Cenáculo de Resistência no caminho de Emaús
Marcelo Barros
M.Paz

“Cenáculos de resistência” é o título de um livro que encontrei na Itália e logo me fez lembrar do nosso grupo de Emaús. De fato, este grupo nasceu a partir da resistência profética à ditadura brasileira e com a missão de ajudar as Igrejas a serem cenáculos de ousadia profética no mundo cada vez mais excludente e desumano. 

Desde os primeiros anos de sua existência, aqui e ali, ouvia alusões ao grupo de Correias, mas não pensava que, um dia, receberia a graça e a honra de ser um dos seus membros. Agora, o grupo celebra seus 30 anos de vida e eu, que dele participo desde 1984, agradeço a Deus por estes vinte anos de caminhada comum.

Talvez alguém que conheça o grupo a partir de fora ache que, às vezes, pode parecer mais com a Torre de Babel do que com o cenáculo. Entretanto, é exatamente esta a genialidade do grupo: reunir as pessoas mais diversas, de várias Igrejas e uma ou outra pessoa, sem relação estrutural com nenhuma religião. 

São homens e mulheres de culturas díspares, pessoas diferentes, tanto em sua atividade profissional, como em sua inserção no mundo. Emaús consegue fazer deste conjunto heterogêneo um grupo de pessoas que se querem bem e não só se respeitam profundamente, como até se complementam e se ajudam na sua diversidade.

Quando o grupo vivia a idade da adolescência, teve sua crise de identidade. Aos 18 anos, experimentou um tempo de diáspora e parecia que não teria mais futuro. Entretanto, mais do que nunca, no início da década de 90, precisávamos de um espaço de diálogo e apoio mútuo. A retomada de um caminho comum se deu no Mosteiro da Anunciação do Senhor, em Goiás, em novembro de 1994. Ali, foi escolhido como nome e programa do grupo a caminhada dos discípulos com o Senhor Ressuscitado em Emaús. 

E os irmãos e irmãs clarearam mais ainda que a natureza deste “Emaús” não seria a de um grupo de trabalho, mas a de uma comunidade de diálogo e de apoio às diversas atividades de cada um/uma.

Buscando ler o que Deus nos diz através da realidade, podemos dizer que, sem dúvida, esta nova etapa do caminho que se iniciou em um Mosteiro de vocação popular e macro-ecumênica deu ao grupo o caráter de uma espécie de uma espécie de “profecia monástica”, um Mosteiro itinerante, em diáspora, constituído de forma nova, absolutamente ecumênica e como indicação ou parábola de uma verdadeira refundação livre e audaciosa.  

Para muitos de nós que nos reunimos duas vezes ao ano, mas que mesmo na diáspora, estamos sempre nos comunicando e nos sentindo em comunhão, este grupo é mais do que apenas uma instância de reflexão. É mesmo como uma espécie de “congregação de amizade e de apoio mútuo no caminho da missão”, em profundo respeito ao estilo e opções de vida de cada um/uma, mas, ao mesmo tempo, na certeza de como juntos podemos construir algo novo, belo e, como dizia St Exupéry, difícil.

O grupo tem crescido e, ao mesmo tempo, fortalecido uma identidade comum. É impressionante como os membros novos que têm chegado se incorporam de forma que parecem antigos e a confiança se espalha como forma de ser nos nossos diálogos e buscas comuns.

Para mim que participo de mil coisas e me sinto ligado a tantas iniciativas, o grupo de Emaús significa realmente uma família de referência. Sinto-me co-responsável por cada um/uma e, cada vez que temos marcado um encontro, a primeira sensação é a da alegria de nos encontrar e de, como crente, testemunhar a ação maravilhosa do Espírito em cada um/uma. Sinto-me muito enriquecido pelas reflexões sobre a realidade e sobre temas teológicos que nem seria capaz de desenvolver sozinho. 

Entretanto, o que mais me alegra no grupo é perceber a comunhão de vida e solidariedade que formamos entre nós. Sofremos quando alguém falta e nos alegramos quando cada um/uma chega. Podemos mesmo distinguir a contribuição única e insubstituível de cada companheiro/a. Nos momentos difíceis da vida, aos quais ninguém escapa, penso que cada um dos irmãos/ãs pode quase vislumbrar o rosto do outro/a companheiro/a ao seu lado para lhe dar apoio e conforto. 

Trabalhando no Ecumenismo, aplico ao nosso grupo, o que, em 1969, Thomas Merton disse na conferência inter-religiosa entre monges cristãos e budistas em Calcutá: “O nível mais profundo da comunicação não é a comunicação, mas a comunhão. Ela é sem palavras. Ela está além das palavras, além dos discursos, além dos conceitos. Neste grupo, não estamos descobrindo uma unidade nova. Descobrimos uma unidade antiga. Queridos irmãos e irmãs, nós já somos Um. Mas imaginamos não ser. O que temos de reencontrar é nossa unidade original. Apenas, temos de ser o que já somos”[1]. 
 

 ilustração de Pulika topo