Kierkegaard conta a história de um homem, um europeu que, viajando para o oriente, conheceu uma moça chinesa com a qual ele se encontrou uma única vez, numa estação de trem. Ele se apaixonou por essa mulher, mas não podia conversar com ela. Não conhecia a língua e não podia lhe escrever e nem receber suas cartas. Voltando ao seu país, decidiu aprender chinês para se comunicar com sua amada.
Depois de muitas dificuldades, encontrou onde aprender chinês. Mergulhou no estudo da língua e tanto se esforçou que se tornou um eminente sinólogo, convidado a dar conferências no mundo inteiro sobre a língua e a cultura chinesa. Seus estudos, suas viagens e compromissos se tornaram tantos que, no começo, ele escrevia para a sua amada e dela recebia resposta.
Depois, não mais encontrava tempo para escrever. Da outra parte, ela não sabia para onde mandar as cartas. O nosso homem acabou sendo tão importante que esqueceu a mulher pela qual aprendeu o chinês .
Esta história, que parece ser real, é, ao mesmo tempo, uma parábola. Pode ajudar cada um/ uma de nós e à Igreja como conjunto a nos rever se também nós não corremos o risco de esquecermos a "chinesa" pela qual nos apaixonamos e pela qual nos interessamos de aprender uma língua estranha e conhecer uma cultura diferente.
Para quem segue Jesus Cristo, o fundamento de toda a vida é a aliança de intimidade com Deus. Isso é o que se chama Espiritualidade.
Na 1a Semana de Catequese, Dom Murilo Krieger afirmava: "Sobre espiritualidade, qualquer definição que se queira dar será sempre incompleta, pois estamos diante de uma realidade muito rica e complexa". Tendo que arriscar alguma coisa, ele resumia: "Espiritualidade é a vida guiada pelo Espírito... é o seguimento de Jesus sob o impulso do Espírito Santo" .
Hoje em dia, há grupos eclesiais que preferem o termo "Mística", dando à palavra mais o sentido do método para se viver a Espiritualidade. Dom Murilo diz que "a espiritualidade tem duas dimensões: uma é a mística, outra é a prática da fé". Mística é o ideal que envolve a vida de forma total e orienta as atividades" . De qualquer modo, trata-se do núcleo da fé, sem o qual tudo o mais perde o sentido.
Na carta à Igreja de Éfeso, o Apocalipse recomenda: "Retoma o teu primeiro amor" (Ap 2, 4- 5). Nesta mudança de milênio, este é um grande desafio e profundo desejo de muitos homens e mulheres cristãos. É uma necessidade e desejo, consciente ou não de muita gente que não está nas Igrejas mas busca um caminho espiritual de unificação interior e de um amor que dê plenamente sentido a suas vidas.
Sobre isso, não me atrevo a lhes ensinar nada. Na prática, vocês é que me ensinam como se faz nas bases e eu me considero discípulo da experiência que vocês têm. Além disso, conforme o profeta Jeremias, na nova aliança, "ninguém mais vai precisar ensinar ao seu irmão ou irmã: 'conhece o Senhor', porque todos e todas me conhecerão, pequenos e grandes" (Jr 31, 34).
Como "irmão e companheiro na aflição, no reinado e na perseverança do testemunho de Jesus" (Ap 1, 9), ouso partilhar com vocês algo da minha caminhada neste sentido, junto com meus irmãos e irmãs do Mosteiro da Anunciação do Senhor em Goiás como vivemos uma espécie de catequese permanente, já que a catequese vem do termo grego Kat- ekheo e significa "escutar e repercutir na vida da gente a Palavra de Deus.
1 - De onde partimos: "Fé e Vida na comunidade".
Era o tema da 1a Semana Brasileira de Catequese. É o chão de onde toda a catequese tem de partir. É na experiência de fé comunitária, vivida no dia a dia de um grupo, que a catequese pode se inserir concretamente. Por isso, o documento "Catequese Renovada" da CNBB insiste que "o lugar ou ambiente normal da catequese é a comunidade cristã.
E a catequese comunitária de adultos é o modelo ideal e a referência para todo outro tipo de catequese" (n. 118- 120) . O documento de base para esta assembléia, quando fala dos rostos da Igreja, pergunta "que Igreja queremos?" Entre outras características, o documento propõe uma Igreja toda ministerial, isto é, que seja serviço ao povo, uma Igreja plenamente participativa, ecumênica, missionária e solidária. E quase como uma conclusão de todas estas características que se interpenetram e se misturam, propõe: "o rosto de uma Igreja espiritual e mística (n. 82) .
Quando a gente pensa "Igreja espiritual e mística" pode imaginar algo extraordinário e de gente muito "santa" no sentido que o povo dá a este termo. Não é o caso. A minha comunidade é frágil e constituída de irmãos pecadores e em processo de conversão. Mas, eu não hesito em denominá-la como "espiritual e mística" porque se deixa interpelar pela Palavra de Deus, teima em viver cotidianamente o louvor e a solidariedade em nome de Jesus e serve como referência de busca espiritual para muita gente, da nossa Igreja e de outras igrejas e religiões e até pessoas que não crêem e se sentem em busca.
Certamente, vocês têm outras comunidades que vivem isso. De modo algum, quero citar o nosso Mosteiro como exemplo único ou melhor. O que estou insistindo é que não bastam textos bonitos, ou um ensino aberto e atualizado.
Conheço lugares onde se você falar de catequese, ouvirá as referências mais abertas e profundas mas quando uma pessoa, especialmente jovens, pedem para entrar na comunidade, o que os dirigentes perguntam é "O que você quer fazer?", "em que trabalho quer se inserir?". Quando você pergunta isso em um Mosteiro budista, eles o ensinam a praticar a meditação e o acompanham nos primeiros passos da vida espiritual, se você pergunta isso em uma comunidade de Candomblé, as pessoas responsáveis orientarão você, consultarão búzios para ver qual é o seu Orixá e você começará um longo percurso de iniciação mística e quase secreta na qual você se sente realmente começando uma vida nova.
Não é possível que, em uma Igreja Católica, você receba como resposta "qual o trabalho que quer fazer" ou quando muito lhe indiquem um curso com aula uma vez por semana. Se a Igreja quer viver uma Catequese de Adultos e de modo espiritual, tem de retomar o processo catecumenal como elemento fundamental que envolva toda a comunidade e seja, de fato, como um processo de gravidez comunitária e mística.
A comunidade do Mosteiro abre o mais possível suas orações e sua busca de Deus para outras pessoas. Eu tenho visto jovens que não se sentiam ligados à Igreja, de repente, lá se encontram envolvidos e pedem o batismo e a primeira eucaristia. Cada vez que isso acontece, a gente orienta a pessoa para aprofundar os laços conosco, visitamos sua família e começamos um processo de relação humana e marcamos para a Quaresma mais próxima o processo
verdadeiramente catecumenal. Cada sábado à noite, a comunidade vive uma Vigília catecumenal que nos envolve a todos para renovar nosso compromisso batismal e nos mergulhar de novo na vida do Cristo Ressuscitado. E os catecúmenos participam de um sacramento recebido em etapas. Estou falando do sacramento do batismo, mas mesmo a Eucaristia e uma vez o sacramento da crisma, nós preparamos em etapas litúrgicas. A festa da Páscoa é sempre festa de batismos de adultos e de receber pessoas para a plena comunhão conosco na eucaristia.
Fora casos raros de crianças pré-adolescentes, fazemos isso sempre com jovens maiores de 20 anos. Aí a catequese é a participação permanente na vida da comunidade e, dentro desta inserção, um monge se encarrega de acompanhá-los no plano pessoal e como pequeno grupo, se for o caso. O processo do catecumenato batismal ou para a eucaristia supõe a participação nas celebrações e, dentro do acompanhamento que é mais constante e informal, ao menos um encontro de diálogo e estudo do Evangelho por semana.
Não é fácil inserir os jovens nos grupos bíblicos que nós acompanhamos e formam conosco uma só comunidade litúrgica e de vida. As pessoas mais velhas que animam e participam dos grupos têm uma sensibilidade diferente dos mais novos. Estamos formando, pouco a pouco, um grupo bíblico mais de adultos jovens. O importante é a comunidade sentir-se "Igreja" como Medellin a propôs no seu documento sobre Juventude: "Que se apresente cada vez mais nítido, na América Latina, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de toda a humanidade" (Medellin. 5, 15 a).
2 - Para onde vamos: rumo à maturidade em Cristo
Este programa clareia bem o rumo de uma espiritualidade adulta para os/as catequistas de hoje: atingir a maturidade em Cristo (Ef 4, 13). Confesso que tenho medo de pretender definir ou descrever tudo o que isso significa, mas, no que diz respeito exatamente à espiritualidade, vou lembrar alguns elementos que podem clarear o caminho de uma espiritualidade para quem trabalha a catequese de adultos/as.
O processo catequético tenta desenvolver a fé inicial que recebemos pela evangelização e pelo batismo. A função da catequese é trabalhar, de forma sistemática e progressiva, o conteúdo da fé, cultivar valores humanos e cristãos e gerar critérios de vida que configurem em cada catequizando/a uma identidade cristã adulta, pronta para o testemunho do Reino de Deus que Jesus veio testemunhar e mostrar que está perto.
"Ser adultos em Cristo" pode ser uma maneira teológica e clássica de dizer: "ser humanos como Jesus Cristo". Vamos detalhar mais isto:
Jesus Cristo é uma expressão que resume a afirmação central da nossa fé: Jesus é o Cristo. O nome é Jesus e sua função é ser Cristo, isto é, ser consagrado, ungido de Deus e salvador. Os Evangelhos reconhecem em Jesus de Nazaré o Cristo por excelência. A Bíblia tinha dado o título de "Cristo" a reis como Saul (1 Sm 24, 6), a Davi (1 Rs 16, 6), a Ciro, rei da Pérsia (Is 45, 1) e a todo o povo de Israel, saído do cativeiro da Babilônia (Is 49, 1 - 6).
Hoje, pessoas que ajudam o povo pobre a recuperar sua esperança de vida e libertação são sinais do amor salvador de Deus e merecem o título bíblico de "Cristo". Mas, como na época em que os israelitas escravos voltaram do cativeiro da Babilônia, hoje também Deus chama de ungido e consagrado (Cristo), não somente a pessoas, mas a grupos e movimentos sociais.
Chama vocês e eu para sermos testemunhas desta consagração. A pessoa humana de Jesus é o nosso modelo, nosso parâmetro. Em primeiro lugar, modelo de fé. Uma espiritualidade de cristãos adultos, hoje, não pode ser apenas baseada na fé em Jesus, mas também e principalmente na fé de Jesus. Não se trata só de crer em Jesus, mas de crer como Jesus. Ou de crer em Jesus, crendo como Jesus. O que, concretamente, significa isso?
3 - Crer como Jesus
Por trás das imagens do Cristo que os documentos do Novo Testamento anunciam, a teologia, a exegese e a espiritualidade atuais procuram reencontrar a pessoa humana de Jesus, no seu modo de ser, de crer e de praticar a fé. Para encontrar essa pessoa histórica de Jesus de Nazaré, dependemos dos mesmos Evangelhos, mas relidos à luz das pesquisas sociológicas atuais e de aspectos humanos que queremos sublinhar.
A primeira coisa que as cristologias revelam é que Jesus não pregou sobre si mesmo. Ele anunciou e testemunhou o Pai como Deus que estabelece o seu Reino. Para Jesus, o Evangelho significa "a boa notícia de que o Reino de Deus está vindo". Martin Buber, judeu, escreveu que "a fé de Jesus une judeus e cristãos, a fé em Jesus nos divide". Não precisa ser assim. Podemos crer em Jesus, crendo como Jesus, sendo concretamente discípulos de Jesus como foram os apóstolos e procurando receber de Jesus as indicações de como ele crê no Pai e como nos propõe crer no Pai.
O primeiro traço que descobrimos de como Jesus crê é exatamente a sua referência radical e permanente à intimidade com Deus a quem ele chama de "Paizinho" (abba), designação que, conforme os teólogos, têm uma conotação masculina e feminina de Deus. Esta fé de Jesus o leva a ser catequista, isto é, a nos comunicar como ele vê este Deus de quem ele é tão íntimo. E aí eu ousaria perguntar a mim mesmo e a cada um de vocês: "qual é a imagem, o rosto de Deus que eu, por minha vida e meu modo de ser, manifesto?".
Acho que facilmente a gente está de acordo em responder que deve ser um Deus de amor e solidariedade, mas será que isso está de acordo com todo o conjunto da revelação bíblica, como nós a compreendemos e a interpretamos, com toda a doutrina e leis da Igreja e com o testemunho que damos ao mundo?
Jesus revelou um novo rosto de Deus. Fez isso através do seu modo de viver e de trabalhar. Seu discurso mais forte foi sua prática de solidariedade com os pequeninos e oprimidos. Como diz um prefácio de Missa: ele libertou as pessoas oprimidas, libertou quem estava aflito e curou quem sofria. Foi o seu primeiro modo de dizer: "Deus é amor!" Sabemos que para dar testemunho do Reino que vem para todos, ele chamou discípulos e discípulas e formou com eles uma comunidade inclusiva que não deixava ninguém de fora. Seus adversários tiveram menos dificuldade com suas palavras do que com o fato de que ele comia com pecadores e gente de má vida. E dizia que "há no céu mais alegria por um pecador que se converta do que por 99 justos que não precisam de arrependimento" (Lc 15, 1 ss).
No pouco tempo que temos e em rápidas linhas, gostaria de acrescentar alguma coisa que parece clara e nem sempre o é. Como é este Deus amor que Jesus revelou?
4 - Um novo rosto de Deus?
Não estou falando de imagem teórica ou descrita na catequese. Refiro-me ao rosto mostrado na prática. Qual o rosto de Deus, revelado por um cristianismo intolerante e dogmático que queimava hereges e condenava cismáticos? Qual o rosto de Deus revela uma Igreja que fala de castigo do pecado e inferno?
O Evangelho mostra Jesus judeu e fiel à lei, freqüentando a sinagoga e o templo. Mas todas as vezes que necessário, ele nos diz: "Ouvistes o que foi dito aos antigos. Eu, porém, vos digo diferente..." (Mt 5). Jesus nos revelou que Deus se revela na Bíblia progressivamente. E só podemos entender bem a revelação bíblica se a entendermos assim: passo a passo. Paulo dizia: "Quando eu era menino, entendia as coisas como menino. Agora que sou adulto, devo receber os ensinamentos de adulto"(1 Cor 13) e falou isso se referindo ao amor. O que quer dizer isso? Que temos de superar as imagens de Deus de antes de Jesus e testemunhar que Jesus falou de Deus como amor que faz nascer o sol sobre os justos e os injustos e manda a chuva tanto para os bons como para os maus. Um Deus que não castiga ninguém nem obriga ninguém a amá-lo sob pena de ir para o fogo eterno.
Para nós, cristãos, Jesus é a imagem do Deus vivo, a parábola mais fiel de como é Deus e como é Jesus? Alguém que diz: "Se alguém tem de morrer que seja eu". Alguém que não se impõe e revela a presença de Deus no diferente e toma como modelo de fé o samaritano, a mulher estrangeira Cananéia e o oficial romano, pagão e ligado aos opressores do povo. Alguém que ainda na cruz, orou: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem" (Lc 23).
Jesus é a grande parábola de Deus: vem para servir e não para ser servido (Mt 20, 28). Faz-se pequeno e quer depender de nós porque propõe o seu Reino, mas quer que o vivamos e aceita que digamos sim ou não à sua aliança.
Crer como Jesus, significa estar aberto a ver Deus no diferente e preferir de tal forma diminuir-se para servir ao outro que chega a dar a sua própria vida. Mesmo nos Evangelhos e no Novo Testamento, a gente encontra sinais e testemunhos de uma cultura antiga. Jesus falou na linguagem do seu tempo. Mas, se quisermos ver, descobriremos uma nova imagem de Deus, energia de vida e de ternura para o universo. Daí que podemos rever dois assuntos da Catequese que, hoje, merecem nosso cuidado especial no que diz respeito ao testemunho de uma espiritualidade que nos faça "crer como Jesus". Entre diversos assuntos e pontos aos quais poderia me referir, vou me restringir a dois: o modo de vermos e falarmos da criação e também da revelação de Deus. Creio que, tratando desses dois, eles servirão de amostra para nos orientar no tratamento de outros temas semelhantes.
5 - O universo, corpo de Deus...
Aprendemos com São Paulo que a Igreja é o Corpo de Cristo e nós todos somos membros uns dos outros (Cf. 1 Cor 12). Esta imagem bíblica do corpo é bonita porque nos faz descobrir que temos uma unidade orgânica e estrutural, mesmo se vivemos divididos e damos ao mundo o mau testemunho de, como cristãos, sermos divididos em Igrejas separadas e mesmo dentro de cada Igreja há divisões. A diferença não impede a unidade. Ao contrário, a enriquece. Dom Hélder Câmara dizia: "Se você concorda comigo, você me confirma no caminho. Mas se discorda de mim, me enriquece mais porque me obriga a aprofundar o assunto". Temos de caminhar para uma verdadeira unidade na diversidade. Entretanto, hoje, a Física Quântica, ciência que trata da matéria do universo, descobriu nas estrelas mais distantes, elementos físicos e químicos que só existem no organismo animal. Deu razão às antigas religiões orientais que, séculos antes de Cristo, diziam que viemos das estrelas.
O que, hoje, é um novo paradigma do pensamento e da ciência é a unidade de todos os seres vivos. Toda a criação forma um conjunto e nós não nos separamos dos animais e das plantas. Formamos com eles uma só comunidade e Deus não está fora desta realidade. Está dentro. Antes, aprendíamos no catecismo a fazer muita diferença entre Criador e criatura, entre Deus e o universo. Falávamos de um Deus separado da criação para acentuar sua transcendência. A espiritualidade parecia, então, um exercício de sair da vida real para encontrar a Deus numa esfera superior e fora da nossa realidade.
O grande teólogo alemão Karl Rahner escreveu: "Não podemos continuar pensando em Deus a partir de fora, agindo e intervindo para mudar nossa vida. Temos de compreender Deus como um pressuposto capaz de suportar a pluralidade do mundo, juntamente com a mútua determinação das realidades concretas desse mundo. Na realidade, Deus não é uma coisa a mais na nossa vida. Não se revela a nós como um momento particular a mais. Ele se manifesta em nós e no concreto da criação e de nossa vida" .
Pensar Deus fora da criação levou muita gente cristã a ser conivente com a destruição ecológica. Enquanto outras religiões acentuavam a presença de Deus no universo e respeitavam cada criatura como sagrada, muitos cristãos pensavam que Deus criou o ser humano como senhor de tudo e lhe deu o direito de dominar a criação a seu bel-prazer. Liam mal o texto do Gênesis que manda o homem e a mulher ser imagem e semelhança de Deus. Ser para todas as criaturas, como Deus é, isto é, amor e ternura.
O eixo da criação é Deus como afirmação infinita. Paulo afirmou que a ecologia será totalmente respeitada e a criação completa quando "Deus for tudo em todos" (1 Cor 15, 28). Aí todas as criaturas alcançarão sua máxima realização, sua plenitude. "Sede perfeitos como o Pai do céu é perfeito" quer dizer: realizem todas as potencialidades de sua pessoa e de sua natureza. Inácio de Antioquia escreveu que é "quando chegar lá que serei plenamente humano"(Ad romanos VI, 2). São Paulo refere-se ao "estatuto de filhos e filhas de Deus"(Gl 4, 1 - 7) e "atingir a maturidade da plenitude de Cristo"(Ef 4, 13). Hoje, a gente diria: "ser humanos como Jesus Cristo". O pessoal da Nova Consciência diz: "Só o santo é sadio! Só o santo é plenamente humano". Deus nos cria criadores .
Daí nasce uma conseqüência decisiva: a ruptura de todo dualismo. Não podemos dividir mais as coisas em natural, sobrenatural, sagrado e profano. Tudo vem de Deus, tudo pode e deve ser vivido como acolhida e afirmação de sua ação criadora. "Ser é o ato de deixar-se amar, o evento da gratuidade, o receber que faz espaço para se doar ao outro". O Divino se revela no humano e não sobre o humano ou como humano . Nem pensamos que Deus é simplesmente uma dimensão do nosso ser como a minha inteligência ou a minha sensibilidade, nem o podemos colocar fora, acima de tudo. Ele é totalmente Outro (transcendente) mas se revela na realidade da vida concreta e só posso conhecê-lo aqui, na vida e na de vocês.
Um dos elementos que levou a espiritualidade cristã a uma grave crise foi conceber Deus como separado do mundo. A Teologia da Libertação já tinha nos ensinado que só existe uma história e que o Reino de Deus se manifesta aqui, embora não se esgote aqui. Agora, é toda a espiritualidade que se chama holística que insiste: Deus tem de ser visto presente na criação e em tudo o que vivemos, não intervindo de fora, mas sustentando a ação a partir de dentro de tudo, do mais profundo e interior. Ver Deus presente em cada criatura, em cada ser do universo não é panteísmo. O panteísmo dilui Deus no tudo e diz que tudo é Deus.
Nós cremos que Deus está em tudo e se manifesta em cada ser. Se quiser classificar como se chama isso, (tem gente que precisa dessas classificações), os teólogos têm denominado este modo de crer ou esta espiritualidade de "Panenteísmo". O teólogo inglês D. Tracy chama essa idéia do panenteísmo "a grande conquista da teologia atual". Podemos encontrar esta convicção e aprofundá-la nos mais recentes livros de Leonardo Boff que têm ajudado muita gente sem fé a redescobrir o caminho da espiritualidade .
O panenteísmo afirma a diferença entre o tudo e Deus, mas vê a mútua presença de um no outro. Se a gente crê nisso e testemunha isso, devemos viver esta espiritualidade e a nossa catequese deve ajudar as pessoas a descobrirem isso: Tudo está em Deus, existe nele e a partir dele. O hinduísmo e as religiões indígenas e negras sempre disseram isso. São Paulo diz: "Nele vivemos, nos movemos e existimos. Os poetas de vocês diziam: "Somos de sua linhagem"(At 17, 28- 29). Santo Agostinho ensina: "Deus é "interior intimo meo et summior summo meo", mais íntimo do que nossa intimidade mais profunda e mais alto do que o que em nós há de mais elevado (Confissões III, 6, 11). A criação cria uma solidariedade cósmica entre todos os seres criados. Ele os criou à sua imagem, macho e fêmea os criou". Quanto mais humano eu for e integrar em mim a masculinidade e feminilidade, mais sou imagem de Deus. A Bíblia conta que Deus fez com a criação uma aliança universal (depois do dilúvio) e esta aliança é eterna. Será que nós a vivemos e valorizamos?
6 - Uma nova compreensão da oração
Este caminho espiritual nos leva a mudar nossa forma de rezar. Nossa oração não consiste mais em pedir coisas como se Deus tivesse de ser adulado para nos fazer o bem, nem precisamos acordá-lo, pois como diz o salmo: "Ele não dorme nem cochila. É o guarda de Israel"(Sl 121). Borandá é uma antiga canção do Edu Lobo, sobre a seca no nordeste que diz: "Deve ser que eu rezo baixo, pois meu Deus não ouve não!" Esta não é a imagem que Jesus nos dá de Deus no Evangelho.
Existe um jeito formal de rezar que a gente já faz sem acreditar. Rezamos por coisas bem genéricas e como se Deus substituísse o humano. O menino que depois de fazer um exame de geografia, rezava: "Senhor, faça com que Paris seja capital da Inglaterra para eu poder passar no exame" não será atendido e está tendo uma imagem errada de oração. O agente de pastoral que pede: "Senhor, pela fome na Somália para que Deus... Deus poderia lhe perguntar do céu: "Faça o que? Mude o sistema do mundo?" Vocês criam os problemas de vocês e depois apelam para uma intervenção que desrespeitaria a história para eu atuar"...
O pastor Dietrich Bonhoeffer propunha que vivêssemos com Deus, como se Deus não existisse (etsi Deus non daretur). Deus não precisa de intervenções pontuais na nossa vida porque está perenemente e interiormente conosco. Se compreendemos a Deus separado de nós e agindo por intervenções quando quer, então o objetivo da oração tem mesmo de ser mudar a maneira de pensar de Deus, é lembrar o que ele, como Deus, está esquecendo de fazer. É tentar ganhar o seu favor e mexer em sua compaixão. Se, ao contrário, compreendemos que ele está sempre agindo em nós e conosco, então o que passa a significar a oração? É acolhê-lo, escutá-lo e deixar-nos convencer e colaborar com ele, cultivar o agradecimento e a confiança em sua presença. Ai, a súplica e a intercessão mudam de sentido.
Pensem nesta palavra de Jesus no Evangelho de Marcos e digam o que significa: Quando orardes pedindo alguma coisa, crede que o recebestes e isso acontecerá para vós" (Mc 11, 24- 25). Como a gente pede o que acredita já ter recebido? É novo ou não como jeito de entender a oração?
Eis uma oração de São João da Cruz, um dos maiores mestres da vida de oração em nossa Igreja: "Ó coisa maravilhosa e digna de toda admiração e pavor: o Pai presenteia e engrandece a esta humilde e amorosa alma com tanta ternura e verdade de amor que se sujeita a ela, verdadeiramente para engrandecê-la, como se ele fosse seu servo e ela fosse seu senhor. Está tão solícito em presenteá-la que parece seu escravo e a criatura fosse seu deus. Tão profunda é a humildade e doçura de Deus" .
Parece brincadeira, mas me lembro de uma história que escutei de criança. Um padre perguntou a um menino:
- Meu filho, você reza para Deus?
- Sim, cada noite.
- E o que você pede?
- Nada. Eu pergunto a ele se eu posso ajudá-lo em alguma coisa.
7 - Uma nova concepção da revelação
Toda a fé bíblica depende da revelação divina. A Bíblia é a fonte de nossa fé. Mas, como compreendemos este fato de que Deus se revelou? Podemos também entender isso como se Deus estivesse fora do mundo e da vida da gente e de repente usasse uma espécie de telefone ou fax para se comunicar. Ou como em religiões de transe, apossou-se de um homem ou mulher e ditou o que queria dizer para nós. No começo do povo de Israel, os profetas eram compreendidos assim como pessoas que tinham transe e tinham visões e delírios para receber a revelação divina (Cf. 1 Sm 9 - 10).
Jesus nos ensinou que não é assim. Deus não precisa romper milagrosamente ou de forma intervencionista a justa autonomia do sujeito para poder anunciar-se em sua imanência. Deus está sempre dentro. Ele não vem porque não saiu para voltar. A revelação consiste em nós nos darmos conta de sua presença e de sua palavra interior a nós e na história... "A verdade não está fora. Habita no interior do ser humano" .
Jacó acordou de seu sono e disse: "Deus está neste lugar e eu não sabia" (Gn 28, 16). Em Jeremias, Deus promete: "Porei minha lei em seu interior e a escreverei em seus corações. (...) Ninguém mais precisará ensinar a seu irmão: "conhece o Senhor porque todos me conhecerão, pequenos e grandes" (Jr 31, 31ss). Os moradores da Samaria dizem à mulher que conversou com Jesus e os chamou para conhecê-lo: "- Nós já não cremos apenas pelo que tu nos disseste. Nós mesmos ouvimos e sabemos ser este o Salvador do mundo"(Jo 4, 42).
Deus está plenamente em nós. O problema é como o acolhemos e como esta sua presença nos transforma e nos faz atuar de modo novo para a transformação do mundo. Uma situação de fome, injustiça ou terror testemunha o contrário da presença de Deus no universo, macula a energia universal de amor e a presença de Deus naqueles que padecem a injustiça não os leva a conformar-se mas a resistir, protestar e lutar para se libertarem.
A Bíblia, ajudada pela tradição, tem como papel nos ajudar a darmos a luz a uma compreensão nova da realidade humana tal como aqui e agora está sendo sustentada, vivificada e agraciada pela presença de Deus em nossa história.
8 - Conclusão
Esta visão da presença amorosa e fiel de Deus na nossa vida, tanto através da criação, como através da sua revelação nos permite dialogar melhor e mais profundamente com a humanidade de hoje e especialmente com as outras religiões e culturas, especialmente as culturas indígenas e negras que formaram uma camada importante do nosso povo.
Esta visão da presença de Deus fará vocês perceberem uma coisa muito simples, mas maravilhosa: que vocês todos e eu somos místicos. Somos pessoas profundamente espirituais, temos Deus em nós e basta a gente desenvolver a capacidade de conversar com ele dentro de nós mesmos e na comunidade na qual ele se revela, através dos irmãos e irmãs. Como diz São Paulo: "nele nos movemos, existimos e somos" (At 17).