|
Herança de um papa e do
papado Marcelo Barros (1) |
M.Paz |
| Diante da morte de um ente querido, a saudade e a sensação de perda não permitem que o assunto da herança seja levantado prematuramente. No caso do falecimento de um papa como João Paulo II, refletir sobre sua herança para a Igreja e para o mundo é a melhor forma de honrar sua memória. |
![]() |
| Em 60 anos de vida, já acompanhei pelos meios de comunicação a morte de quatro papas. |
P
138-22 - Tesoura tipo bigorna, indicada para galhos secos ou duros,
plásticos ou borrachas. Os cabos são de aço estampado com pintura epoxy por
eletrodeposição |
Quando, em 1958, morreu Pio XII, a rádio dizia que multidões se reuniam em todas as Igrejas do mundo para chorar, como quem tivesse perdido o pai.
Quem, na infância, se habituara com a figura elegante e principesca de Pio XII, estranhou João XXIII, gorducho e engraçado. Ele quebrava protocolos e se apresentava como um homem comum, igual a qualquer ser humano. Mais tarde, em meios ateus, apareceu sobre ele uma biografia com o título: “Um cristão no Vaticano”. Em junho de 1963, o mundo acompanhou por três dias, a agonia do “papa bom”. Ele convocara o Concílio Vaticano II para renovar a Igreja e colocá-la em diálogo com a humanidade. Emociono-me cada vez que me lembro de ouvir que João XXIII ofereceu sua vida pela unidade das Igrejas. Paulo VI retomou o estilo de Pio XII com as opções de João XXIII. Não tinha a rigidez do primeiro nem a coragem do segundo.
Teve um longo pontificado. Em 1978, quando Paulo VI morreu, ele tinha contribuído para que o povo não o visse mais como “dono absoluto” da Igreja. Ele tinha continuado o Concílio que tentou unir a doutrina católica vigente com uma concepção de Igreja mais de acordo com o cristianismo dos primeiros séculos. Segundo esta visão, a Igreja Católica não é uma multinacional religiosa com sede em Roma e sim a comunhão de Igrejas locais, cada qual com seu rosto próprio e certa autonomia doutrinal, litúrgica e disciplinar. Cada diocese é uma Igreja própria e todas se unem na mesma fé e na missão de ser, no mundo, testemunhas de Deus, no serviço da paz, justiça e defesa da criação. Na prática, forças e tendências conservadoras tentaram frear as mudanças. Documentos oficiais deram passos na direção da novidade, mas tiveram de aprovar medidas para garantir a continuidade da tradição. Em agosto de 1978, os cardeais votaram em João Paulo I e, dois meses depois, em João Paulo II.
Em quase 500 anos, ele foi o primeiro papa não italiano, um cardeal vindo da parte do mundo, então, dominada pelo comunismo. Esperava-se que fosse um homem de diálogo e com capacidade de inserir a Igreja em um mundo que não era mais uma civilização de costumes cristãos e no qual padres e bispos mandavam.
Vinte e sete anos depois, não é fácil avaliar o longo pontificado de João Paulo II. Sem dúvida, Karol Wojtyla inovou o modo de ser papa, ao inaugurar um ministério itinerante. O mundo inteiro admirou a figura espiritual do papa peregrino que percorreu todos os continentes. Em meio a um mundo de guerras, pregou a paz; em países ricos, insistiu no diálogo entre as nações; condenou regimes ditatoriais e ensinou a todos o direito dos pobres, dos índios, dos negros e a sacralidade de todo ser humano.
Nenhum dos papas que o precederam escreveu tanto. Dizem que seus escritos chegam a 100.000 páginas e ocupam 70 tomos. Nenhum papa viajou tanto e falou tantas línguas diferentes quanto ele. É difícil distinguir o que se deve à personalidade forte e carismática deste papa e os elementos decorrentes da estrutura do papado. João Paulo II encantou o mundo com sua personalidade mediática. Desde o começo do seu ministério, foi capaz de gestos corajosos e proféticos. Foram suas as iniciativas de diálogo com judeus, com muçulmanos, com o Dalai Lama e com outros religiosos que, em cada viagem, ele visitava e, por duas vezes, convidou a se reunir com ele em Assis para orar pela paz. Criticou os totalitarismos políticos, seja o comunismo, seja o capitalismo selvagem que, hoje, impera no mundo. De forma pessoal, tomou a iniciativa de pedir perdão a negros e índios pela parte de culpa que a Igreja teve na escravidão e na opressão que sofrem seus descendentes. Foram dele as tentativas de uma reforma espiritual da Igreja, tarefa na qual parece não ter conseguido muito êxito. Talvez porque fortaleceu uma organização da Igreja Católica como uma diocese única na qual ele era o bispo com jurisdição universal. Os bispos locais deveriam se comportar como meros auxiliares do verdadeiro bispo que era o papa. Dentro deste modelo medieval de Igreja, era difícil fazer reformas que supõem outra forma de organização eclesial.
Com o Jubileu de 2000, João Paulo II queria superar certa esclerose burocrática que percebia na Igreja e propôs que se voltasse com novo vigor a uma “Igreja de Comunhão”. Afirmou que sem uma reforma espiritual e estrutural da Igreja romana não se poderiam recolher seriamente os desafios do novo século. Normalmente, isso mexeria com a centralização da instituição romana e deveria evoluir na direção da efetiva colegialidade dos bispos e descentralização democrática. Em 1995, a encíclica Ut unum sint encorajava a busca de uma nova forma de exercício do primado do papa. Na prática, a estrutura da Cúria não permitiu que nada disso resultasse em alguma mudança concreta.
João Paulo II, vindo da experiência da Igreja em país comunista, acabou reforçando na organização eclesiástica um forte absolutismo doutrinário e disciplinar. Insistiu no extremo dogmatismo da moral sexual, assinou a condenação da Teologia da Libertação, negou à mulher participação plena nos ministérios eclesiais e tentou restaurar o discurso religioso no debate público da sociedade pós-moderna.
Nestes dias, os cardeais se reúnem em Roma para analisar a situação atual da Igreja Católica e enumerar certos critérios a partir dos quais deverá ser escolhido o próximo papa. A profunda santidade pessoal de João Paulo II indica para a Igreja Católica o compromisso de voltar à simplicidade do Evangelho e unir-se às outras Igrejas no testemunho do amor divino para com a humanidade. Provavelmente, do mundo inteiro, virão pedidos para que se valorize uma maior autonomia das Igrejas locais, se reencontrem caminhos de mais profundo diálogo da Igreja com o mundo atual, com as outras Igrejas cristãs e com as demais religiões. Desde a década de 60, muitos fiéis e bispos ilustres como Dom Hélder Câmara, propõem que o papa renuncie ao cargo de chefe de Estado, entregue o Vaticano para ser um Museu da Humanidade e assuma plenamente o cargo de bispo da Igreja local de Roma, colocando o primado petrino a serviço da unidade das Igrejas e da paz mundial.
Certamente, vale hoje para toda a Igreja a recomendação que
os bispos latino-americanos fizeram em 1968, na sua 2a assembléia
geral em Medellín, Colômbia: “Que se apresente cada vez mais nítido o rosto de
uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder
temporal e corajosamente comprometida na libertação de todo o ser humano e de
toda a humanidade” (Medellin. 5, 15 a)
| [1] - Marcelo Barros é monge beneditino e escritor. Tem 27 livros publicados, dos quais o mais recente é o italiano “IL Sapore della Liberta, Ed. Meridiana, 2005. | topo |