“Estar sempre prontos a prestar conta da esperança que habita em nós”[1] 
(Mística, Utopia e Valores do Militante Popular) - Marcelo Barros[2]
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Kierkegaard conta a história de um homem, um europeu que, viajando para o oriente, conheceu uma moça chinesa com a qual ele se encontrou uma única vez, numa estação de trem. Ele se apaixonou por essa mulher, mas não podia conversar com ela. Não conhecia a língua e não podia lhe escrever e nem receber suas cartas. Voltando ao seu país, decidiu aprender chinês para se comunicar com sua amada. Depois de muitas dificuldades, encontrou onde aprender chinês. Mergulhou no estudo da língua e tanto se esforçou que se tornou um eminente sinólogo, convidado a dar conferências no mundo inteiro sobre a língua e a cultura chinesa. 

Seus estudos, suas viagens e compromissos se tornaram tantos que, no começo, ele escrevia para a sua amada e dela recebia resposta. Depois, não mais encontrava tempo para escrever.

fotografia de Christian Cravo (Rev. Paparazzi nº 21) -cortesia

 Da outra parte, ela não sabia para onde mandar as cartas. O nosso homem acabou sendo tão importante que esqueceu a mulher pela qual aprendeu o chinês[3] .

Esta história, que parece ser real, é, ao mesmo tempo, uma parábola. Pode ajudar cada um/ uma e nós, como movimento popular, a nos rever se também não corremos o risco de esquecer a “chinesa” pela qual nos apaixonamos e pela qual nos interessamos de aprender a língua estranha e conhecer a cultura diferente.

No final do primeiro século da nossa era, entre as Igrejas da Ásia Menor, onde, hoje, é a Turquia, Éfeso, a capital da província, era uma cidade importante, rica e cosmopolita. Lá havia uma comunidade cristã, fundada por Paulo e seus companheiros. Depois de 40 ou 50 anos, esta comunidade era, talvez, a Igreja mais organizada de todas, tinha uma estrutura muito firme e parecia estar bem. Mas, o profeta João, preso na ilha de Patmos, lhe escreve uma cartinha, em nome de Deus, dizendo à Igreja de Éfeso: “Retoma o teu primeiro amor” (Ap 2, 4- 5). “Volta ao primeiro amor da tua vida”. Todo mundo lembra a força, a energia, o encanto que tem para cada adolescente a primeira paixão. Cada coisa que a pessoa faz tem uma energia, uma alegria que não é a rotina de cada dia. Em filmes e novelas, quando a moça aceita namorar e ele percebe que ela também está apaixonada, ele sai pelas ruas pulando e sorrindo para as pedras. Quem o encontra e o vê assim, diz: “Até parece que você está apaixonado”.

É essa paixão que me faz estar aqui com vocês. Não estaria aqui por dinheiro, nem por alguma ambição política, nem por outra razão qualquer. Estou aqui por amor a vocês e à causa que vocês representam e sustentam. Mesmo não conhecendo a todos, pessoalmente, os encontro como se já nos conhecêssemos há muitos anos. E repito, o que nos une, é mais do que ambição pessoal, ou um projeto apenas social e político. É uma espiritualidade. Uma mística, um sonho que os estudiosos chamam de utopia quando a gente se junta e começa a lutar para realizar. E esta estrela que nos guia, ela mexe no nosso caminho hoje. Não é só um projeto futuro. Se eu quero ir para um ponto determinado, não adianta andar rumo à direção contrária. Aí temos a mística, a utopia e os valores da militância.

 

1.     O segredo por trás de cada palavra

 

  Uma grande ação, exigente e arriscada, supõe uma preparação adequada e exige até segredo. Quando os companheiros e companheiras decidem ocupar uma fazenda, têm de organizar bem as pessoas que podem ir, escolher bem a noite ou madrugada adequadas e manter todos os preparativos em segredo porque se não, correm o risco de quando chegarem na área, encontrar a polícia armada ou jagunços para impedir. Ou na véspera, o fazendeiro manda passar um trator na área para dizer que a fazenda está sendo cultivada... Mas esse segredo não pode ser de muita gente. Imaginem um segredo que eu conto a 300 pessoas. Antigamente, quando os generais de um exército planejavam um ato de guerra, a tática de luta era guardada a sete chaves e só o rei e os seus conselheiros muito íntimos sabiam. Mesmo os soldados esperavam as ordens na hora, mas não sabiam. Esse projeto se chamava “mistério” e daí vem a palavra “mística”. O segredo que motiva o mais profundo de nossas vidas. E esse segredo, repito, não é apenas intelectual. Não é apenas ideológico. É de amor. A coisa mais terrível é um assessor técnico que orienta tudo mas não se envolve com amor naquilo que ele vive.

Essa mística do militante pode ser religiosa ou não. Para quem é cristão, se chama “Mística do Reino de Deus”. E a gente acredita que para vive-la eu preciso me deixar conduzir pelo Espírito de Deus. Por isso, um sinônimo de mística cristã é também “espiritualidade” que não tem nada a ver com “espiritualismo” e sim com “ser conduzidos pelo Espírito de Deus”.


desenho de Pulika

O que é Espiritualidade? Para quem é cristão, é deixar-se tomar interiormente pelo Espírito de Deus. Nós podemos ser possuídos por um sentimento. Tem gente que se deixa possuir pela raiva. Fica transtornado. Tem gente que é possuído pela ambição. Ou por um instinto sexual. Depois se arrepende do que fez. Mas, aí já fez. Quando a gente se deixa possuir pelo amor, pela solidariedade, pela sacralidade da vida e pelo cuidado com todos os seres vivos, isso é sinal de que estamos possuídos pelo Espírito Divino.

Como isso não é uma coisa natural, a gente tem de exercitar, tem de entrar neste caminho e cultivar. O método para isso é a espiritualidade. Um caminho de aprofundamento interior que cada um faz no segredo do coração, mas também comunitariamente.   

Para o capitalismo, o mistério mais profundo é sua senha de banco, é o número de sua conta, é quanto dinheiro você tem, ou ganha. Nos círculos deste mundo, esse mistério, não se diz nem aos mais íntimos. Os cristãos acreditam que Jesus de Nazaré resolveu abrir o mistério mais profundo do Reino de Deus para todo mundo que quiser apaixonar-se por este projeto em sua vida pessoal e para o universo todo. Este é o núcleo da fé, sem o qual tudo o mais perde o sentido. É difícil conversar sobre isso porque conversar sobre espiritualidade é ousar abordar a própria intimidade do amor e para isso talvez seja melhor a partilha da vida, mais do que apenas a clareza de conceitos.

Então, já compreendemos que a mística é o projeto mais profundo, mais alto que temos na vida e as razões mais profundas do coração para dar a vida por este amor. A espiritualidade é o caminho para viver no dia a dia esta mística e ela nos pede uma ética, supõe uma coerência com o que queremos. Imaginem uma pessoa que dissesse: “eu quero um mundo justo, mas enquanto não conseguir isso, eu me dou o direito de ser injusto”. Como um companheiro que luta por um mundo de liberdade pode oprimir alguém? Como um homem que crê na igualdade de todos os seres humanos pode ser machista em casa com a mulher?  Entretanto, infelizmente, nem sempre a vida da gente é totalmente coerente. São Paulo escreveu: “Eu não faço o bem que quero. Faço o mal que não quero” (Rm 7, 19). Então, não basta a gente estar de acordo ou pensar o projeto para vivê-lo. É preciso mudar o jeito da gente ser. O Evangelho diz: “Para acolher e viver o Reino de Deus, é preciso converter-se!”. O próprio termo “conversão” indica um “com” que significa juntos e “versão” que significa voltar. Isto é, vamos, juntos, fazer uma reviravolta, uma revolução, dentro de nós mesmos e na sociedade. Isso não é um processo espontâneo. Pede método e muito treino. Um cuidado permanente e cotidiano. Aí é que entram as religiões. 

 

2.     A mística e as religiões

 A religião é um método comunitário para nos ajudar a viver a mística do Reino, a espiritualidade. Às vezes, a religião tende a substituir a espiritualidade e se tornar um fim em si mesmo. Não é. Uma Igreja existe em função do Reino, do projeto de Deus. Eu quero aprender inglês, mas enquanto eu não entrar em um curso regular, acabo não aprendendo. Eu quero fazer ginástica, posso até comprar os apetrechos apropriados para fazer isso em casa. Com a correria da vida, acabo não fazendo. A academia ajuda. Igreja é isso: uma ajuda comunitária.

Assim como eu não bebo água sem um recipiente, o mais comum é que a espiritualidade também precisa de um método comunitário, uma Igreja ou religião. Mas, o importante é a gente buscar sempre o Espírito por trás de tudo. Esse buscar o Espírito envolve não só a participação em uma religião que pode ser positiva, mas não basta. Envolve um caminho ético de vida e um engajamento conseqüente no plano social. Hoje, essa perspectiva começa a ser percebida por diversas religiões e caminhos espirituais. Em vários países ditatoriais, monges budistas têm cada vez mais tomado uma atitude de engajamento social conseqüente com a sua fé. Grupos de espiritualidade mais independente tem cultivado um engajamento ecológico.

 Na tradição bíblica, a raiz dessa busca da justiça e de um engajamento para transformar o mundo é o permanente desejo da intimidade de Deus. A tradição judaica conta a história do rabino Baruc. O seu neto, criança de três anos precipitou-se em lágrimas no seu quarto.

- Yehiel, por que você está chorando?

- Meu amigo deu o fora. Não é justo. Nós estávamos brincando de esconder. E de repente, ele parou de brincar. Foi embora e me deixou escondido.

Comovido, o rabino acariciou a cabeça da criança e as lágrimas lhe correram nos olhos:

- “Deus também, Yehel, sofre. Ele se esconde e o ser humano não o procura. Você compreende, Yehel, Deus está escondido, esperando que o procuremos”[4].

 Procurar a Deus é um tema dos mais importantes na Bíblia e na tradição espiritual. Isaías diz: “Procurai o Senhor, enquanto ele se deixa encontrar”.  O Salmo 34 louva a Deus porque se deixa encontrar.

 “Ninguém poderia buscar-te se primeiro não te tivesse encontrado; de tal forma que queres que te encontremos a fim de te buscar e que te busquemos afim de te encontrar” (S. Bernardo[5])

A vida espiritual é este contínuo encontrar a Deus e procurá-lo de novo. Ele se revela e se esconde, esconde-se e se revela.

Hoje, certos grupos espirituais querem ter a sensação do encontro imediato e saboroso de Deus. Querem ter a imediaticidade espiritual, o aspecto gostoso da oração, da mística, da espiritualidade. Mas, o nosso Deus, o Deus bíbilico se esconde e se revela. E vem a nós sempre por trás de uma nuvem escura. E se revela no deserto. Aceita que haja momentos de gozo, mas parece que pede mais o compromisso da busca no escuro.

Hoje, somos chamados a descobrir a Deus se revelando nas mais diversas culturas e religiões. O pluralismo religioso é um fato e atualmente aparece nos meios de comunicação e em todos os momentos da vida. Alguns poderão julgar negativo. Nós vemos como um fato positivo, uma graça de Deus. “O que o Espírito diz, hoje, às Igrejas” é o título de um importante documento da Federação dos Bispos da Ásia em 1999. Este documento diz: “Temos certeza da universalidade da graça de Deus. Deus se dá e sobre isso, nós, seres humanos, não podemos ter nenhum controle. Para nós, Cristo é o pólo, o eixo universal do diálogo de Deus com a humanidade. Por isso, devemos conhecer o que Deus disse e continua a dizer de mil maneiras. Consagrar-se a isso com toda a nossa atenção é uma forma de prestar homenagem à graça divina. Podemos compreender as religiões como respostas ao encontro com o mistério divino” [6]. 

Nos movimentos populares de esquerda em que os intelectuais orgânicos romperam com as Igrejas e religiões. Realmente, em geral, os grupos religiosos eram reacionários e atrapalhavam a revolução. Marx chegou a dizer que “a religião é o ópio do povo, o suspiro dos oprimidos que precisam de um alívio, mas não os ajuda a sair da opressão”. Este panorama mudou nos anos 60. Os cristãos participaram ativamente do processo revolucionário de vários países latino-americanos; os budistas participaram de protestos contra governos ditatoriais na Ásia e assim por diante... Tudo depende da visão de Deus.

A própria religião popular que, às vezes, parece ensinar a resignação e a passividade (“tudo é se Deus quiser!”), muitas vezes, acaba favorecendo a unidade dos pobres e a organização ativa dos pequenos e os ajuda a manter sua cultura. Então, é preciso cuidar para não cair em preconceitos alienados e reacionários... Um caminho revolucionário pede uma mente e um coração abertos e sem preconceitos a todo mundo que se unir a nós na luta pela libertação.

 3. A espiritualidade do cuidado com a Terra

 Reproduzo aqui um texto recente de Leonardo Boff:

“A humanidade conheceu muitas crises e ilimitadas travessias. É verdade que nenhuma delas envolvia todas as sociedades, como no nosso caso. Mas atravessou a todas sem sucumbir. Ao contrário, saiu delas com novas possibilidades de realização pessoal e coletiva. Por isso, face à dramaticidade dos tempos atuais alimentamos esperança. Estamos apenas em dores de parto e não em espasmos de aborto. Vamos reflorescer e irradiar, pois, esse é o destino do ser humano no tempo e na  eternidade.

Entretanto, ninguém tem hoje, condições de desenhar o perfil da sociedade-mundo nascente. O que importa é discernir aqueles princípios que podem funcionar como propulsores da nave espacial-Terra. Elencamos quatro princípios, há séculos enviados ao exílio, agora regressando lentamente: a Terra, o cuidado, o feminino e a espiritualidade.

A Terra está sendo vista não mais como um baú de recursos ilimitados, mas como Gaia, um superorganismo vivo, que enlaça em redes de interdependências a todos os seres. Nós, humanos, somos Terra que sente e ama, cuida e venera. Essa percepção nos leva a ter sentimentos de pertença, de cooperação e de respeito sem os quais o novo não irrompe. Terra e  humanidade têm um destino comum.

O cuidado é da essência da vida e do ser humano. Junto com o trabalho, o cuidado constrói o mundo humano. Por milênios vivemos sob a ditadura do trabalho. Sem o cuidado o trabalho devastou a Terra. O cuidado que é uma relação amorosa para com as coisas, salvará ainda a vida e a Terra.

O feminino no homem e na mulher é um princípio que origina em nós a percepção da totalidade, nos permite ver que as coisas são também símbolos, nos faz cultivar o espaço do mistério, nos inclina ao enternecimento e ao cuidado e nos torna mais cooperadores que competitivos. O resgate da “anima”(feminino) é fundamental para colocar no centro de tudo a vida e para fundar uma relação não utilitarista mas afetuosa com a realidade envolvente.

Por fim, a espiritualidade. Ela não é monopólio das religiões mas uma dimensão do humano. É a nossa capacidade de dialogar com o  Eu profundo e de ouvir os apelos da coração. É a consciência que se sente inserida num todo maior e que capta o elo secreto que tudo liga e re-liga à Fonte primeva de todo ser, chamada Deus. Com ele entretém diálogo de intimidade e de amor. A espiritualidade é a aura que sustenta os valores de solidariedade, com-paixão, cuidado e amor, fundamentais para uma sociabilidade verdadeiramente humana.

De volta do exílio, esses princípios perpassam os movimentos sociais e inauguram um novo estado de consciência, mais respeitoso para com a Terra, com mais cuidado para com a vida, valorizando a razão cordial e a inteligência emocional e criando espaço para a espiritualidade, fonte de contemplação, gratuidade e veneração. O embrião da geo-sociedade pôde ser celebrado no Fórum Social de Porto Alegre e alhures. Só agora pode começar, verdadeiramente, o novo milênio, a geo-sociedade mundial, tornando real o verso utópico de Fernando Pessoa: “quero poder imaginar a vida como ela nunca foi”.

 

4. A Mística do militante cristão é a paixão pelo Reino de Deus

 

O termo “Reino” pede ser melhor compreendido quando falamos em “projeto”. Há um projeto de Deus para o mundo e para nossa vida e a mística mais profunda é quando, de tal forma, sintonizamos com este projeto divino que podemos dizer verdadeiramente: “o projeto de Deus é realmente o meu projeto de vida e de ação”.

Gandhi dizia: “Não é possível viver a espiritualidade no egoísmo. Não é possível salvar a si mesmo sem salvar os outros (...) Lembre-se das pessoas mais pobres e oprimidas que você conhece. Pergunte-se se o ato que você planeja ou simplesmente se o seu modo atual de viver é, de algum modo, proveitoso para essas pessoas. Se for, é certo que nesses atos, você encontrará a Deus”.

No cristianismo, essa sintonia entre busca de Deus e do projeto de amor que o Pai/ Mãe de compaixão tem sobre o mundo chama-se “mística do Reino”. Isso não é espontâneo nem se dá uma vez por todas.

“Dom Pedro Casaldáliga, ao receber o doutorado honoris causa pela Universidade Federal de Campinas, São Paulo, em outubro de 2000, falou da ‘Paixão pela Utopia’ e afirmou: ‘Trata-se de uma paixão escandalosamente desatualizada, nesta hora de pragmatismos, de produtividade, de mercantilismo total, de pós-modernidade escancarada. Em outras palavras, esta paixão é a paixão pela Esperança. Para quem é cristão, a paixão pelo Reino que é a paixão de Deus e do seu Cristo. Uma paixão que, em primeira e última instância, coincide com a melhor paixão da Humanidade mesma, quando ela quer ser plenamente humana, autenticamente viva y definitivamente feliz’.

Esta Paixão pelo Reino - é a melhor definição da missão cristã - está globalizadamente expatriada neste mundo neo-liberal e pós-moderno atual, neste contexto psicológico e cultural de hoje. Está tão expatriada como o próprio Evangelho de Jesus. Por isso se caem nos sucedâneos: religiões sem Deus, salvações sem escatologia, cristianismos light, libertações que não vão muito além da auto-estima…” [7].

É esta mística do Reino que faz com que, mesmo quando se perde um combate, não se desiste do objetivo muito mais alto. Entretanto, Jesus diz que esta perspectiva nova e de transformação radical do mundo começa em nós mesmos. Ao anunciar: “O Reino de Deus está perto, ou está chegando”, Jesus acrescentou: “por isso, se convertam, isto é, mudem de vida.” (Cf. Mc 1, 15).

E aí é que entra a questão da Ética que não é espiritual quando não abrange toda a vida da gente, desde a dimensão social e política até a vida pessoal, o modo de cada um/uma relacionar-se e viver. A carta de João dizia: “Quem diz ser dele deve viver como ele viveu” (1 Jo 2, 6).

Essa paixão pelo Reino de Deus é o que faz com que os grupos cristãos de base não percam a esperança nem a firmeza mesmo em tempos de bruto neo-liberalismo e de repressão. Aliás, na Bíblia, sempre se fala mais em Reino de Deus quando a situação é difícil e a esperança tende a diminuir. Um provérbio popular africano diz: “Por mais escura que seja a noite, ela carrega dentro dessa escuridão o novo dia”.

Hoje, acreditamos que o contexto histórico no qual Jesus teria pronunciado as parábolas do Reino teria sido de crise pessoal (os cristólogos chamam de “crise galilaica) e de dúvida do povo.  Ele prometeu uma mudança absoluta da sociedade e ela não aconteceu ainda. Como muita gente, hoje em dia, vê a realidade cada vez mais difícil para os pobres e pergunta: “E Deus que vê tudo isso e não intervém?” Jesus respondeu a essa questão com histórias como a parábola da semente de mostarda, ou do fermento escondido na massa e outras. O Reino é, hoje, uma realidade pequena e escondida, mas atuante e um dia se revelará com toda a sua força. A fé no Reino de Deus supõe crer no meio da noite mais escura que, logo virá a madrugada e a luz.

Contam que um lavrador de movimento popular cristão sonhou com o céu e ele, coitado, tinha sido tão influenciado pelo contexto da sociedade em que vivemos, que o céu que ele sonhou parecia uma venda. E tinha um anjo por detrás de um balcão. Ele entrou, desconfiado. E perguntou:

-       O que você oferece aqui?

O anjo respondeu:

- Tudo o que você quiser. Pode pedir que terá e de graça.

O homem ficou entusiasmado com a possibilidade de pedir tudo o que quisesse. Como se viu no céu, pensou que deveria, primeiramente, pedir coisas não só para si mesmo. E começou, meio hesitante:

- Eu quero que se acabem todas as guerras, todos os países realizem a justiça social e ...

Ele ia continuar quando o anjo o interrompeu:

- Meu amigo, há um engano. Nós aqui só damos sementes e você já está pedindo os frutos.  


[1] -  Conversa com 300 dirigentes do MST em um Curso Nacional – Goiânia, 18/ 07/ 2002. 

[2] - MARCELO BARROS, monge beneditino, biblista e escritor, tem 26 livros publicados, entre os quais  o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas"(A crise mundial da Água e a Espiritualidade), Ed. CEBI - Rede. Fax: 062- 372 11 35. Email: mostanun@cultura.com.br

[3]  - Cf. DOLORES ALEIXANDRE, r.s.c.j., Mémoire vive du “Jeu Pascal”, Mystique et Tâches de la Vie Réligieuse aujourd’hui, Conferência dada a Unione Internazionale Superiore Generali, Roma, 3 de maio de 1998, texto poligrafado, p. 7.

[4] - ELIE WIESEL, Célébration hassidique, II, Le Seuil, 1972; citado em Jésus, n. 70. septembre 1991, p. 46.vv

[5] - BERNARDO DE CLARAVAL, De Diligendo Deo, 7, 22

[6] - Cf. Adista, 11/ 01/ 99, p. 5- 10.

[7] - JOSÉ MARIA VIGIL,  La Misión en contexto en América Latina. Cambios en el contexto que condicionan la misión de hoy,  in “Misiones Extranjeras” 182-183 (junio 2001) 160-169. 


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