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O
rosto de Deus em Maria A devoção mariana na teologia cristã - Marcelo Barros[1] |
M.Paz |
Católicos
que procuram no Novo Testamento textos que falam de Maria surpreendem-se com o
fato destes textos serem tão poucos. Fora os relatos agrupados nos capítulos 1
e 2 de Lucas e de Mateus, só se menciona Maria em breves passagens de João 2 e
19. Além disso, há uma alusão a que Deus enviou ao mundo o seu Filho,
“nascido de mulher”, na carta de Paulo aos gálatas (4, 4 ss) e nada mais.
Hoje, há católicos que julgam estranho o fato dos evangélicos não aceitarem
a devoção a Maria como comum na Igreja. Esquecem que cristãos da primeira
geração como Paulo, Marcos e João não terem conhecido nenhuma forma de memória
de Maria. Nunca se referiram a ela como Virgem Mãe e nem parecem ter conhecido
nem a história da concepção de Jesus em Belém, por ação do Espírito
Santo. É preciso que fique claro que isso não diminui em nada a profundidade
da fé cristã deles e de suas comunidades.
A sobriedade dos textos bíblicos sobre Maria contrasta fortemente com a enorme quantidade de lendas, imagens, histórias de aparições e milagres que foram se acumulando nestes 20 séculos de história da Igreja Católica e das Igrejas Orientais. A única explicação para isso é o fato de que, com o decorrer dos tempos, a Igreja foi aprofundando os diversos aspectos de sua fé, procurando relacioná-la com as culturas e sensibilidades dos povos aos quais os cristãos começavam a anunciar o Evangelho.
1.
O caráter cultural da tradição mariana
A devoção mariana é como um rio formado por diversos afluentes. O primeiro veio é a tradição bíblica e cristã da memória da mãe de Jesus com a qual a comunidade cristã se identifica. Conforme o Evangelho, a própria Maria cantou: “Todas as gerações me proclamarão bendita porque o Todo-poderoso fez em mim maravilhas”(Lc 1, 48- 49). (quando??). As Igrejas cristãs começaram a cumprir esta profecia e bendizer a Deus pela graça dada a Maria. O próprio Martinho Lutero, reformador que deu origem ao protestantismo, era grande devoto de Maria e dedicou uma de suas obras ao cântico de Maria (Magnificat). O que as Igrejas evangélicas não podem aceitar é que certa piedade católica construa uma teologia sobre Maria que a coloca quase igual ao Cristo ou em alguns relatos populares até mais do que ele. Certas tradições católicas a chamam de “co-redentora”. É preciso voltar à doutrina do Novo Testamento: “Há um só Deus e um único mediador entre Deus e a humanidade: Jesus Cristo” (1 Tm 2, 5). Os catecismos e pregações responderam à polêmica suscitada pelo culto mariano fazendo distinções entre “adoração a Deus” e “veneração a Maria e aos santos”. Depois do Concílio, a Igreja Católica procurou expressões mais sóbrias para a devoção a Maria e ligou-a de forma mais íntima à própria piedade ao Cristo. Entretanto, para muitas pessoas do povo, este discurso continua distante e incompreensível. Concretamente, no mundo inteiro e também no Brasil, há muito mais templos e santuários dedicados a Nossa Senhora do que ao próprio Jesus e menos ainda a Deus Pai.
Esta situação tem raízes na história. A própria hierarquia católica tomou consciência de que, em certos períodos da história, falhou quando deixou a Bíblia e a Teologia só com o clero e ao povo restou apenas a devoção tradicional, muito misturada com crenças e costumes pré-cristãos. Este tipo de sincretismo não é novo. Acontece desde o mundo antigo.
Quando o cristianismo entrou no norte da Europa, encontrou os cultos celtas a uma deusa chamada “Rainha do Céu”. Não demorou muito para que os celtas neo-convertidos ao cristianismo dissessem que a verdadeira “Rainha do céu” é Maria, a Mãe de Jesus. Assim, cada vez que o cristianismo se inseriu em uma região, assumiu a cultura e procurou traduzir as crenças que lhe eram anteriores de uma forma compatível com a fé cristã. Na América Latina, os missionários católicos encontraram diversos cultos à Terra Mãe que, pouco a pouco, foram substituídos ou encampados pelo culto à Virgem Maria. (2) O mesmo se deu em outros lugares com o culto à deusa Lua. O culto azteca à Tonantzin foi incorporado na figura e no culto à Virgem de Guadalupe. Este fenômeno é ambíguo porque, muitas vezes, se deu como uma forma de esvaziar o mito ou rito aborígine ou ancestral substituindo-o pela devoção católica dominadora. De outro lado, acabou em alguns casos, sendo expressão de inserção do cristianismo nas culturas. No caso de Guadalupe, a devoção a Maria foi pensada para substituir de forma cristã o culto a Tonantzim. Com o tempo, os índios se reapropriaram da devoção mariana e através dela conseguiram expressar sua cultura com seus valores próprios, de outro modo condenada pelos colonizadores.
2
– A Bíblia e a devoção a Maria
O Novo Testamento é uma releitura do Primeiro Testamento à luz da vida e das palavras de Jesus Cristo. Quando Lucas conta no primeiro capítulo do seu Evangelho, a anunciação do anjo a Maria e a visita de Maria a Isabel (Lc 1, 36 ss), ele tem, como pano de fundo, páginas de profetas. Se se compara o relato da anunciação em Lucas com o capítulo 3 do profeta Sofonias e o seu relato da visitação ao 2 Sam 6, chega-se a uma conclusão: Para o Evangelho, Maria é a nova figura da comunidade crente. É o símbolo do Israel pobre, fiel a Deus e, ao mesmo tempo, da humanidade nova. Maria sintetiza em sua pessoa a vocação do seu povo e dos crentes da nova aliança. Ela é em pessoa a realização plena do que os profetas antigos chamaram de “virgem, filha de Sião”, referindo-se a todo o povo fiel (por exemplo: 2 Rs 19, 21; Jr 31, 4 ss; Is 52; Sof 3, 12 ss).
Maria sintetiza a história do Israel fiel à aliança e é parábola da humanidade renovada e resgatada por Deus.
Na leitura da criação, narrada no Gênesis, podemos dizer que a mulher é a obra com a qual Deus culminou sua ação criadora. Em muitos textos bíblicos, a mulher é simplesmente figura da humanidade inteira em sua relação com Deus, como a esposa com o seu marido. O Apocalipse aproveita imagens de profetas e diz: “Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida do sol, com a lua debaixo dos pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12, 1). Por trás desta imagem, está o simbolismo de mitos antigos e apresenta uma vitória da comunidade cristã que enfrentava o martírio e as perseguições. A tradição da Igreja viu nesta figura da comunidade grávida do Messias a imagem de Maria sua mãe.
A hierarquia católica proclamou dogmas sobre Maria cujo conteúdo não têm fundamento na Bíblia. Era outro tempo e a Igreja Católica só teve um movimento de volta à Bíblia na segunda metade do século XX. De qualquer modo, é bom os evangélicos saberem que mesmo nesta cultura tão distante da Bíblia, os papas que proclamaram dogmas sobre Maria tiveram a preocupação de ligar estas doutrinas com os princípios básicos da fé bíblica. Quando, em 1854, o papa Pio IX, mesmo sem fundamento na Bíblia, proclamou como verdade de fé que todos os católicos deveriam aceitar a teoria de que Maria teria sido a única criatura que foi concebida sem pecado, o documento católico e as orações da festa de 08 de dezembro diziam claramente que isso (a concepção imaculada de Maria) teria se dado “em previsão dos méritos de Jesus Cristo em sua cruz”. A Igreja Católica ensina que Deus preservou Maria do pecado original pelos méritos antecipados da cruz de Jesus”. Ela, Maria, teria sido a primeira salva. Isso quer dizer que, com Maria, aconteceu antes, antecipou-se, a salvação que, pela cruz de Jesus, nós todos recebemos.
Do
mesmo modo, quando, em 1950, o papa Pio XII torna dogma a assunção de Maria ao
céu com corpo e alma, dizia que já ocorreu com ela o destino de todos. Nós
oramos no Credo: “Creio na ressurreição da carne”. É exatamente isso e não
um privilégio próprio, dado pela santidade dela ou por algum mérito diverso.
Neste ponto, o pensamento católico e o pensamento evangélico não se diferenciam: Maria é figura e profecia do caminho de toda a humanidade salva por Deus através de Jesus Cristo, único salvador.
3 – A fé bíblica e a devoção popular
O eixo mais fundamental da Bíblia é nos revelar que Deus tem um projeto para a humanidade: uma vida de comunhão com Ele. Esta comunhão que se chame aliança ou Reino de Deus supõe uma proximidade, uma relação de intimidade. É como um casamento. Ora, a imagem tradicional de Deus nas religiões - e infelizmente a Igreja Católica não soube superar esta cultura – é de um Deus todo-poderoso e distante das pessoas. Para se ter acesso a este tipo de Deus é sempre necessário um intermediário. É a mesma cultura que faz com que alguém do povo para ter acesso a um governador ou presidente, precise de uma espécie de advogado, ou intermediário político, ou padrinho. Quando se entende Deus assim, torna-se importantíssima à devoção a Maria e aos santos. Exatamente, por ter sido educado olhando a Deus como transcendente e distante, o povo simples do nosso continente não é diferente do povo bíblico do primeiro testamento.
Para ouvir a palavra de Deus, o povo bíblico precisava do que a Bíblia chama de “Anjo do Senhor” que não era exatamente o mesmo que a cultura popular chama de anjo (O anjo Gabriel, Rafael, etc). O “Anjo do Senhor” no Êxodo 3 ou no livro dos Juízes é uma emanação visível do Deus transcendente. É uma imagem ou expressão da presença de Deus. Em outros lugares, os textos chamam de “Glória do Senhor” o sinal visível da presença de Deus. Como no Êxodo, a nuvem que desce sobre o monte Sinai quando Deus fala (Ex 19) ou a tenda na qual o povo consulta o Senhor. Quando os israelitas acolhem e reverenciam a tenda, a arca, a nuvem ou o vento, sinais da presença divina, não é nenhum destes elementos em si que eles adoram e sim o Senhor presente através deles. Poderíamos dizer a mesma coisa a respeito da devoção mariana no catolicismo popular. Maria e outros santos da devoção popular são sinais desta presença de Deus que, através deles, se torna próximo e faz aliança com o povo. O mal disso é pensar como se, já que Deus em si mesmo não parece parceiro de aliança, uma Nossa Senhora qualquer é a sua imagem e expressão.
Uma leitura da Bíblia ao pé da letra chama isso de idolatria e lembra que Deus ordenou: “Não façam imagens de mim”. Mas, a interpretação mais comum da teologia cristã é que Deus quis falar palavras humanas, e por isso históricas: situadas em um contexto determinado e que valem para tais situações e não para outras. No mesmo livro do Êxodo no qual ele dá o mandamento de não fabricar nenhuma imagem (Cf. Ex 20), ele manda Moisés fabricar dois querubins de ouro e pô-los sobre a arca da aliança (Cf. Ex 25, 18). Também no deserto, diz ao povo para que adore uma Serpente de Bronze, ídolo cananeu (Cf. Nm 21, 8). Sem dúvida, na Bíblia, aparece claro que a única imagem verdadeira de Deus é o próprio ser humano, feito à imagem de Deus e que, em sua vida, tem como vocação, não só ser imagem, mas tornar-se verdadeiramente semelhante ao seu criador (Cf. Gn 1, 26).
Parece que há imagens que Deus rejeita porque alienam e afastam o povo do seu caminho de fé e libertação. É o caso do bezerro de ouro (Ex 32). E há outras que Ele aceita como expressão cultural. À medida que a devoção a Maria não for absolutizada e for cada vez mais referenciada ao Evangelho e a fé em Jesus Cristo, ela é válida como expressão da devoção ao rosto maternal do próprio Deus e como imagem de toda a humanidade resgatada pelo Senhor.
[1] - Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.br
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