A mística e a vida em abundância
Marcelo Barros e Arcelina Helena[1] ( 1 )

versão para 
imprimir

M.Paz

Neste 1o de maio, Dia Internacional dos Trabalhadores, quando no Brasil se reajusta o salário mínimo, a população do campo e da cidade reivindicam do governo o cumprimento da Constituição brasileira. Tanto em relação ao valor do salário mínimo, quanto em relação à reforma agrária efetiva.

Movimentos sociais, como a Via Campesina, o Grito dos Excluídos, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) somam-se ao Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) e aos sindicatos de trabalhadores para o ato público de lançamento da 2a Marcha Nacional pela Reforma Agrária. Dez mil sem terra, de assentamentos e acampamentos de 23 estados brasileiros partem, no dia 2 de maio, de Goiânia para Brasília.

Esta marcha pela Reforma Agrária não será religiosa, mas, nos recorda o sentido mais profundo da Páscoa, festa que, no mundo antigo, começou com um movimento de hebreus oprimidos por liberdade e para ter uma terra livre. No Brasil atual, esses movimentos que se unem na 2ª. Marcha são os que mais manifestam o rosto amoroso de Deus: esta mística, energia e força solidárias, indispensáveis para as grandes transformações.

A Constituição Federal estabelece que a terra deve cumprir uma função social. No entanto, mais de 200 mil famílias sem-terra continuam acampadas em lonas, à margem de latifúndios improdutivos. Segundo o Plano Nacional de Reforma Agrária, existem 55 mil imóveis rurais classificados como grandes propriedades improdutivas, que detêm 120 milhões de hectares. Antes da eleição, o presidente Lula prometia “uma reforma agrária digna do século XXI”. Até agora, tal promessa não se cumpriu. Ao contrário, o governo realizou cortes no orçamento previsto para a reforma agrária, de forma que serão assentadas apenas 70 mil famílias das 115 mil previstas no plano para 2005.

As lideranças da Marcha entregarão ao governo, em Brasília, documento com suas reivindicações contra a atual política econômica que eleva a taxa de juros a 19 %, inibindo a geração de emprego. O crescimento médio do Brasil, tão festejado, de acordo com o último relatório do FMI para o triênio 2003-2005, não atingirá 4 % Muito a baixo da media dos 6,6% dos países em desenvolvimento (9,1% da China, 7,9% da Argentina, 7,2% da Índia) Segundo este relatório, o Brasil ocupa o penúltimo lugar em crescimento na lista dos 22 países emergentes.

Constituição brasileira, no capítulo II, artigo 7º, prevê “salário mínimo capaz de atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e às de sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social. O Dieese – Departamento Intersindical de Estudos Sócio Econômicos - realiza mensalmente o cálculo para estabelecer este salário mínimo constitucional e necessário para uma família de dois adultos e duas crianças. No governo Lula, tal salário oscila entre 1400 e 1500 reais. Bem distante ainda dos 300 reais estabelecidos pelo governo para vigorar a partir de 1º de maio. Economias mais pobres e menores, como a Argentina e Paraguai, pagam salários mínimos ao redor de 500 reais.

Para população brasileira de classe media, moradores das cidades, como Goiânia, leitores de jornais, como O Popular, já conquistaram salários acima do mínimo e, mesmo a parcela da população que têm suas raízes no campo, aparentemente, já não dependem da reforma agrária.

As famílias que vivem com o salário mínimo não têm condições de se mobilizar para reivindicar mudanças que lhes dêem uma vida digna nem lhes sobram dinheiro para comprar jornais. Tudo que os assalariados do mínimo (na maioria, mulheres) podem fazer, eles já estão fazendo: resistirem vivos. Não sucumbir ao desespero da fome, das duras horas de trabalho, horas extras e das jornadas duplas e tripas. Porque, para sobreviver com o mínimo tudo isto é imprescindível. Resistirem vivos ao massacre do transporte coletivo de cada dia e dos serviços públicos que os humilha. Resistirem vivos à traição dos parlamentares que elegeram, acreditando nas suas promessas de vida melhor para os pobres e salário mínimo digno. Mas ao tomar posse, só se ocupam dos próprios salários. Resistindo vivos, com suas famílias, eles e elas são testemunhas da desumanidade do nosso país. Como a natureza quando mal tratada chega a ponto de saturação, assim a pobreza acaba por perder o controle de seus filhos e filhas que se prostituem, se armam, matam e morrem. Neste momento, a classe média urbana fica alerta e exige soluções.

Essas soluções, no entanto, passam forçosamente pela ação solidária dos que não precisam da terra para trabalhar nem dependem do salário mínimo para sobreviver. E’esta mística que permitirá a Páscoa do povo brasileiro. Páscoa, que significa passagem, e que precisa acontecer no nosso país para mudar a concentração de renda e de terra a fim de que “todos tenham vida e a tenham em abundância”. (Jô. 10,10)

  [1] Marcelo Barros, monge e escritor, Arcelina Helena, oblata e jornalista Ambos do Mosteiro da Anunciação de Goiás mosteirodegoias@cultura.com.br

email 
do autor

topo