. "DESCER AO ENCONTRO DE DEUS"
(A missão dos presbíteros e seus desafios neste inicio de milênio) Marcelo Barros
Comissão Nacional dos Presbíteros/CNBB - 9º Encontro Nacional de Presbíteros - Itaici, Indaiatuba-SP,fev/2002
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Conta a tradição que, um dia, Santo Atanázio perguntou a São Pacômio:
- "A santa comunidade dos monges continua a produzir bons frutos?"
Pacômio respondeu:- toda a Igreja produz bons frutos. Nós somos apenas leigos sem importância".

Isso se deu no inicio do século IV, quando o monaquismo cristão apenas engatinhava e nem havia ordens religiosas institucionalizadas e, ao menos em alguns lugares, não existia ainda um clero distinto do povo, como classe dirigente na Igreja. De lá para cá, "muita água correu debaixo da ponte".

Hoje, dificilmente poderíamos dar a mesma resposta a uma pergunta como essa, no que diz respeito aos monges de hoje. E com relação aos presbíteros, tal resposta caberia? Essa seria a minha aposta e reparto com vocês como vejo a missão dos presbíteros e seus desafios neste início de milênio. Convido vocês a aprofundarmos alguns aspectos da raiz de nossa missão e depois, então, conversamos sobre questões mais mitológicas e estratégicas. Faço-o não para ensinar uma doutrina ou firmar uma tese eclesiológica que vocês não conheçam e sim para provocar uma simples conversa fraterna de coração a coração.


1 - "Somos apenas leigos sem importância?"

A primeira vista, parece apenas confundir termos e gerar mal estar. O que significa, hoje, insistir que nós, padres, "somo apenas leigos sem importância?" Eu destaco, de imediato, dois pontos. Um ligado a nos chamar de "leigos" e o segundo ao "sem importância". O primeiro ponto é o apelo a retomarmos o caráter comunitário e simples do presbiterado na Igreja primitiva, que a ninguém chamou de hiereus a não ser Jesus ou quando se referia aos sacerdotes judaicos do templo. O Concilio Vaticano II tinha iniciado uma mudança de linguagem e de pensamento na teologia ministerial. Ultimamente, os documentos oficiais, com a complacência de muita gente no clero, abandonaram a categoria reintroduzida pelo Concilio de "ministério presbiteral" e adotaram, como nos tempos da cristandade, a noção de "sacerdócio ministerial". Há vários desafios ligados a isso. Um deles refere-se à noção do sagrado e à confusão entre espiritual e sagrado. Quando o padre Congar dizia que nós, todos os cristãos, somos sacerdotes e, por outro lado, somos todos leigos, é bom recuperar essa dimensão profética e "encarnada" da fé e da missão cristã.

O segundo ponto é afirmar que somos "sem importância". Muitas versões traduziam Lucas 17,10: "somos servos inúteis". A nova tradução da CNBB corrige: "somos simples servos". Uma nota elaborada por Johan Konings explica: "sem nada de excepcional".

Isso pode ser compreendido no sentido moral. Seria uma afirmação de humildade. Mas, também pode ser no plano teológico. Não podemos negar que existe uma ideologia sagrada que quase legitima a divindade da Igreja e a essencialidade dos ministros e dos sacramentos. Diz-se: Quem salva é Deus, mas é claro que Deus salva por meio da Igreja e dos seus ministros. Não há porque negar que Deus se serve de nós como instrumentos, como "vasos de barro", dizia Paulo (2Cor 4,7). Mas, a fronteira dessa "necessidade" dos meios de salvação sempre foi problema. Quando Lutero retornou a doutrina paulina de que só a graça salva, o grande problema para a Igreja Católica era reconhecer não ser assim tão necessária. Em novembro, o papa João Paulo II convidou os cristãos a se unirem aos nossos irmãos mulçumanos, no dia final do mês de Ramadam, em um jejum pela Paz. Houve até quem declarasse que obedecia constrangido "porque eu tenho a fé verdadeira e não é a mesma coisa ser da Igreja e ser uma pessoa de uma outra religião qualquer". Parabéns para a sinceridade dele. Quantos não pensam isso e não se expressam com a mesma franqueza. O cardeal Ratzinger e seus auxiliares tentaram na Declaração Dominus Jesus (2000). O miolo da discussão era re-interpretar a famosa declaração do Vaticano II de "a Igreja do Cristo subsistit in - subsiste na Igreja Católica" (Lumen Gentium 8) para afirmar "a plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica Romana".

Quando o Dalai Lama veio ao Brasil em abril de 1999, espalhou-se uma noticia que a Igreja implicada não confirmou nem negou. Disseram que foi negada a Catedral como lugar para receber o Dalai Lama e que o ordinário local negou-se a estar com ele em qualquer ocasião, e não mandou representante ou algum padre para a Universidade onde ele foi acolhido. Um mês depois, o papa o recebeu no Vaticano e posou para fotos lhe dando o beijo da paz.

Quando se trata de testemunhar a relação inter-religiosa, um medo freqüente é o de confundir os espíritos simples, além do que seria risco de sincretismo. Por trás, está o cuidado de garantir que a Igreja Católica não seja vista como uma igreja ao lado de outras e uma religião como outra qualquer. E, ligada a essa compreensão da Igreja como sacramento necessário para a salvação, está a compreensão do ministério como uma instituição diretamente divina e que dá o poder sagrado.

Não quero escandalizar ninguém nem estou negando a compreensão tradicionalmente católica do ministério. Para mim, é questão de nuances e das conseqüências que se tiram daí.


2 - Ambigüidades e "necessidades" da missão

Todos dirão que a raiz da nossa missão é a fé e a vocação de intimidade com Deus. O texto-base deste encontro reafirma a urgência de aprofundarmos a questão da espiritualidade presbiteral. Muito se tem escrito sobre isso e o maior risco é o de cairmos nos lugares comuns.

Gostaria de provocar o aprofundamento de certos assuntos pouco falados. Por isso, coloco algumas perguntas. O que significa: agir in persona Christi e mesmo como pastor?". Há quase meio século, o Concílio evitou intencionalmente repetir que o padre é um alter Christus. Acentuou que todos os cristãos podem agir em nome do Cristo e in persona Christi. As imagens do pastor e das ovelhas precisam ser revistas, tanto à luz da nova visão do presbítero como participação no sacerdócio do bispo; como mesmo sociologicamente até que ponto esta parábola ou imagem serve para designar uma comunhão que, como diz Dom Pedro Casaldáliga, "deve ser muito mais do que qualquer democracia".

No recente Sínodo sobre a função dos bispos, em Roma, Mons. Eduardo Vicente Miras, bispo de Rosário, Argentina, declarou: "O bispo não está acima ou fora do rebanho, mas é uma pessoa escolhida por Deus para garantir a sua unidade. Por isso, deve aprender do povo de Deus. (...) Na função do bispo, devemos sublinhar o seu aspecto de discípulo. Ele se enriquece com a ajuda dos presbíteros, diáconos e de todos os fieis".

Entre outras coisas, está em jogo uma visão de Deus. Não é fácil passarmos da confiança na lei para a fé na graça e no amor de Deus.


3 - O Uno e seus múltiplos caminhos

Como seria bom se pudéssemos estar aqui sem outra qualificação do que o fato primeiro e essencial de nos reconhecermos irmãos. Será que nossa missão de presbíteros não deveria ter esta base de nos fazer sentir e ser verdadeiramente membros de um grande Colégio Presbiteral, no qual todos nos sintamos verdadeiramente acolhidos e acolhamos os outros como irmãos?

Hoje, o mundo faz testes e provas para reconhecer paternidade de alguém que não que assumir o filho ou filha, existe o triste rito de reconhecimento de um corpo no necrotério, ou de um criminoso na delegacia. O batismo e especificamente a ordenação presbiteral não deveriam ser ritos que nos comprometessem, perante nós mesmos e o mundo, no sentido de olharmos uns para os outros e nos reconhecermos pura e simplesmente irmãos? Uma grande irmandade entre nós se estendendo por este mundo, por nossas dioceses, comunidades aqui representadas e uma irmandade forte e real com todos os seres vivos e todo o universo.

Somos irmãos e irmãs porque pertencemos à mesma humanidade que nos torna iguais, independentemente das diferenças raciais, sociais, religiosas, políticas e outras. A única coisa que pode nos dividir é o desamor, a indiferença, a estrutura violenta do neoliberalismo e de um mundo marcado pela exclusão social e humana. Neste inicio do novo milênio, desculpem repetir, ser presbítero deve nos comprometer a dedicar nossa vida e nossa força a formar uma humanidade reconciliada e de irmãos e irmãs.

O papa João Paulo II tem nos chamado à profecia de uma espiritualidade e teologia do Pluralismo e Diálogo intercultural e inter-religioso.

Junto com todos os crentes, de todos os caminhos espirituais, nós cremos que a Origem, o Fundamento de todas as coisas e o seu Destino último, esse mistério que muitas religiões chamam de Deus e outras preferem nem nomear, seja como for que se revele, nós cremos que se confia a nós, aceita se manifestar na limitação do nosso ser e do nosso agir na história, na pluralidade de nossas línguas e de nossas culturas. Nós, cristãos que cremos na encarnação, exatamente por isso, que cremos que, pelo fato de se revelar, assim dessa forma, tão limitado e parcial, Deus, ao mesmo tempo em que se revela, se retrai e se esconde. Cremos, por isso, que seu horizonte, sua revelação, seu projeto divino, nunca poderá coincidir totalmente com o nosso caminho individual, ou com a expressão religiosa do nosso grupo, da nossa Igreja. Deus nem mesmo coincide com a soma dos horizontes limitados de nossas confissões reunidas e de todas as religiões de todos os tempos e lugares juntos...

A Bíblia dizia dele: "Ao mesmo tempo em que se revela na água, no fogo, na terra e na brisa suave da tarde, por outro lado, o universo inteiro não pode conte-lo". Na França, há quase um século, dizia Leon Bloy: "somos todos peregrinos do Absoluto, carregando no coração manifestações maravilhosas de sua presença, mas sem nunca poder fazer disso propriedade nossa".

Se aceitamos isso, então, poderemos, nos reconhecer, irmãos e servidores uns dos outros e de toda a humanidade, como de uma única e indissolúvel família. Aí seremos presbíteros de forma nova, com espírito novo.

Nós não podemos mais ser padres ou religiosos/as para reafirmar a nós mesmos/as, seja individual, seja comunitariamente. Devemos nos comprometer a renunciar a qualquer ato ou palavra nossa que tenha por finalidade afirmar apenas nossas próprias visões, nossos projetos pessoais ou grupais, nossos modos de ser. É legitimo que tenhamos projetos pessoais e grupais, mas para nos oferecemos ao cuidado pela vida de todos, para nos consagrarmos à tutela da dignidade de cada ser humano e à defesa da Terra e de todo o seu sistema de vida, nossa casa comum.

Deus queira que as pessoas, olhando o nosso modo de viver o ministério presbiteral, possam dizer de nós todos aqui que somos apenas testemunhas de uma Verdade que nos ultrapassa e transcende. Em todas as épocas do mundo, sempre é difícil ser testemunhas. Quando ocorre um problema social, a coisa mais difícil do mundo é encontrar uma testemunha qualificada. Normalmente, as pessoas têm medo de testemunhar de um lado ou do outro. Aqui no Brasil é muito freqüente, "ninguém viu e ninguém ouviu nada".

A 1ª carta de João diz: "Nós somos aqueles que acreditam no amor". E já começa afirmando: "Vimos com nossos olhos, ouvimos com nossos próprios ouvidos e nossas mãos apalparam a comunicação da vida, a palavra de vida..." Então, temos mesmo de ser testemunhas. Testemunhas qualificadas... A tal ponto que, se, para a Verdade vencer, estivesse em algum momento, em jogo a vida de alguém, ainda que seja uma única pessoa, membro desta indivisível família que é a humanidade, é importante que cada um de nós aceite ser a primeira pessoa a se arriscar em dizer Não à morte, Não à violência contra o outro. Seremos verdadeiramente presbíteros quando estivermos dispostos a aceitar para nós o prejuízo e até a morte para que os outros vivam. Aí a nossa pregação e fé não serão mais apenas um sistema de crenças ou uma mensagem nocional, mas o verdadeiramente amar-nos uns aos outros e a disposição de dar a própria vida, se necessário "para que todos/todas tenham vida e vida em abundância e plenitude" (Jo 10, 10).

Deus faça de nós nada mais do que "discípulos" de Jesus, o rabino judeu de Nazaré, no qual reconhecemos presente a verdade do Pai como Boa Noticia - palavra, gesto e promessa - de salvação que se destina a todo mundo, a todos os povos e todas as culturas. Se formos coerentes com isso, o anúncio, celebração e testemunho deste Evangelho não podem conviver com atitudes dominadoras, que se impõem, que exigem monopólio ou exclusividade da fé.

Se cremos nisso, poderemos nos definir como "crentes" na ação do Espírito de Deus, abertos às sempre novas e imprevisíveis formas do seu revelar-se e atuar, na história e na Criação. Garante o jesuíta indiano Michael Amaladoss: "A primeira tarefa do trabalho missionário é a contemplação da obra do Espírito de Deus entre os povos".

Sendo discípulos de Jesus, só podemos ser testemunhas da vontade universal de salvação do Pai, testemunha por Jesus no seu modo de se relacionar com as pessoas e tratá-las, especialmente as pessoas de outras culturas e religiões.

O Espírito que desceu e permaneceu em Jesus o confirmou nesse seu modo de ser e inspirou-o em cada passo de abertura ao outro. Foi no mesmo Espírito que Jesus se abandonou ao Pai, confiante, e na certeza de que o seu Paizinho encontraria a forma de atualizar e tornar para todo mundo verdadeiro o sentido profundo do seu nome, Jesus, Deus salva! Foi o mesmo Espírito que ele, Jesus, ressuscitado, soprou sobre os discípulos para que anunciassem ao mundo Aquela verdade e naquela certeza da fé gratuita de que Deus salva a todos, mergulhassem todos os povos e nações.

Que Deus nos torne presbíteros, não apenas por vocação (porque esta vocação é própria de todos os batizados), mas por paixão e por escolha de vida. Deus nos torne presbíteros disponíveis e consagrados, tempo completo, à causa deste Evangelho da salvação (isto é, da graça, paz e reconciliação) para todos, aqui e agora. Embora a salvação não seja só para aqui e agora, é também, e é importante que seja aqui e agora.

Estou convencido de que esta é a única raiz e força capaz de evitar que sejamos apenas funcionários do sagrado, funcionários meio frustrados que, para sua autoconservação e sobrevivência, iludem-se a si mesmos e aos outros, na adoração institucional da própria Igreja, ou na papalatria ou simplesmente no culto do seu próprio ego e do seu poder sagrado.


4. De que Deus somos presbíteros?

Cada um compreende ou rejeita este tipo de conversa que estamos aprofundando, de acordo com a visão de Deus que tenha. O tipo de caminho seguido por São Francisco de Assis ou por Charles de Foulcaud foi determinado pela visão que tiveram de Deus e do Cristo. Certamente, São Francisco não negava a Cristo Pantocrator de Igreja bizantina, mas vocês imaginariam São Francisco fazendo o que fez, se quisesse seguir não o Cristo nu na Cruz, mas o Cristo Pantocrator; se Charles de Foulcaud quisesse seguir não o Cristo em sua vida escondida em Nazaré e sim o Cristo que aparece na maioria dos atuais documentos da Cúria Romana? Não vejo como viver em missão presbiteral aberta à humanidade neste tempo novo, se não revermos uma idéia de Deus muito presa ao poder e a de Cristo quase como um deus à parte do Pai que faz do cristianismo não a religião de Deus Pai, ensinada por Jesus, mas a religião dirigida isoladamente ou preferencialmente ao Cristo como um deus em si mesmo e não como o Filho que, através do Espírito Santo, nos conduz ao Pai.

Duas chaves de leitura, complementares mas distintas, podemos tirar da teologia mais aberta de hoje para uma nova compreensão do ministério presbiteral:

1. Assumir e testemunhar que a revelação de Deus é progressiva e dinâmica
. 2. Como discípulos de Jesus, crer em Jesus assumindo o modo de crer de Jesus. É crendo como Jesus que a gente segue Jesus no seu caminho do Reino e na sua missão .

É importante tirar desses dois princípios algumas conclusões de métodos e de opção para o modo como exercer nosso ministério presbiteral no terceiro milênio.

O que significa, hoje, viver a missão de presbíteros no seguimento de Jesus, ou crendo como Jesus e não apenas em Jesus? Jesus viveu a sua fé e sua missão, diz Paulo, em um processo que o apóstolo chamou de "Kênosis", esvaziamento, auto-diminuição, caminho que a mística judaica já apontava existir em Deus, desde a criação. A carta aos filipenses diz: "O Cristo ekenosen: "esvaziou-se em si mesmo". Paulo falava na cruz, mas esta Kenose está dentro de um auto-esvaziamento que foi toda a sua vida. Como um padre pode viver isso em uma Igreja triunfalista, cuja hierarquia cai freqüentemente no pecado do narcisismo, celebra a si mesma e usa o ministro enquanto este serve à estrutura, nem o acompanha espiritualmente, nem se preocupa como seu ser mais profundo e sim o trabalho que ele pode desempenhar?

Será que podemos ler como sendo parte da missão quenótica do presbítero a sensação de impotência que invade a tantos padres e mesmo de certo fracasso que, de vez em quando, temos na missão? Trata-se do mesmo fracasso de Jesus que não conseguiu passar a seus interlocutores sua imagem de Deus, Abba, fonte de amor e vida para todo o mundo? É o mesmo fracasso dos profetas, de ontem e de hoje, martirizados pelo seu trabalho pela justiça? Ou é meramente o fracasso de ambições e carreirismos que fazem com que mereçamos a advertência do profeta Jeremias: "Este povo cometeu uma dupla maldade: abandonou a mim que sou fonte de águas vivas e foi cavar no deserto cisternas furadas incapazes de reter água" (Jr 2,13)?


5. De que Igreja somos presbíteros?

Há quem continue pensando que a "crise" dos padres começou quando o Concílio Vaticano II valorizou a vocação dos leigos, acentuou o sacerdócio comum de toda pessoa batizada, insistiu na colegialidade dos bispos e realmente retomou a teologia do episcopado mais original na Igreja, mas não desenvolveu uma teologia própria do presbiterado e nesse sentido não ajudou os padres a encontrarem sua identidade própria neste modelo novo de Igreja. É verdade. O Concílio acentuou que a missão é da Igreja toda e todas as pessoas batizadas são chamadas concretamente e de modo efetivo a se tornarem dom do Espírito para a edificação da Igreja e para o testemunho do Reino (LG 12 e AA 3). Insiste: "Os leigos devem ser assumidos pela hierarquia para assumir algumas funções eclesiásticas (LG 33, EV 1, 370) . De modo algum relativiza ou diminui a importância do ministério presbiteral, mas o liga ao sacerdócio comum dos fiéis e a serviço de sua realização."(LG 10).

Acho que essa crise só ocorreu para quem vivia o seu ministério como se fosse um poder sagrado e independente da comunidade. Ao contrário, o Concílio e depois na América Latina, Medellin, aprofundou o sentido social da nossa missão. Deu ao padre um ministério muito mais amplo e profundo do que quando se tinha do presbiterado uma visão quase só sacral e doméstica.

O papa Paulo VI escreveu: "O ministério ordenado está a serviço do ministério do povo que consiste em tornar presente a salvação de Jesus Cristo e de transformar este mundo em uma nova sociedade (...) ignorar as questões ligadas à justiça, à libertação, ao desenvolvimento e à paz do mundo seria ignorar a doutrina do Evangelho a respeito do amor para com o próximo que sempre sofre necessidade" (Evangelii Numtiandi 31).

As necessidades do povo e especialmente dos oprimidos são a referência fundamental de toda missão. "A função dos padres é prioritariamente promover o bem-comum na defesa da dignidade humana e de seus direitos inalienáveis, na proteção das pessoas mais fracas e na construção da paz, da liberdade e de justiça, na criação de estruturas sociais mais justas e mais fraternas" (Puebla 749).

É claro que isso não depende só dos padres. É uma opção da Igreja, da Igreja local. "Dize-me como a tua Igreja vive e é organizada e eu te direi que tipo de padre se está sendo lá". A profecia é a essência mesma da missão no mundo contemporâneo. "Igreja com os outros", procura da justiça, inculturação como forma de testemunhar o Evangelho, elemento de interpelação à conversão e à mudança.

As comunidades eclesiais de base, reunidas no 10º Encontro Intereclesial de Cebs, em Ilhéus, julho de 2000, afirmavam em sua carta de conclusão:

"Sonhamos com uma Igreja participativa, toda ministerial, unida no respeito à diversidade, missionária. Uma Igreja mãe, acolhedora, pobre, comprometida com a causa dos excluídos e aberta aos novos desafios. As CEBs sentem profundamente estarem quase sempre privadas da mesa eucarística em suas celebrações dominicais e pedem que a Igreja repense urgentemente a questão ministerial. Sonham ainda com uma Igreja onde o poder seja partilhado, com espaço para a participação da mulher nas várias instâncias de serviços e de decisões".

E continuam: "Na contra-mão de uma sociedade onde a riqueza é acumulada nas mãos de poucos, o poder é centralizado e o saber privatizado, sonhamos com uma Igreja onde todas as suas lideranças testemunham, por sua prática, uma nova convivência eclesial, baseada na partilha, na participação e na comunhão (n. 19-20)".

Os famosos documentos de Santa Fé pediam expressamente para lutar contra a atuação e influência da Igreja Católica e de contra-balançar isso por meio da ação dos novos grupos cristãos ou independentes que muitos chamam de "seitas". Hoje, a miséria do povo se multiplicou por três, a violência estrutural aumentou e os problemas sociais se aprofundaram. Só mudou o fato de que a maioria da hierarquia se revelou mais conservadora. Hoje, quem assistir à Rede Vida de Televisão, à TV Canção Nova e ver o jeito de ser Igreja em muitas dioceses, compreende que os militares que escreveram os documentos de Santa Fé, hoje, podem dormir sossegados e não precisam mais encomendar grupos religiosos novos. Na própria Igreja Católica encontram os grupos dos quais precisam para enfrentar a minoria resistente. Será que poderíamos dizer que, para cumprir, hoje, a missão de presbíteros temos de aceitar o desafio de marchar na contra-corrente, não só com relação à tendência do mundo atual, mas mesmo e principalmente com relação ao modelo oficial de pastoral que parte da Igreja hierárquica incute?

A impressão que eu tenho é quem um lado da crise tanto de fé quanto pessoal, existencial, está ligado a isso, ao modelo de Igreja que muitos aceitam por medo, mas na prática, não crêem profundamente. E isso não é só um problema dos padres. Em uma entrevista, Dom Jacques Gaillot disse claro: "É preciso falar dos problemas sem medo e sem pressões. A maioria dos bispos pensa que a Igreja precisa mudar sua disciplina quanto à vida dos padres, mas não tem coragem de dizer isso publicamente".


6. Presbíteros fiéis a nós mesmos

O cardeal Walter Kasper diz que no imediato pós-concílio, a crise do padre era mais de tipo ministerial, nos anos 70 e 80 era mais pastoral e nos últimos anos é mais espiritual e de caráter psicológico/existencial do que teológico ou mesmo pastoral .

Talvez tudo isso esteja muito ligado e não dê para distinguir tanto uma da outra, ou quando muito possamos dizer que a crise é em todos estes aspectos, mas em cada época há um lado ou dimensão que se sobressai.

Em todos os campos do conhecimento e da vida, hoje, se fala em superar o paradigma da modernidade fragmentadora que separava razão e emoção, mente e coração, dimensão coletiva do aspecto mais pessoal, o todo do uno. Nos EUA, fizeram uma pesquisa sobre como os padres se viam a si mesmos e concluíram que 75% dos padres têm uma auto-estima muito diminuída, uma imagem negativa de si mesmo e isso os leva a atitudes de insegurança, desconfiança, inveja e rivalidades. Parece que a taxa pior era a dos padres mais jovens. E os estudiosos viram como conseqüência disso uma forte rigidez institucional. Seria uma forma de disfarçar a fragilidade psicológica. Desta situação dos padres, parece decorrer um modelo de missão baseada artificialmente no aparecer, na excessiva preocupação com roupas, paramentos, etc., no modo desequilibrado de lidar com dinheiro e em uma grande fragilidade afetiva.

Esta questão afetiva não está apenas ligada ao celibato, embora seja um elemento desse conjunto. A questão é mais de integração humana, da liberdade interior de superar bloqueios de relação e exigir de si mesmo um crescimento pessoal também neste domínio. Em uma entrevista a um jornalista italiano, um padre já de idade dizia: "É preciso ver o que o celibato fez conosco depois de dez, trinta, cinqüenta anos de ministério. Será que nos tornou mais humanos, mais livres para amar, disponíveis para o testemunho do Reino?"

Uma agência de turismo de São Paulo se especializou em "aventuras-surpresas". Vende pacotes para o final de semana. As pessoas compram, confiando que a aventura vale a pena. Tomam o avião em Guarulhos, no horário pré-fixado, sem saber para onde serão conduzidas. É um turismo diferente daquele em que a pessoa chega em uma cidade e recebe um mapa, onde tudo está pré-determinado. Basta seguir o mapa, do ponto 1 ao ponto 10, que se pode conhecer todos os monumentos históricos e pontos turísticos. As aventuras-surpresas não têm mapa e roteiros pré-estabelecidos, mas também não podem ser totalmente indeterminadas. Cada viagem depende do preço e da quantidade de dias disponíveis. Se se tratar de escalada de montanha ou de pesca no Pantanal, dependerá da época do ano e da meteorologia. A viagem e a estrutura básica são previstas e planejadas pelos organizadores, mas isso não tira dos clientes a surpresa e a emoção da descoberta.

Este tipo de viagem me faz pensar na provável agenda para quem se aventura a viver o ministério eclesial no mundo urbano, neste início de milênio, marcado pela crise de paradigmas e por novos desafios das ciências. Viajamos sabendo o que temos até aqui e a realidade do mundo nos aponta alguns elementos indicativos de pauta, mas, como diz a carta aos hebreus sobre Abraão: "partimos sem saber para onde vamos" (Hb, 11,8).

O que podemos garantir é um compromisso de vida, como aliança inabalável, de nos manter unidos e solidários e ser fiéis ao apelo de Deus, na noite escura da fé até que a amada se converta em amado e Deus seja tudo em todos.

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