. A coragem do futuro
A inserção da Vida Religiosa no pluralismo deste início de século Marcelo Barros
Pag.Marcelo Home

A vida religiosa continua em crise e o seu futuro não parece claro. Está na hora de reinventar a coragem e escutar o que o Espírito diz às Igrejas nesta nova época do mundo. Somos chamados à coragem do futuro.

São termos "perigosos" que retomo de autores que, aqui e ali, leio ou escuto nos ambientes religiosos. Os boletins médicos de hospital declaram que uma pessoa doente mantém sinais vitais em bom estado, quando precisam assegurar isso para tranqüilizar o público e a família. Isto significa: falam que os sinais vitais de alguém estão bons quando, contraditoriamente, há algum risco de vida. Até aqui, ninguém nunca me disse que meus sinais vitais estão bons. Outro dia, em vôo transatlântico, vi aeromoças percorrerem a aeronave, dizendo a todos: "fiquem tranqüilos, tudo está sob controle!". Depois de 22 anos de constantes viagens aéreas e nunca ter visto aquilo, logo pensei que algo grave acontecia. De fato, após esvaziar o combustível, o avião voltou a Paris com uma pane no motor. Ninguém diria que "a vida religiosa tem futuro" se este estivesse garantido. É preciso reconhecer que vivemos uma situação de risco.

É compreensível que uma forma de vida, nascida como sinal do Reino nos séculos antigos, tenha de ser revista e transformada quando o mundo passa por uma "mudança de civilização". Precisamos pensar em novo começo, ou "refundação", não apenas pelo fato de vermos institutos sem candidatos ou porque, freqüentemente, sofremos a saída de membros que acabaram de fazer profissão religiosa. Deus pede de nós uma nova abertura, não por causa da realidade difícil, mas porque devemos responder de modo atual ao tempo novo que o Espírito suscita no mundo e nas Igrejas.

Partilho aqui com vocês algumas intuições e perguntas sobre a espiritualidade da inserção da vida religiosa, hoje, no meio dos pobres. Não tenho certezas e propostas prontas. Considero-me discípulo e admirador de tantas irmãs e irmãos que vivem em acampamentos de sem-terra, com grupos indígenas, em trabalhos de Pastoral Popular ou com sofredores de rua. Quero, apenas partilhar com vocês perguntas e impressões sobre o assunto. Como quem escreve uma carta inacabada, enfoco alguns aspectos e converso sobre pontos que vocês podem aprofundar, confirmando ou corrigindo minhas intuições.


1 - Traços deste tempo novo e das comunidades empobrecidas

Para viver, hoje, uma nova inserção no meio dos pobres, é bom percebermos o que marca o tempo atual e a vida dos mais pobres.

A situação é complexa e muito difícil de caracterizar. Em 1789, o cientista Benjamin Franklin visitou a França e de lá escreveu diversas cartas a amigos de Boston. Nesta correspondência, ele contava acontecimentos que o impressionavam: movimentos populares, ataque ao palácio real, ameaça de destruição da Bastilha... Lendo, hoje, esta correspondência, percebemos que ele vê os acontecimentos, interpreta-os corretamente, mas não pode imaginar que está assistindo ali elementos de um movimento maior que, posteriormente, ficou conhecido na História como "a Revolução Francesa". Do mesmo modo, atualmente, podemos nos impressionar com os avanços da Informática e denunciar o modelo de Globalização que aumenta as desigualdades sociais, mas é preciso certo tempo e perspectiva histórica para discernir as características de uma época como a nossa. A partir do prisma pelo qual vemos a vida, somos tentados a dizer que o mundo atual é marcado por três fatores preponderantes:

1 - o pluralismo cultural e religioso.
2 - o aumento assustador da pobreza no mundo.
3 - a irrupção de organizações e movimentos alternativos que expressam a luta e resistência dos excluídos.

Para nos inserirmos nesta realidade, é importante que prestemos atenção, ao menos, a estes três aspectos e saibamos como nos situar em frente a estes fenômenos. O pluralismo cultural e religioso aparece ligado a uma nova sede de espiritualidade que toma expressões muito diversificadas e vão muito além das fronteiras de nossas Igrejas e religiões organizadas. O aumento da pobreza gera migrações e um novo tipo de pobre "desaculturado", nas periferias urbanas, alvo fácil da violência e do tráfico de drogas. Na maioria das vezes, este tipo de "pobre", vítima do desemprego estrutural e da desintegração da família e da sociedade rural, aparentemente, é menos ético, menos honesto e simpático e assim, oferece mais dificuldade de uma inserção generosa, mas pouco crítica e cuidadosa em seus métodos. Na nova mudança do mundo, é mais difícil ainda a mobilização sócio-política das massas. No 10o Encontro Intereclesial de Cebs, as próprias comunidades de base constataram que, hoje, contam com menos militantes engajados em partidos políticos. Ao mesmo tempo em que crescem organizações indígenas, negras e de grupos "espirituais", na sociedade, há um desgaste de ideologias e uma crise do pensamento que, muitas vezes, leva ao marasmo e ao não engajamento. Na vigília de Santo Ambrósio de 1999, o Cardeal Martini, arcebispo de Milão dizia: "Quero lhes falar de uma coisa particularmente terrível, um mal obscuro e difícil até de nomear, talvez porque também difícil de reconhecer, como um vírus latente, entretanto onipresente. Poderemos chamá-lo de "acédia pública" ou "acédia política". É o contrário daquilo que a tradição clássica grega, como no Novo Testamento, chama de "parresia", liberdade de chamar as coisas pelo próprio nome. Trata-se de uma neutralidade apática, do medo de avaliar objetivamente as propostas conforme critérios éticos. A conseqüência disso é o decair da sapiencialidade política" .

Um pastor amigo da geração dos 50, se queixava: "Compreendo que meus pais sejam mais conservadores do que eu, mas tenho dificuldade de aceitar que meu filho de 20 anos o seja também".

Este problema contagia também comunidades religiosas. Mesmo pessoas antes engajadas, hoje, parecem cansadas e quase sem perspectivas. A novidade nos ambientes eclesiais é o fortalecimento de movimentos conservadores e de fenômenos que exaltam uma religião desencarnada que mais consiste em shows e espetáculos sem preocupação de inserção social e humana.

Neste contexto, é importante valorizar a resistência cultural e espiritual de tantas religiosas e alguns religiosos que prosseguem e até aprofundam a comunhão e engajamento com os sem-terra, com os índios, com os lavradores ou com o povo das periferias urbanas ou os sofredores e sofredoras de rua. Pelo contexto do mundo e da própria Igreja, sem dúvida, esta inserção amorosa é atualmente muito mais difícil e exigente do que há 25 anos, quando o Brasil e outros países latino-americanos vivíamos sob ditadura militar.

Para as religiosas e religiosos inseridos, talvez, a maior dificuldade, no dia a dia, não é a estrutura social, cada vez mais insensível e excludente. Muitas vezes, para eles e elas, a maior dificuldade é a dissociação que são obrigados a viver entre a vida inserida e a pertença à Congregação. Parecem dois mundos, com problemas, preocupações e exigências extremamente diferentes. A pessoa se sente devendo falar dois idiomas estranhos um ao outro. A "inserção da vida religiosa" não pode ser apenas a inserção de religiosas/os, apesar das Congregações e das Dioceses e como se se tratasse de algo à parte do caminho religioso.

Assim como a encarnação de Jesus define o seu próprio ser e é o seu modo de viver a intimidade com o Pai, precisamos redescobrir a "mística", ou a "espiritualidade da inserção", como forma de atualizar e dinamizar toda a vida religiosa, tanto a das irmãs e irmãos que vivem e trabalham diretamente com os pobres, como a das comunidades mais tradicionais que continuam o estilo de vida conventual de sempre, mas podem ser enriquecidas e renovadas pela solidariedade e comunhão com a missão e a inserção de suas irmãs e irmãos.

É preciso continuar o trabalho de simplificar e atualizar a própria estrutura e compreensão da vida religiosa. É preciso rever seus modelos e suas expressões. A base da "espiritualidade da inserção" é a convicção de que devemos ser permanentemente evangelizados pelo povo mais empobrecido, ao qual Deus "revela os seus segredos" (Lc 10, 17 ss). Poderemos falar de uma verdadeira "inserção" da própria Vida Religiosa quando as Congregações se deixarem converter não tanto mudando todas as comunidades para as periferias, mas possibilitando que todos os conventos e comunidades sejam tocadas e transformadas pela experiência e trabalho das irmãs e irmãos inseridos.

Há, no entanto, outro tipo de dificuldade: o padre José Comblin disse uma vez que a nossa Igreja da Libertação optava pelos pobres e estes optavam pelas Igrejas e movimentos pentecostais.

O Pentecostalismo evangélico e católico, tipo movimento carismático, é o que mais cresce nos ambientes cristãos e, especialmente no meio dos empobrecidos. Na África, há países nos quais os pentecostais chegam a ser 80% dos cristãos. No mundo, em cada quatro cristãos, ao menos um é pentecostal. Isso denota uma insatisfação com as Igrejas históricas e, às vezes, certa incapacidade nossa de nos inserir no caminho espiritual dos pobres. O que adianta os religiosos e religiosas se inserirem no mundo social e político dos pobres se não são capazes de se inserir justamente naquilo que todos esperam de nós: o caminho da busca de Deus e o método para viver sua intimidade? O mundo dos pobres não pede dos religiosos e religiosas que se insiram como "sociólogos/as", "agentes de saúde", ou simplesmente como "educadores", por mais que estes técnicos possam ser úteis. O que as comunidades religiosas inseridas podem dar de melhor ao povo é o testemunho de sua busca de Deus e da espiritualidade, partilhada com os vizinhos, vivida na simplicidade e na comunhão com os mais pequenos.

Pode haver uma inserção "militante" e solidária de alguém ou um grupo que ajuda social e tecnicamente mas não comunga a vida. Nos meus primeiros contatos com Dom Hélder Câmara algo que me impressionou muito foi como ele vivia no cotidiano da vida e nas pequenas relações o testemunho do amor aos mais pobres como mística evangélica. Uma vez, perguntei por que, ao invés de interromper a cada momento o que estava fazendo para atender quem batia à porta, ele não pedia um auxiliar para ajudá-lo nesta tarefa. Ele me respondeu sem hesitar e muito naturalmente:

- Eu até já pensei nisso, mas não fiz porque se for um pobre que bate à minha porta, não quero que Jesus pense que eu deleguei alguém para atender os pobres no meu lugar. Faço questão de eu mesmo ter esta alegria.

Esta mesma espiritualidade, descubro em pastores como Dom Pedro Casaldáliga, Dom Luciano Mendes de Almeida e outros. Pessoalmente, para mim, atender pessoas que me procuram em horas inesperadas e quando estou com outras tarefas, para mim urgentes, é sempre uma ascese espiritual exigente, mas que descubro é uma forma de inserção mais gratuita e cotidiana.


2 - Desafios para uma nova inserção

O mundo mudou e não podemos, hoje, continuar com as mesmas reações e condicionamentos dos movimentos contestadores da década de 70. Não seríamos sinais para o mundo de hoje se teimássemos em ser "sobreviventes deslocados de 68". Entretanto, a maioria dos problemas pelos quais, naquele tempo, lutávamos, só se agravou e continua merecendo nosso engajamento e consagração. Como atualizar esta opção de modo conseqüente?

Para que a inserção não seja ingênua ou superficial, é necessário um constante estudo da realidade e uma participação da caminhada do povo. Como é importante uma iniciativa como esta que a CRB Nacional tomou de consultar formadores de opinião sobre como vêem a Vida Religiosa no Brasil .

É certamente um testemunho desta mesma preocupação de inserir-se na realidade o fato de vários religiosos e religiosas terem participado do Encontro Nacional dos Catadores de Papel em Brasília (junho 2001) ou o fato novo dos monges do Mosteiro da Anunciação do Senhor em Goiás decidirem dar uma presença monástica e como comunidade no 2o Encontro do Fórum Social Mundial em Porto Alegre (2002). Não é um caminho simples e é bom lembrar alguns desafios e dificuldades que temos para percorrê-lo.

2.1 - O desafio de se inserir em uma Igreja que, em muitos lugares e situações, "mudou" de eclesiologia, ou de "compreensão sobre sua missão".

É preciso lembrar e repetir: a inserção das comunidades religiosas ou de irmãs/ãos com os mais pobres depende sempre de uma determinada compreensão da natureza e missão da Igreja. Quantas congregações, fundadas em outros tempos, para servir aos mais pobres, hoje, se descobrem trabalhando com outras classes sociais? Os motivos são diversos, mas certamente um dos elementos é a compreensão de Igreja e de sua missão.

As atuais formas de inserção vêm de um modelo de Igreja decorrente do Concílio Vaticano II e, aqui na América Latina, da Conferência dos bispos católicos em Medellin (1968). Este movimento profético, fruto do Espírito, via a missão da Igreja como serviço ao povo e testemunho do Reino de Deus. A Igreja se organizava a partir da "Eclesiologia de Comunhão". De acordo com esta visão teológica, cada Igreja local é plenamente Igreja e não apenas uma filial dependente da central romana. Assim como Jesus se encarnou, a Igreja é chamada, não apenas a viver em cada lugar, mas em ser verdadeiramente Igreja local, servidora do povo e comprometida com a libertação de toda humanidade e do ser humano em sua integridade (Cf. Medellin 5, 15).

A inserção obedecia a este apelo de encarnação da Igreja local que se via exercendo sua eclesialidade em sentido pleno e em comunhão com as outras Igrejas e especialmente com Roma, a primeira guardiã da unidade.

Infelizmente, quando esta Eclesiologia e o modelo de pastoral dela decorrente foram eliminados ou, ao menos, postos de lado, a inserção só pôde continuar como projeto de pequenos grupos ou de pessoas individuais.

Na carta "Novo Millenio Ineunte", o papa João Paulo II indica para as Igrejas um caminho de continuidade do Jubileu do ano 2000. Uma das suas propostas é retomar e aprofundar a "espiritualidade de comunhão" (NMI 43; 48). A tradução concreta desta proposta seria uma nova inserção eclesial baseada na própria conversão da Igreja e não apenas em um caminho no qual a Igreja propõe mudanças ao mundo que ela mesma não aceita viver.

Padres e bispos que vivem o modelo eclesiológico de neo-cristandade insistem: a "inserção" das religiosas e religiosos consiste em assumir paróquias e ajudar na Pastoral Orgânica das dioceses. As irmãs são meras auxiliares do clero, com os trabalhos e tarefas de "agentes de pastoral", mas sem ter o estatuto de pastores ou pastoras. As/os religiosas/os "servem" onde não tem padre ou em lugares tão pobres e difíceis que os padres não queiram viver lá.

Pelo fato da maioria das congregações masculinas serem clericais, os religiosos não ordenados têm dificuldade de propor outras formas de inserção, até mesmo a seus superiores e capítulos da congregação ou província. No caso das irmãs, os conflitos se dão mais no âmbito das dioceses e paróquias. As religiosas sentem que são aceitas como "agentes de pastoral" e não como religiosas, enquanto o bispo não tenha padres para coordenar o trabalho que, hoje, as irmãs fazem. O estranho é que muitas irmãs percebem isso e aceitam. E não são apenas as mais velhas ou tradicionais. Isso acontece mesmo com algumas que trabalham em linhas de Teologia Feminista e de Gênero. Será que, fortalecendo este modelo machista e clerical de Pastoral, as religiosas estão exercendo seu papel profético na Igreja e no mundo? Seria esta a inserção da vida religiosa no mundo dos pobres, neste início de milênio? Tal atividade ajuda verdadeiramente as irmãs a unificar suas vidas e viver a vocação de religiosas?

2.2 - O desafio de viver a inserção pertencendo a Congregações que não mudam sua Eclesiologia e sua própria concepção de Vida Religiosa.

A profecia da inserção amorosa de religiosas/as atingiu alguns setores dentro das congregações, mas não conseguiu tocar na estrutura mesma da Vida Religiosa. Milhares de documentos e estudos têm sido feitos e são positivos, mas dependem da experiência vivida. E esta é sempre frágil. A vida religiosa inserida continua e resiste a ataques e indiferenças. Mas, como dizia Carlos Mesters, referindo-se às Cebs, é uma "flor sem defesa" . Se, em Roma ou na sede da Congregação sopram outros ventos e vem o frio do inverno, tudo tende a voltar ao "de sempre".

É difícil manter e aprofundar, hoje, a inserção da Vida Religiosa se os irmãos e irmãs inseridos devem viver uma terrível esquizofrenia cultural e espiritual, nadando em dois mundos separados e diametralmente opostos culturalmente: o mundo da inserção e o ambiente interno da Congregação em seus conventos e encontros.

2.3 - O desafio de redefinir a nossa identidade.

"Viver é muito complicado", repetia o Riobaldo de Grande Sertão Veredas. No tempo imediatamente seguinte ao Concílio Vaticano II, quando as comunidades começaram a se renovar e caminhar na direção da inserção, um dos assuntos mais discutidos era a "identidade da vida religiosa". O que constitui propriamente o ser religiosa/o?

Sublinhou-se que a vocação religiosa é simples radicalização do batismo. É vocação carismática e não faz parte da estrutura ministerial da Igreja. A missão dos religiosos/as é ser sinal do Reino de Deus e da vocação universal à santidade. Penso que uma tradução atual deste caminho é juntar em nosso jeito de ser religioso/a um aspecto carismático e pentecostal a uma dimensão crítica- profética de transformação do mundo.

Em todas as épocas, o ser humano sempre foi complexo. A tarefa da simplificação do coração é um processo pedagógico e espiritual, ao qual a vida religiosa quer servir como método e cujo objetivo é a santidade, a identificação com Deus. Hoje, mais do que em outras épocas, vivemos em um mundo no qual todos estão em crise de identidade: a família, a escola, a política, as profissões, os ministérios nas Igrejas... E exatamente nesta sociedade, os religiosos abandonam tudo o que de alguma forma favorece as pessoas se sentirem elas mesmas no mundo: a autonomia, a propriedade própria, o dinheiro, seus sonhos particulares, a relação de amor no casamento ou em uma vida a dois... O mundo pluralista e de comunicações rápidas atrai nossa atenção para muitas atividades e interesses. Para a maioria das pessoas, a Vida Religiosa não é a única pertença, único "mundo cultural", única referência de identidade, o que não diminui a opção e a seriedade de vida destas pessoas consagradas.

Em novembro de 2000, a União dos Superiores Maiores em Roma publicou um documento como subsídio para a reflexão dos que cumprem o serviço da animação dos Institutos Religiosos. Este documento afirma: "É importante evitar qualquer simplificação ingênua da vida consagrada, como 'definir-se unicamente como religiosos, pertencentes a um instituto religioso'. Entre os seres humanos, não existe identidade simples. A identidade humana é complexa, resultado de múltiplas relações e pertenças. O amadurecimento pessoal nos leva a integrar esta complexidade na coerência e harmonia. Embora a vocação à vida consagrada seja um elemento catalizador da identidade complexa, ela não elimina outros aspectos da identidade, mas integra-os e os assume. Uma concepção simplista ou simplificada da identidade carismática empobrece a pessoa, a torna fanática e fundamentalista" .

Esta reflexão toma como quadro cultural o mundo moderno e urbano, a cultura européia ou americana, mas ela vale também como desafio para a inserção popular, talvez até com mais acuidade. Quanto mais firme em minha identidade eu me encontrar, mais capaz serei de me inserir em uma realidade diversa da minha e viver a comunhão com as pessoas e grupos que ali vivem. Mas, se esta minha identidade for muito estreita, arrisca-se a quebrar com facilidade e eu ser um quando estou no convento e outro quando estou com os pobres ou em minha inserção na realidade popular tão complexa e mais ainda, complicada.


3 - Possibilidades para uma inserção nova

A opção de inserir-se no mundo dos empobrecidos e de testemunhar o amor de Deus em condições de pobreza e partilha da dor dos pequeninos é, antes de tudo, graça de Deus. O Padre Libânio insiste: "Optar pelos pobres é graça. Só a graça de Deus capacita a pessoa a sair de seu egoísmo, comodismo, interesse de classe e optar pelos pobres, marginalizados. A comunidade inserida implica essa opção de graça" . Não é por intenção expansionista de "internacionalizar" a congregação e continuar o colonialismo que, hoje, províncias das irmãs Dominicanas de Montreuil, das irmãs de Jesus Crucificado, da Divina Providência e outras, mesmo contando com poucas irmãs e muitos trabalhos resolvem fundar casas de inserção na República Dominicana, no Peru, em Angola ou no Timor Leste.

Esta graça de Deus pode ocorrer gratuitamente em religiosos e religiosas como uma intuição repentina ou como um apelo forte nascido de repente. Entretanto, Deus fala pela história. Devemos nos perguntar se, hoje, as estruturas de formação dos religiosos e religiosas favorecem este caminho ou, mesmo sem querer, acabam fortalecendo um modelo de Vida Religiosa voltado para a própria congregação, gerando pessoas narcisistas e acomodadas.

Na América Latina, quando, após o Concílio e Medellin, aprofundou-se a inserção das comunidades religiosas, o traço marcante foi a participação nas lutas e trabalhos sócio-políticos pela libertação. O martirológio latino-americano foi enriquecido por muitos irmãos e irmãs, mártires que deram a vida pelo povo. No Brasil, os nomes do Padre João Bosco Penido Bournier, do irmão Vicente Caña, da irmã Adelaide Molinari,da irmã Cleusa Coelho e de tantos outros atualizam o testemunho profético da Vida Religiosa. No momento atual, este caminho continua válido e a prova disso é a importante presença e testemunho de muitos irmãos e irmãs em acampamentos de sem-terra, favelas urbanas muito violentas, aldeias indígenas, outras áreas de risco e o além fronteiras do Brasil. Entretanto, alguns desafios que, desde o início da caminhada das comunidades, eram presentes na luta, a partir da década de 90, tomaram nova força e desafiam nossa inserção. São principalmente as questões culturais e de gênero.

Há décadas, algumas Congregações como as Missionárias de Jesus Crucificado aceitam que as irmãs negras tenham entre elas encontros específicos. Assim, podem dar ao conjunto da Congregação a contribuição própria que vem de sua cultura. As irmãs da Divina Providencia têm algumas religiosas indígenas que provocaram à província do Centro-oeste a rever seu estilo de vida e organização, até algum tempo, naturalmente estruturados conforme a cultura das generosas irmãs do sul que fundaram a província. Novamente aí, é importante que a "inculturação" não seja algo justaposto à vida cotidiana e real. Não se trata de assumir categorias e expressões negras ou indígenas como alguém que veste roupas coloridas para dançar, mas depois do espetáculo volta ao modelo de sempre. Não adianta assumir cânticos, gestos e símbolos da cultura negra como se fossem folclore e estratégia de comunicação com pessoas e comunidades negras. A verdadeira "inserção" exige conversão do coração àquela sensibilidade e modo de orar e louvar a Deus. As comunidades religiosas inseridas podem dar sobre isso uma colaboração indispensável.

Dentro deste mesmo horizonte cultural, muitas religiosas têm buscado inserir-se na Pastoral da Saúde, com trabalhos em linhas de "Medicinas" alternativas e populares. Também na área própria da Teologia Feminista, as religiosas inseridas têm dado uma contribuição preciosa e específica. Para dar um exemplo, é a sua inserção fiel e corajosa em um bairro de periferia do grande Recife que possibilita a irmã Ivone Gebara, junto com outras companheiras, dar a preciosa e original contribuição que tem dado à Teologia Feminina Latino-americana. Junto com Ivone, muitas religiosas e religiosos estão desenvolvendo, em sua inserção nas comunidades, uma leitura da Bíblia a partir da questão de gêneros e uma Teologia Ecofeminista. Esta reflexão abre toda um vasto campo de inserção: a espiritualidade e o engajamento na defesa e comunhão com a natureza e todo o universo.

As irmãs, aventurando-se no campo ecofeminista, estão redescobrindo a originalidade feminina e feminista da vocação religiosa. Como esquecer que as primeiras regras para a Vida Religiosa foram escritas para mulheres? Mesmo tendo sido compostas por homens como Agostinho e Pacômio (que escreveu sua regra para o mosteiro da sua irmã Maria), elas refletiam uma Vida Religiosa como experiência originalmente feminina. Mesmo se as regras impuseram às mulheres um estilo de vida religiosa com estruturas machistas, a experiência original foi a iniciativa de mulheres que, no século III e IV, tiveram suficiente coragem e liberdade para se tornar independentes do pai (patriarca) que era praticamente proprietário ou dono de suas vidas e de um inevitável marido, contratado pela família que as herdaria, como se recebe uma terra ou propriedade. Naquele tempo, em meio a todas as convulsões sociais que abalavam o mundo greco-romano, mulheres, de famílias nobres como Melânia, ou pobres como Sara e Sinclética, deixaram famílias e sociedade vigente e se embrenharam nos desertos. De lá, acompanhavam pessoas em seus caminhos para Deus e constituíram comunidades de mulheres consagradas. Hoje, quando se fala em refundação, é importante lembrar este caráter feminino das origens da Vida Religiosa cristã.


4 - Pistas novas para uma nova inserção

Há pouco tempo, conversando com artistas e intelectuais não cristãos, perguntei como andava entre eles a credibilidade da Igreja Católica como uma instituição que ajudava a construir um mundo melhor. Vários deles me responderam: "Em meio a muitas contradições e a coisas com as quais não concordamos, somos tocados pelo testemunho comovente do papa em seu constante esforço em dialogar com as outras religiões e em valorizar as outras culturas". Um deles continuou: "É pena que esta mística do papa não pareça contagiar os bispos e religiosos pelo mundo afora".

É verdade que, neste campo, mesmo os meios mais tradicionais da Igreja são muito menos ligados ao papa. A insistência no Diálogo Inter-religioso que na América Latina aprofundamos como "Macro-ecumenismo" não é apenas uma estratégia pastoral ou necessidade de momento. Obedece a um apelo espiritual de busca de Deus, cujo Espírito se revela a nós como se revela aos outros e devemos dar este testemunho até como forma de lhe agradecer tanto amor e abertura.

A Vida Religiosa se caracteriza pela radicalidade da busca de Deus que nos chamou e nos atrai para que o busquemos sempre mais. Um modo fundamental de viver isso atualmente é engajar-se neste diálogo e nesta sensibilidade de respeito e amor pelos caminhos espirituais diversos, presentes ao nosso redor. No Brasil, isso nos pede principalmente uma atenção maior e privilegiada pelas expressões espirituais dos grupos negros e indígenas. Até para dar à vida religiosa um rosto mais negro e indígena. Não se trata de um trabalho pastoral no qual entramos como "agentes", mas de uma presença discreta e amorosa que vivemos gratuitamente como discípulos e discípulas do Cristo em meio aos irmãos que buscam a Deus em outros caminhos espirituais.

Em 1925, o papa Pio XI incentivou a criação do Mosteiro de Chevetogne na Bélgica para ser ponto de unidade entre a Igreja Latina e as Igrejas Orientais. João Paulo II tem falado na vocação ecumênica das comunidades religiosas, não necessariamente no sentido de todas assumirem a Pastoral Ecumênica como trabalho. O mais importante é aprofundar a dimensão ecumênica da própria vocação e do modo de vivê-la em nossas comunidades em tudo o que fazemos.

Na sua assembléia de 2000, a CLAR propôs para as comunidades religiosas no continente irmos preparando e aprofundando nestes primeiros anos do novo milênio um "Concílio da Vida Religiosa". Sei que a proposta e o próprio termo "Concílio" não foi aceito pelo Vaticano. Espero que, independentemente do nome que for aprovado, possamos viver, a partir das bases, um processo de diálogo e busca, necessários a toda a Vida Religiosa. De vários setores e nas mais diversas regiões do mundo, bispos e fiéis têm proposto ao papa que este convoque um Concílio verdadeiramente ecumênico, sinal e testemunha do compromisso das Igrejas pela paz, justiça e defesa da criação.

No caso do processo de diálogo e descobertas sobre a Vida religiosa, ele deve ser verdadeiramente macro-ecumênico e construído em comum com religiosos e não religiosos/as. Então, atualizaremos a proposta de Medellin: "Que se dê à nossa Igreja (e poderíamos dizer hoje, a nossas comunidades) o rosto de uma Igreja pobre, servidora e pascal, aberta a toda humanidade e verdadeiramente comprometida com a vida e a libertação de todo ser humano e do ser humano por inteiro"(Med. 5, 15)

Perguntas:

1 - Como em nossa vida de cada dia privilegiar o aspecto gratuito das relações e testemunhar a prioridade do nosso ser consagrado e não tanto tarefas e trabalhos profissionais?
2 - Como ajudar as Congregações e Institutos a serem tocados e transformados pela experiência dos seus membros mais inseridos na realidade dos mais pobres?
3 - Como aprofundar e expressar o caráter ecumênico de nossa vocação consagrada?

Voltar ao topo