| Eucaristia:
comunhão ou ato de exclusão? Perguntas de um monge ao papa Marcelo Barros |
|||
Caro
irmão João Paulo II,
O
mundo inteiro noticiou que no dia 17 de abril, 5ª feira santa, o senhor
divulgou a sua 14ª carta encíclica: Ecclesia de Eucharistia. Nos últimos
anos, o Vaticano publica tantos documentos que um a mais não faria muita
diferença. Mas, esta carta sobre a eucaristia em sua relação com a Igreja está
provocando muitos questionamentos e sofrimentos em grupos ecumênicos e
pessoalmente senti que represento muitos cristãos ao procurar compreendê-la e
conversar com o senhor sobre isso. Por isso, tomo a liberdade de tecer sobre ela
alguns comentários e lhe fazer algumas perguntas. Em primeiro lugar, quero
agradecer e valorizar o seu testemunho de fé e de amor ao ministério. É bom
saber como senhor interpreta a fé e a missão da Igreja. É baseado neste mesmo
amor que tentarei resumir alguns pontos sobre os quais gostaria de conversar com
o senhor:
1
– A Igreja vive da Eucaristia ou do amor solidário ao povo?
“A
Eucaristia é o próprio núcleo do mistério da Igreja” (n. 1). Isso é
verdade no plano dos sinais. Os sacramentos são sinais eficazes que contêm
aquilo que eles sinalizam, mas não deixam de ser sinais. Será que esta carta não
confunde o sinal com a realidade? Dizer que a eucaristia é o núcleo do mistério
da Igreja não é como afirmar que o eixo do amor entre duas pessoas é o
carinho corporal? O núcleo do mistério da Igreja é a eucaristia ou é a
solidariedade, tradução do termo grego ágape? Não é mais correto dizer que
a Igreja vive do amor solidário, serviço e testemunho ao Reino de Deus e isso
se expressa como sinal na eucaristia e nos outros sacramentos?
A
carta dedica um número (o 20) à relação entre a eucaristia e “a
responsabilidade pela terra presente”. Diz que, no 4º Evangelho, o relato do
lava-pés “ilustra o profundo significado do sacramento”. Lembra que Paulo
chama de “indigna” a comunhão de uma comunidade que participe da Ceia em
contexto de discórdia e de indiferença pelos pobres (Cf. 1 Cor 11).
Entretanto, só toca nesta relação entre eucaristia e justiça no final do capítulo
1, como se fosse conseqüência da eucaristia e não o seu pressuposto
fundamental. O que isso denota como visão de Igreja e da fé?
2
– A Missa, sacrifício a que Deus?
Na
carta, o senhor cita várias vezes o Concílio Vaticano II e alguns documentos
do magistério romano recente, mas a doutrina ali expressa sobre a eucaristia é
a do Concílio de Trento no século XVI, que o senhor julga ser atual e propõe
como referência dogmática para a Igreja toda (n. 9). Como o senhor está ao
par de todo o trabalho teológico que, nos últimos séculos, tem sido elaborado
sobre a eucaristia, deduzo que o senhor, simplesmente, não acha importante esta
evolução. Ao contrário, até na linguagem, recua em relação ao Vaticano II.
Fala do “santo sacrifício da Missa” e não da Ceia do Senhor, como chama os
ministros de sacerdotes e não de presbíteros.
A
teologia é clara: “A missão torna presente o sacrifício da cruz. Não o
repete, nem o multiplica. O que se repete é a celebração memorial” (n 12).
Se é assim, será que, hoje, a linguagem sacrificial ainda é a mais adequada
para expressar a verdade do memorial? Não está presa a uma cultura, presente
no Novo Testamento, ligada ao judaísmo da época e a outras religiões? Como,
hoje, falar de Deus Amor se se trata de um Pai que precisa que o Filho morra
para reconciliar-se com a humanidade? Será que a fé não é mais ampla do que
a explicação da fé em conceitos teológicos, sempre ligados a uma cultura
determinada? Por que impor a todos uma interpretação da fé como se fosse a própria
fé, principalmente quando esta forma de falar da eucaristia já não diz nada a
muitos católicos e nos divide dos irmãos de outras Igrejas que, no passado, já
foram por isso condenados? Não seria mais de acordo com a fé na eucaristia,
seguir o conselho do papa João XXIII e afirmar a fé de um modo que una os irmãos
e não nos divida?
3
– Celebração eucarística dominical e celibato
O
senhor insiste em que a eucaristia é essencial e depende do sacerdote ordenado
que a celebra. Repete que as comunidades não podem celebrá-la sem o padre e
que os cultos dominicais sem padre não substituem a eucaristia. No Brasil, são
milhares de comunidades católicas que, cada domingo, não têm padre e fazem o
culto da Palavra. O senhor sabe por que todas estas comunidades não têm padre
e por que algumas só recebem visita de um padre duas vezes por ano. É por que
o senhor não aceita abrir mão do celibato obrigatório e ordenar como presbíteros
homens casados, dignos e preparados para o ministério. E não reconhece a
validade do ministério de padres que casaram e, com alegria, aceitariam exercer
o ministério. Sem falar que, na América Latina, a Igreja Católica é a única
das Igrejas ocidentais históricas que não aceita ordenar mulheres. O que para
o senhor é mais importante: a eucaristia dominical, como o senhor ensina na encíclica,
ou manter como lei obrigatória o costume latino do celibato obrigatório?
4
– Ceia de inclusão e de amor
O
senhor liga a eucaristia à pessoa de Jesus para afirmar o seu “sacrifício”
mas não faz referência à sua vida concreta. Não lembra como ele comeu com
pecadores e com gente de má vida. Ele fez de suas refeições, sinais de inclusão
e de profecia do Reino de Deus que acolhe a todos, especialmente os mais
deserdados e excluídos. Por causa da noção de sacerdócio que a nossa Igreja
desenvolveu, o senhor repete o que já aparecia na declaração Dominus Jesus e
distingue os cristãos uns dos outros. Só reconhece como “Igrejas” as
ortodoxas e chama as Igrejas evangélicas de “comunidades eclesiais”. E proíbe
que católicos comunguem em celebrações eucarísticas destas igrejas “para não
dar aval a ambigüidades sobre algumas verdades da fé” (n. 44). O que esta noção
de Igreja tem a ver com a eclesiologia do Concilio Vaticano II? Como continuar o
caminho ecumênico com mais este recuo? Por que desconhecer e claramente
desprezar os acordos ecumênicos já feitos entre algumas Igrejas? O Documento
de Lima sobre batismo, eucaristia e ministério (1983) é ignorado. O acordo com
a Igreja Luterana sobre a justificação é praticamente passado para trás. Por
que? O que é mais importante a clareza intelectual ou a caridade e o testemunho
do amor? Será que “a clareza sobre algumas verdades da fé” é mais
importante do que a acolhida mútua e a unidade real vivida por cristãos que
pensam diferente mas celebram com grande respeito e carinho o memorial do
Senhor, neste contexto de um mundo dividido e no qual as religiões representam
forças de oposição e não de unidade?
Li
em uma revista italiana que esta carta teria sido especialmente dirigida a católicos
alemães que têm praticado a hospitalidade eucarística e a intercomunhão.
Inclusive, poucos dias antes da divulgação da sua carta, eles publicaram um
importante documento mostrando como tem sido válido este caminho deles. Como
argumento contrário à intercomunhão o senhor diz que a eucaristia só tem
sentido quando expressa a unidade já vivida. É interessante que, neste campo
do ecumenismo, o senhor insiste nisso quando não diz isso ao falar da justiça
e do compromisso com a vida no plano social. Mas, mesmo se este argumento é
verdadeiro, por que não compreender este caminho de alguns grupos como experiências
piloto que podem ser úteis à toda Igreja?
5
– “Recebemos do Senhor o que também ensinamos” (1 Cor 11)
Afinal,
com relação à Eucaristia, o que eu me comprometo com o senhor em crer e
testemunhar? O que Paulo escreveu na carta aos coríntios: que na noite em que
foi traído, Jesus ceou com os discípulos e relacionando esta refeição com a
ceia pascal repartiu pão e vinho com eles significando a entrega da sua vida, a
paixão que dali há poucas horas, iria viver. Os cristãos primitivos chamavam
a eucaristia de “repartição do pão” e certamente isso não é por acaso.
É bom lembrar isso ao povo brasileiro neste momento em que o governo federal
propõe o Fome Zero.
“Comer é um gesto
fundamental da vida. Para o povo bíblico, as refeições têm um lugar considerável.
Um elemento cultural fundamental para o israelita é o caráter relacional da
refeição. Isso aparece na bênção dos filhos reunidos em redor da mesa (Sl
128, 3). Na mesa, comendo com os três homens misteriosos que o visitam, Abraão
recebe o anúncio do nascimento de Isaac (Gn 18). É na mesa que Elcana reparte
seus bens entre as duas mulheres e Ana resolve pedir a Deus que a liberte da
esterilidade (1 Sm 1, 1- 8). É na mesa que o levita de Efraim procura
reequilibrar os laços familiares abalados pela fuga da sua mulher (Jz 19, 4-
8). Davi e Abner se reconciliam em torno de uma mesa (2 Sm 3, 20). É a partir
da realidade cotidiana do comer juntos que Deus se revela e nos diz o seu
projeto”[1]. Antes de dar a palavra da
aliança a Moisés, Deus lhe dá o alimento e exige que o tomem socialmente por
família (Ex 16 e depois Ex 19)[2].
Mesmo no Novo
Testamento, o Amém, a Testemunha fiel propõe-se a tomar uma refeição com os
fieis que escutarem sua Palavra e abrirem para ele sua porta (Apoc 2, 3 e 14,
20).
As refeições têm um
lugar importante na vida de Jesus. É na refeição que ele encontra mais
profundamente Levi, o discípulo, Marta e Maria, o fariseu Simão, Zaqueu, os
discípulos de Emaús e outros personagens do seu dia a dia. Estas refeições
tomadas com o seu grupo têm tal importância que quando faltam, duas vezes, o
Evangelho relata a queixa: “Não tinham tempo nem de comer”(Mc 3, 30 e 6,
31). E a primeira acusação que os adversários fizeram contra Jesus foi :
“Ele toma refeições com gente de vida errada” (Cf. Lc 15,2).
“Nas refeições,
Jesus se revela e revela um rosto de Deus” (Jacques Guillet[3]).
O Conselho Mundial de
Igrejas e a Comissão Fé e Constituição trabalharam anos e anos para chegar a
um consenso entre as Igrejas históricas sobre Batismo, Eucaristia e Ministério.
Conseguiram que as Igrejas assinassem o “Documento de Lima” (1983) no qual o
capítulo sobre Eucaristia começa assim: “As refeições que Jesus partilhou
durante o seu ministério terrestre, e das quais temos notícia, proclamam e
representam a proximidade do Reino: a multiplicação dos pães é disso um
sinal. Quando da sua última refeição, a comunhão do Reino foi posta em relação
com a perspectiva dos sofrimentos de Jesus. Depois de sua ressurreição, o
Senhor manifestou a sua presença e deu-se a conhecer aos seus discípulos na
repartição do pão. A eucaristia encontra-se,
assim, na linha da continuidade das refeições que Jesus tomou com os
seus e significa a participação no ato de doar a vida a serviço de todos como
Jesus fez e testemunho do Reino de
Deus”.
Talvez
o senhor estranhe que eu não me refira ao sacrifício. Trabalhando contra a
pena de morte no mundo de hoje e procurando testemunhar que Deus é Paz e dom de
vida, penso que devamos substituir esta categoria do sacrifício por um
equivalente que valorize a doação de Jesus aos seus e a fidelidade ao projeto
do Pai, a entrega de sua vida a Deus e como na cruz ele nos revelou uma nova
face de Deus. Conforme o 4º Evangelho, quando, no horto, ele pergunta aos
soldados: “- A quem procurais?” e estes lhe respondem: “- Jesus de Nazaré!”,
ele lhes responde com o NOME pelo qual Deus se revela a Moisés na sarça
ardente: “SOU EU”, ou “EU SOU”. E conforme o Evangelho, aqueles soldados
que não são especialistas em mística, caem aterrorizados diante do Nome.
Celebrar a Ceia é testemunhar um Deus Amor que dá a sua vida por todos, perdoa
a todos e não exclui ninguém da sua vida. É este o seu sacrifício. “A
nova aliança anunciada pelos profetas Ezequiel e Jeremias falam do Espírito de
Deus derramado em nossos corações, em tábuas de carne no lugar de taboas de
pedra, mas não falam em sacrifício ou sangue derramado. Veja isso em Jeremias,
31, 31 em diante e em Ezequiel 36[4].
Com
muita felicidade, o senhor escreve em sua carta: “Anunciar a morte do
Senhor « até que Ele venha » (1 Cor 11, 26) inclui, para os que
participam na Eucaristia, o compromisso de transformarem a vida, de tal forma
que esta se torne, de certo modo, toda eucarística » (n. 20). E mais tarde, cita S. Agostinho, em
uma de suas belas homilias para os neo-batizados na noite da Páscoa: “O apóstolo
diz: « vós sois corpo de Cristo e seus membros » (1 Cor 12, 27). Se
sois o corpo de Cristo e seus membros, é o vosso sacramento que está colocado
sobre a mesa do Senhor; é o vosso sacramento que recebeis » (...)
« Cristo Senhor [...] consagrou na sua mesa o sacramento da nossa paz e
unidade » (n. 40).
6.
Pergunta final
Formado
na teologia e espiritualidade do Concílio Vaticano II, reconheço o senhor como
bispo de Roma e primaz da unidade entre as Igrejas mas não como um super-bispo
ou definidor da fé das pessoas. Aceito o primado do papa como ministério
querido por Deus, mas isso não inclui a nomeação dos bispos, nem a definição
de um direito universal, ou um catecismo de doutrinas que todos os católicos do
mundo devam crer. Por que impor a todas as Igrejas um modelo único de ministérios
e uma única liturgia: a romana? Não estaria mais de acordo com a verdade da
eucaristia promover a vida e a liberdade de todos? Seria o testemunho: cremos
que, assim como as muitas espigas formam um só pão, Deus faz da diversidade
das Igrejas e da variedade das celebrações, a unidade de uma só comunhão.
Deixo
ao senhor e aos irmãos que lerem estas linhas estas perguntas e fico orando por
nossa Igreja para que seja como afirmaram, um dia, os bispos da América Latina:
“uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de
todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser
humano e de toda a humanidade” (Medellin. 5, 15 a).
O
irmão Marcelo Barros
[1]
- A. MARCHADOUR, La Pâque:
son évolution jusqu’au temps de Jésus,
in L’eucharistie dans la Bible, Cahiers Évangile, 37, p. 6- 7.
[2]
- L. MONLOUBOU, L’Ancien Testament à table, in L’Eucaristie dans
la Bible, Cahiers Évangile, p. 5ss
[3] J. GUILLET, Jésus dans la foi des premiers disciples, Desclée de Brouwer, 1995, p.
[4]
- S. LEGASSE, l’Eucharistie, nouvelle alliance, in
idem, p. 33.