles adoram. Outros são formados por profissionais neo-liberais que deixaram empregos rentáveis para mudar de vida e reencontrar uma espiritualidade mais humanizante. Podem ser criticados sob diversos pontos de vista, mas não me parece justo dizer que são neo-liberais. A maioria dos grupos espiritualistas que conheço desenvolve uma sensibilidade religiosa oriental (hindu ou budista) que, mesmo ocidentalizada, não vem de uma sociedade neoliberal.

Desconfio que, às vezes, alguns agentes de pastoral usam este tipo de suspeita e acusação sobre pessoas e grupos destas novas correntes de espiritualidade, exatamente pela mesma reação com que bispos tradicionais se sentem "ameaçados" quando percebem que a Igreja Católica perde a hegemonia social frente ao sucesso dos novos grupos religiosos. O assunto merece um estudo sério. Darei um exemplo sobre o que acontece no Centro-oeste brasileiro, onde moro a 23 anos. É a região do Brasil onde mais se desenvolve o esoterismo e novos grupos espiritualistas. Uma pesquisa do início dos anos 90 revelava que somente em Brasília atuavam mais de 700 grupos religiosos diferentes. Mais ao norte, Alto Paraíso é a capital brasileira dos esotéricos e místicos. Há quem pense que esse fenômeno está ligado apenas à classe alta e urbana, de formação ocidental e nada tem a ver com as raízes indígenas e negras. A realidade é mais complexa: ali existe um misticismo de tipo "Nova Era" com características mais orientais. Entretanto, este espiritualismo encontra tanto espaço por aqui justamente porque serve como chama de fogo perto de capim seco. Durante séculos, nesta região, as religiões indígenas e negras foram proibidas. Para manter alguns ritos, os grupos indígenas os conservavam como secretos.

Na história recente, alguns movimentos sociais assumiram uma espiritualidade messiânica. Isso aconteceu na revolta dos lavradores em Trombas (1950) e no movimento da Santa Dica. Na década de 30, uma adolescente (Dica) "ressuscitou" do caixão no qual iria ser enterrada. Recebeu mensagem dos anjos para chefiar um exército de devotos na luta pela terra. Os bispos e padres perseguiram o movimento e condenaram a santa. Mas o povo acreditava nela. Diversas crenças que ela pregava, como o culto dos anjos, se juntam agora com a nova sensibilidade espiritual e criam um sincretismo entre religião popular e Nova Era .

Esses grupos espiritualistas são muito heterogêneos e nem todos respeitam as tradições populares. Só chamo a atenção para o fato de que nós, católicos e evangélicos, temos uma tal dívida de justiça com as religiões populares, negras e indígenas que, até por uma questão básica de justiça, devemos evitar classificações apressadas e primárias. No sentido contrário, os irmãos e irmãs das diversas confissões cristãs que aceitam dialogar e colaborar com estes novos grupos têm prestado um bom serviço à Ecologia e a uma educação para a cultura da Paz. Este diálogo intercultural e inter-religioso revela que, cada vez mais, a credibilidade de uma religião depende da colaboração que esta dá à humanidade para construirmos juntos um mundo de paz e justiça.


3 - O ressurgimento de uma espiritualidade autóctone

Nos últimos dez anos, um dos fenômenos mais importantes da América Latina tem sido o ressurgimento de um movimento popular a partir das culturas negras e indígenas. Viajando por toda a América Latina, o teólogo Giulio Girardi percebeu este fenômeno e tem chamado a atenção para isso . Desde que, em Chiapas, os indígenas chamaram a atenção do mundo inteiro e, através de muito sofrimento e de uma revolução pacífica, conseguiram que sua sobrevivência e sua cultura fossem levadas a sério, o continente latino-americano viu eclodir diversas manifestações de vitalidade e protagonismo de organizações indígenas, como a CONAIE no Equador e outras manifestações indígenas na Bolívia e em diversos outros países.


Neste abril de 2000, no contexto das comemorações dos 500 anos de colonização no Brasil, o que chamou a atenção do mundo não foi o conjunto de cerimônias governamentais ou mesmo a Missa feita pelos bispos. O mundo se emocionou com a mobilização indígena que enfrentou pacificamente a truculência dos militares e foi comparada pela imprensa com as manifestações dos dissidentes por ocasião da repressão praticada pelo governo chinês contra os manifestantes na Praça Celestial em Pequim (1990).

Este movimento popular que une comunidades indígenas, grupos negros e organizações populares (crioulas) surgiu a partir das comemorações alternativas aos 500 anos da conquista (1992). De lá para cá, mesmo com todas as dificuldades de articulação, têm se fortalecido. Não a partir apenas de reivindicações sociais e políticas, mas baseada na revalorização das culturas. Dentro deste movimento cultural, as religiões desempenham uma importante função. No Brasil, têm crescido muito o culto dos Orixás e toda uma série de ritos indígenas que muitos consideravam extintos. No nordeste brasileiro, há dois anos, o Cacique Xicão foi assassinado por ter reunido novamente a comunidade dos índios Xucuru, dispersos pelas periferias das cidades. Ele conseguiu que os mais velhos ensinassem aos mais novos a antiga língua o modo próprio de louvar a Deus. O cacique foi assassinado por mando dos fazendeiros, mas hoje a comunidade indígena ocupa uma parte de sua terra ancestral, pouco a pouco retoma o seu idioma e nas noites de lua, louva a Deus com seus antigos cultos. Mesmo as populações indígenas já inseridas na cultura ocidental e cuja religião desde gerações é o cristianismo querem ter o direito de ser cristãos como indígenas e de forma verdadeiramente própria. Desta revalorização das religiões indígenas e da busca do direito de se constituir um cristianismo autóctone, indígena ou negro, têm se fortalecido no continente, tanto uma Teologia Índia, como uma Teologia Negra.


4 - A proposta espiritual do Macro-ecumenismo

Aprendemos das comunidades indígenas e negras uma profunda abertura para com as mais diversas intuições religiosas. De certo modo, foi esta abertura que, algumas vezes, facilitou a colonização e o desrespeito com que foram tratados. Hoje, sentimo-nos chamados por Deus para nos manter abertos ao diálogo e à comunhão com o outro e, ao mesmo tempo, não ser superficiais ou não cair na moda do mercado religioso do momento. Mantemos a identidade própria de nossa fé cristã. Ela nos chama ao diálogo e realizar verdadeiramente um caminho de comunhão com as culturas e religiões das pessoas e grupos com os quais nos relacionamos.


O Macro-ecumenismo é escola de espiritualidade porque é caminho de busca de Deus, onde quer que ele se revele. Como escrevem os bispos da Ásia: "O fundamento principal da teologia do diálogo e das religiões é a certeza da universalidade da graça de Deus. Deus que se dá é algo sobre o qual nós, seres humanos, não podemos exercer nenhum controle. Os caminhos da graça divina são misteriosos e nós conhecemos mal os caminhos de Deus lidando com os seres humanos colocados em grande variedade de situações, inclusive religiosas. Mas sabemos que o Cristo é o centro universal de Deus no seu diálogo com a humanidade. Eis porque deveríamos conhecer o que Deus disse e continua dizendo de mil maneiras. Consagrar a isso nossa atenção é em última análise prestar homenagem à graça divina" .

Foi com este espírito que, no primeiro encontro da Assembléia do Povo de Deus, em Quito (14 a 18 de setembro de 1992), organismo que reuniu Igrejas, movimentos populares e grupos indígenas e negros, os participantes publicaram um Manifesto que afirma: "O verdadeiro Ecumenismo é maior do que o Ecumenismo (compreendido como as Igrejas o compreendem), porque a Oikoumene é toda a terra habitada (...) Além de potenciar cada dia mais, o ecumenismo entre as Igrejas cristãs, propomos que se dê um maior impulso à unidade do cristianismo com as outras religiões, especialmente às religiões populares latino-americanas" . Para este ecumenismo que têm as dimensões universais do povo de Deus, Dom Pedro Casaldáliga cunhou um termo que o 1o Encontro da Assembléia do Povo de Deus em Quito oficializou: "Macro-ecumenismo" . Estudiosos e ecumenistas já discutiram o acerto ou equívoco deste termo . Mesmo se concordamos com sua ambigüidade e ninguém falaria em "micro-ecumenismo", o fato é que o termo Macro-ecumenismo tornou-se um símbolo em todo o continente "latino-afro-ameríndio".

O Documento de Quito justifica a proposta do Macro-ecumenismo, afirmando que: 1 - Deus é sempre maior do que nossas Igrejas, religiões e projetos humanos. 2- Deus tem um sonho: "a unidade da família humana, dentro da lei suprema do amor. (...) "As cristãs e cristãos presentes neste encontro nos sentimos profundamente chamados à conversão. (...) Queremos, através do testemunho da unidade, colaborar com os processos através dos quais os nossos povos estão construindo a outra democracia, a das filhas e filhos de Deus, irmanados entre si " .


5 - Desafios para a Espiritualidade Macro-ecumênica

Seja qual for o adjetivo, chamamos de "espiritualidade" uma vida conduzida pelo Espírito de Deus, como dom a ser vivido e desenvolvido pelas Igrejas. Certamente, um primeiro desafio é que diante de religiões populares, profundamente místicas e espirituais, as Igrejas cristãs não se apresentam como boas interlocutoras neste mesmo campo. Já um autor norte-americano escrevia em 1947 e depois novamente em 1971: "Ao mesmo tempo em que a nossa época sofre de um ardente desejo espiritual, percebemos na religião cristã oficial, um empobrecimento do espírito. Fora de alguns fenômenos excepcionais e de pessoas extraordinárias, não sentimos na Igreja sinais fortes de uma vida espiritual" . Muitas vezes, nas periferias urbanas e no campo, quando o povo precisa de um conselho ou quer alguém de autoridade espiritual reconhecida, procura um rezador, uma benzedeira, ou mãe de santo. Procuram o padre quando precisam de atos oficiais como batizar filhos ou encomendar defuntos.


5. 1 - Bispos, padres e pastores: o que é macro-ecumenismo?

Setores oficiais da Igreja Católica e de outras Igrejas aceitam o diálogo com as religiões populares, mas continuam mantendo uma posição de superioridade. Uma mãe de santo desabafava: "É difícil dialogar com católicos porque, em nome de Jesus, eles querem ter a primeira e a última palavra. Da parte do Candomblé, como dialogar quando já se parte do princípio que estamos cheios de erros e temos apenas "sementes de verdade", estas mesmas vindas da Igreja Católica?".

Um importante desafio para uma espiritualidade macro-ecumênica é que nós, cristãos, assumamos a fé em Jesus Cristo de modo que ela não nos divida dos outros crentes e não utilizemos Jesus para legitimar nossas divisões humanas.

Da parte de alguns setores das religiões indígenas e negras, a longa história de opressão e perseguição provoca revolta e desconfianças. Embora o espírito destas religiões seja sempre aberto e tolerante, com os militantes que os representam, nem sempre se consegue a calma e o espírito necessários ao diálogo. É um problema que só o tempo vai ajudar.

Outro desafio importante é que alguns pastores evangélicos, como também bispos e padres católicos aceitam dialogar com religiões populares, mas não com os fiéis destas religiões que são cristãos. Em toda a América Latina, há muita gente indígena e negra que, sem justaposição, vive a fé cristã e, ao mesmo tempo, participa dos cultos ancestrais. Os pastores rejeitam fortemente este "sincretismo", sem se dar conta de que

1 - o sincretismo entre cristianismo e religiões populares existe porque a Igreja obrigou índios e negros a serem batizados como católicos.
2 - assim como existe um sincretismo de confusão (negativo), existe um sincretismo de síntese. Muita gente é católica ou evangélica a partir da cultura negra, ou indígena, assumindo em seu modo de viver a fé cristã, elementos da religião negra ou indígena, sem confusão, nem relativismos.


5. 2 - Desafios da espiritualidade pentecostal

No cristianismo, o movimento que mais cresce é o Pentecostalismo. Em um livro recente, José Maria Vigil lembrava que o Pentecostalismo é a forma de cristianismo que mais cresce na África, na Ásia e, a cada hora, 400 latino-americanos entram em um grupo pentecostal. Enquanto algumas Igrejas reforçam uma involução institucional, as massas procuram alternativas em grupos pentecostais e neopentecostais.

A intuição pentecostal clássica seduz latino-americanos e africanos porque tem em sua origem uma abertura cristã à cultura negra. O Pentecostalismo começou em meio a grupos negros de Igrejas evangélicas americanas que se sentiam discriminados em suas Igrejas e foram obrigados a se tornar comunidades eclesiais independentes para viver a fé sem a humilhação do racismo. Assim, o primeiro grupo pentecostal começou em 1906, em Azuza Street (Los Angeles) - uma Igreja de negros sob a direção de William Seymour (1870- 1922). Buscava uma espiritualidade ecumênica acima de raças e classes. Pela primeira vez, dirigentes eclesiásticos brancos permitiram que negros lhes impusessem as mãos. "Foi a única comunidade cristã fundada por um cristão negro" .

Com o tempo e para serem bem aceitos por outras Igrejas, os grupos pentecostais foram deixando esta base cultural negra e começaram a assumir costumes e estilos das Igrejas evangélicas. Esqueceram a luta contra o racismo e passaram a condenar as manifestações culturais e religiosas negras. Mesmo assim, não conseguem negar a alma negra que persiste oculta por trás das aparências. Para uma espiritualidade macro-ecumênica, o desafio é que a leitura fundamentalista da Bíblia, ainda existente em muitos grupos pentecostais (não em todos) faz com que rejeitem qualquer diálogo com as outras religiões, principalmente com as religiões populares, vistas como demoníacas e idolátricas.

Também em setores da Igreja Católica e Igrejas históricas, a mentalidade pentecostal existe nos grupos carismáticos ou de "reavivamento espiritual". Dizem-se grupos do Espírito, mas, ao contrário do que seriam os frutos do Espírito, são fundamentalistas e fechados a qualquer novidade.

Graças a Deus, nos próprios ambientes das Igrejas pentecostais começam a surgir grupos mais abertos e ecumênicos. No Brasil, alguns setores das Assembléias de Deus integraram o Movimento Evangélico Progressista, com uma linha política favorável aos partidos populares de oposição.


5. 3 - Neo-pentecostalismo: novos grupos religiosos

O fenômeno mais novo no cristianismo latino-americano é o Neo-Pentecostalismo que muitos confundem com o Pentecostalismo clássico. As Igrejas e grupos neopentecostais nasceram na década de setenta, a partir de conflitos e ambições pessoais. São, em geral, Igrejas de um pastor, ou um "bispo", juntando elementos doutrinais de origem pentecostal com outros oriundos do catolicismo popular (bênçãos, símbolos, etc). São grupos que pretendem responder a situações de carência do povo das periferias com uma teologia da prosperidade. "Basta de sofrer! Entre na Igreja e exija de Deus o que ele pode lhe dar". É preciso distinguir nestes grupos, os líderes e as comunidades. Nestas Igrejas, como em qualquer uma, o povo pode viver uma fé autêntica e esperançosa na graça de Deus. Embora nem todos os pastores sejam exploradores, o tipo de teologia destes grupos se presta a isso. Para muitos fiéis, as Igrejas neopentecostais são "comunidades de passagem". Reúnem pessoas que já pertenceram a cinco confissões diferentes e nada garante que permaneçam na nova Igreja por muito tempo.

O desafio maior na relação com estes grupos é manter-se fiel a uma espiritualidade ecumênica e, ao mesmo tempo, não ser conivente com fenômenos de exploração do povo. Para ser justos, não podemos esquecer que casos de exploração econômica da piedade popular também existem na Igreja Católica (por exemplo, em alguns santuários de peregrinação). O fenômeno neopentecostal ainda está sendo estudado por pesquisadores da religião e devemos evitar conclusões apressadas.


6 - A espiritualidade macro-ecumênica das CEBs

As comunidades eclesiais de base surgiram na década de 60 a partir da intuição de ligar mais profundamente a fé e a vida. Fazem isso, procurando sempre estar abertas à ação do Espírito. Isso supõe viver um caminho de ecumenicidade que não é apenas a pastoral ecumênica ou inter-religiosa no sentido estrito. Chamo de ecumenicidade uma dimensão de universalidade e abertura ao outro que é o próprio jeito de Deus na Bíblia e que aprendemos com Jesus se nos deixarmos ensinar pelo modo de pensar, falar e agir de Jesus.

O 10o Encontro Nacional de CEBs em Ilhéus, Ba, (julho de 2000) confirmou que as comunidades continuam e aprofundam este caminho. Eis alguns traços desta espiritualidade das CEBs:

6.1 - É uma espiritualidade inculturada
Para que uma amizade seja verdadeira, é fundamental que ambos os parceiros da amizade sejam verdadeiros e cada um/a seja ele/ela mesmo/a na relação. À medida que as comunidades cristãs populares assumem mais a sua cultura própria, traços negros, indígenas e morenos ou crioulos se tornam elementos importantes do rosto comunitário e espiritual. Tanto as orações como toda a vida espiritual destes grupos recebem das culturas originais algumas contribuições próprias, como:

- a relação com o próprio corpo.
Cada vez mais nas comunidades eclesiais de base, as pessoas vivem a fé a partir do corpo. Quem participa de encontros e celebrações sabe como se valorizam as danças, as expressões corporais e a própria beleza das pessoas. O corpo não é apenas um meio de comunicação. É mais: é sacramento da presença divina e instrumento de comunhão.

Há quem, olhando de fora, celebrações e encontros das comunidades cristãs populares, os julgue pouco sérios. Parecem lúdicos demais. Penso que esta é uma das características de seu caminho espiritual. Místicos medievais ensinavam: "Cada um de nós tem uma dimensão mística. É a criança que existe dentro de nós". "Deus conduz a criança que existe dentro de nós a um local secreto e brinca com ela. Ele afirma: "Eu sou teu companheiro de brinquedos. Tua infância é a companhia para meu Espírito. Conduzirei a criança que existe em ti de forma maravilhosa, pois te escolhi" .

Nesse sentido, o Evangelho insiste na infância espiritual e na alegria das bem-aventuranças. Muitas vezes, a tradição ocidental fixou-se em métodos de espiritualidade que tornam as pessoas sérias demais, artificialmente adultas.

- a relação de gênero: masculino e feminino Nas culturas e religiões populares, mesmo naquelas que também têm traços patriarcais, a mulher tem um lugar importante na mística. Nas culturas negras, muitas vezes é a Iaolorixá: a mãe de santo. Em algumas culturas indígenas, a depositária dos sonhos e da sabedoria dos antigos... Nas comunidades cristãs populares, a maioria dos grupos tem coordenação e animação garantidas por mulheres. Estas celebram a Palavra, pregam e são profetizas de Deus. Nos últimos encontros intereclesiais, as comunidades têm sempre pedido que as Igrejas abram às mulheres o pleno acesso aos ministérios. Nas comunidades de base, este caminho já começou.

- a relação com a terra e com a criação
Todas as religiões e caminhos espirituais de nossos povos veneram a terra e a têm como sacramento do amor de Deus. As comunidades eclesiais têm recuperado esta espiritualidade da terra, tanto no amor ao cultivo do campo, como na mística que anima os sem-terra e indígenas à luta para recuperarem seus territórios ancestrais, seja mesmo nas periferias urbanas, no trabalho pela moradia e na relação com a natureza. Em muitos lugares, as comunidades têm valorizado a agricultura alternativa e natural por motivações espirituais. Nos cultos, a relação com a natureza está sempre presente.

6.2 - É uma espiritualidade bíblica
A maioria das CEBs surge como grupos de reflexão bíblica, em torno da Palavra de Deus, ligada à vida concreta e a todos os seus desafios. Por toda a América Latina, espalhou-se um método de leitura popular da Bíblia que é, ao mesmo tempo, orante e militante, sociológico e espiritual. Nas comunidades, esta leitura bíblica é vivida, prioritariamente como leitura comunitária e aberta a todas as outras religiões e culturas. Hoje se desenvolve uma leitura índia da Bíblia, uma leitura negra e assim por diante, sempre buscando uma forma de ler que crie comunhão e não que exclua. É uma leitura militante, vivida para responder aos irmãos e irmãs o que Deus pede de nós na luta da vida.

6.3 - É uma espiritualidade da Aliança
Este convívio com a Palavra de Deus dá às comunidades uma profunda mística da Aliança de intimidade com Deus. A reflexão bíblica é sempre feita no âmbito da oração e esta é vivida como relação de intimidade. Em um encontro bíblico, um lavrador do nordeste brasileiro dizia: "Fui notando que se a gente vai deixando a Palavra de Deus entrar dentro da gente, ela vai nos divinizando. Vai tomando conta da gente de tal modo que chega a um ponto que não se consegue mais separar o que é palavra de Deus e é palavra da gente. Acho que a Bíblia fez isso em mim" .

6.4 - É Espiritualidade de Vida que recupera a Mística do Reino
Para ser verdadeiramente macro-ecumênica, uma espiritualidade tem de ser reinocêntrica, o que em nada diminui o lugar central de Jesus Cristo na vida e no amor das comunidades. A Teologia e Espiritualidade da Libertação surgiram a partir de uma moção espiritual dos cristãos que buscavam como responder ao apelo de Deus, testemunhando o seu amor e sua solidariedade às multidões exploradas e empobrecidas pela injustiça do mundo. Hoje, dizemos, mais do que oprimidas, são mesmo excluídas da vida e das possibilidades de viver. Podemos reler todo o acontecimento e os documentos da 2a Conferência dos bispos católicos em Medellin (1968) a partir desta chave da espiritualidade profética e mística do Reino. O próprio tema da Conferência: "A Igreja na atual transformação da América Latina..." indicava uma Igreja que se sentia chamada a responder aos apelos urgentes da realidade e como dizia a introdução aos documentos finais: "a vocação de unir numa síntese nova e genial o antigo e o novo, o espiritual e o temporal, o que os outros nos legaram e a nossa própria originalidade" . O documento continua dizendo: "Nesta assembléia do episcopado latino-americano, renovou-se o mistério de Pentecostes" . É o Espírito Santo que nos abriu a esta dinâmica do Reino de Deus, acontecendo quase palpavelmente no meio dos pequeninos e preferidos do Pai, numa vocação de Igreja-serviço que se vê voltada para o mundo e não para si mesma.

Desde o início dos anos 70, esta mística do Reino de Deus deu força à caminhada das comunidades e movimentos populares. Deu esperança a muita gente perseguida, sustentou o testemunho de tantos/as mártires que com seu sangue revelam a veracidade do nosso caminho. Ultimamente, a sensibilidade espiritual mais intimista e a tendência das Igrejas se fecharem mais no religioso-institucional fazem com que, às vezes, a mística do Reino pareça estar meio esquecida ou menos valorizada. As comunidades de base são portadoras deste carisma: relembrar às Igrejas a centralidade da mística do Reino e vivê-la profundamente. É esta mística que permite que, no Brasil, se mantenha firme o Movimento Fé e Política que reúne leigos e leigas que entraram na Política partidária por um apelo da sua fé e de sua missão e não por mera ambição pessoal. Ocorre que, muitas vezes, as Igrejas os educam para assumir esta vocação, mas quando os leigos a assumem e são eleitos para cargos eletivos, a Pastoral não os acompanha. Graças a Deus o Movimento Fé e Política possibilita retiros e encontros nos quais eles e elas podem abastecer-se espiritualmente e receber o necessário apoio fraterno para realizar melhor sua missão, nestes dias, cada vez mais difícil. Hoje, em muitas situações cotidianas, a mística do Reino é simplesmente a defesa da vida e o apego à vida, em realidades onde parece que tudo leva à morte e à destruição. A espiritualidade do Reino é o que nos faz lutar pela vida nossa e dos outros.


7 - Questões para continuar o caminho
(Sem querer tirar conclusões)

Esta conversa a qual lhes convidei chega ao final. Não à sua conclusão. Muita coisa resta por dizer e refletir, perguntar-se e desejar. Se, por tudo o que lhes escrevi, vocês compreendessem que a Espiritualidade da Libertação está em alta e as comunidades e movimentos populares estão em excelente situação com relação a este assunto, eu teria cometido uma incoerência com o próprio conteúdo mais profundo da Espiritualidade. O sinal de que começamos a conhecer a Deus é sentir que não o conhecemos bastante e que somos pecadores e relaxados. O primeiro apelo que Jesus nos faz é o da conversão permanente. Aqui descrevi a base maravilhosa que recebemos de Deus e da história de nossas Igrejas. Aqui delineei as intuições do caminho, mas muito resta a percorrer. Se pudesse conversar agora com as Igrejas e comunidades que seguem este caminho, lhes recordaria a palavra do Senhor no Apocalipse ao anjo da Igreja de Éfeso: "Conheço tuas obras, tuas fadigas e tua perseverança... mas, tu abandonaste o teu primeiro amor. Arrepende-te e volta ao caminho do princípio" (Ap 2, 2. 5).

Com este espírito, a você que está lendo e às comunidades, reparto o que para mim é sempre um propósito diário no caminho espiritual:

- Refazer em nós o desejo e a procura de Deus
"O teu desejo é tua oração. Tu só deixas de orar se deixares de desejar" (Sto Agostinho) Deus é Aquele que se revela como próximo, mas ao mesmo tempo, ele se revela sempre "por trás da nuvem escura". É muito próximo e, ao mesmo tempo, Deus sempre oculto. Em anos passados, contemplando-o no meio da luta pela libertação, muitos de nós de comunidades de base e movimentos populares falávamos de Deus quase como se o possuíssemos e como se ele, Libertador, já estivesse conosco de forma que quase não o procurávamos mais. Ele nos espera sempre no deserto e se não aceitamos o deserto, não o encontramos. São João da Cruz e Santa Teresa nos falaram da "noite escura da fé" e de como encontramos a Deus no "nada" e no vazio. Parece que hoje é difícil aceitar isso. A cruz de uma multidão de irmãos e o deserto das esperanças políticas nos ajudam a reviver esta tradição no engajamento e na inserção social.

- Retomar uma mística de diálogo e sempre rever como lidamos com o poder. Não apenas o poder da Igreja ou do Estado, mas o nosso pequeno poder. O que caracteriza o Deus da Bíblia é que, desde o princípio, Ele cria se retirando. Instaura um diálogo no qual ele se revela como respeitador do parceiro e para encontrá-lo, temos sempre que buscá-lo no outro e aceitar não nos impor.

- Retomar de forma ecumênica a relação de amor com Jesus
A verdadeira espiritualidade bíblica é para o cristão cristocêntrica no sentido de consistir no seguimento de Jesus como discípulo(a). Mas, o que é ser discípulo(a) de Jesus? É deixar-se penetrar pela fé e pelo amor de Jesus. A carta aos hebreus chama Jesus de "autor e consumador da nossa fé"(12, 2). Então, eu tenho fé em Jesus, assumindo a fé de Jesus: o seu modo de crer, de amar e de viver a relação com o Pai, com a missão e com o mundo. Quando a gente consegue isso, compreende que Jesus é pontífice (aquele que faz a ponte) e não obstáculo entre uma cultura e outra, entre pessoas de uma religião e outra.

Uma pessoa ou comunidade cristã tem como opção fundamental parecer-se com Jesus. Jon Sobriño escreve: "Parecer com Jesus é reproduzir a estrutura fundamental da vida dele. É assumir para si a missão e o jeito de Jesus, vivendo como ele a misericórdia com os outros como um princípio permanente e estruturador da vida e aceitando carregar sobre si o pecado do mundo e receber do Pai, pela força do Espírito, a ressurreição" .

- Aprofundar uma mística da Paz
Na América Latina, em situações de extrema opressão e obrigados pelas circunstâncias, os cristãos engajados participaram de movimentos revolucionários e viveram muitas vezes as lutas pela justiça. Em décadas passadas, tínhamos sempre de insistir na mística da justiça e queríamos a paz, mas nem tínhamos direito a desenvolver uma mística concreta da Paz. Hoje, prosseguimos o mesmo anseio pela justiça e o apoio aos irmãos e irmãs que devem defender a vida em situações-limites, mas somos chamados por Deus a aprofundar uma mística da Paz, tanto em nossas relações interpessoais, como na busca da Paz para o mundo. Isso põe o nosso caminho em comum com muitos irmãos e irmãs do mundo inteiro, de diversas religiões e culturas que professam a Paz como novo nome da fé e como manifestação do Deus da Vida. Hoje, uma Espiritualidade da Vida tem de ser Espiritualidade da Paz.

Para nós, cristãos latino-americanos, este caminho de trabalho pela paz é uma forma de obedecer e tornar atual a proposta dos bispos latino-americanos em Medellin: "Que se apresente cada vez mais nítido, na América Latina, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de toda a humanidade" (Medellin. 5, 15 a)
Para nós, cristãos latino-americanos, este caminho de trabalho pela paz é uma forma de obedecer e tornar atual a proposta dos bispos latino-americanos em Medellin: "Que se apresente cada vez mais nítido, na América Latina, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de toda a humanidade" (Medellin. 5, 15 a)

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