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Cinema Ambiental toma conta de Goiás Marcelo Barros[1] |
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Na Cidade de Goiás se encerra o 4o
Festival Internacional de Cinema e Vídeo
Ambiental
“Você sabe onde fica Goiás?”, pergunta a canção regional que não fala do Estado, mas da Cidade de Goiás, antiga capital, a 140 Km de Goiânia. Pequena e bucólica, Goiás tem 30 mil habitantes que crescem em um vale entre montanhas, como no regaço amoroso da Serra Dourada. Entre as ruas do centro, serpenteia o rio Vermelho, passando ao lado do quintal da Casa de Cora, onde vivia e faleceu a poetiza. Nos últimos anos, o Vermelho diminuiu bastante seu volume d’água. Muitos atribuem o fato à destruição das matas ciliares. Outros imaginam que, talvez, o rio esteja minguando, de tristeza pelo que, em suas margens, sofreram os índios Goyá, massacrados por Anhangüera e seus bandeirantes. Em 2001, a ONU proclamou a cidade, patrimônio da humanidade.
Desde 1999, Goiás é sede do único Festival Internacional de Cinema Ambiental da América Latina. Como nos outros anos, promovido pelo governo do estado, o 4o FICA aconteceu nesta primeira semana de junho e encerrou-se no domingo 09. A cidade, que desde a década de 70 nem conta com um cinema, viu ser montada uma tenda com ar condicionado e os mais modernos equipamentos de projeção, exibindo gratuitamente para o povo os filmes em competição e outros. Nestes dias, o velho Teatro São Joaquim voltou a ser cinema. Além disso, nas duas praças principais da cidade, projetaram-se filmes para milhares de pessoas que, dificilmente, têm outra oportunidade de ver cinema propriamente dito. O festival contou com 429 filmes de 63 países.
O presidente deste 4o FICA foi o veterano cineasta Nelson Pereira dos Santos e a homenageada foi a atriz Glória Pires. Durante os dias do festival, a cidade recebeu mais de 10 mil visitantes e todos puderam ver, gratuitamente, apresentação de artistas goianos e cantores de renome como Orlando Moraes e, para encerrar, o grande show de Milton Nascimento que reuniu, na Praça do Chafariz, mais de 30 mil pessoas.
A cerimônia de premiação, ocorrida na Tenda do Cinema, à tarde do domingo, homenageou a atriz Glória Pires que recebeu um troféu das mãos do diretor Fábio Barreto que, há 20 anos, a dirigiu, nesta região de Goiás, no filme Índia, a Filha do Sol. O público lotou a sala com capacidade para mil pessoas. E a cerimônia foi marcada por certo amadorismo e confusões. Mas, apesar de tudo, o público vibrou.
O FICA distribuiu, ao todo, 267 mil reais em prêmios. Neste ano, produções estrangeiras levaram a maioria dos troféus. A exceção ficou com o paraibano A Canga e dois curta-metragens de autores goianos. O grande vencedor foi justamente o último filme exibido na maratona dos quatro dias: o longa-metragem chinês Hersdman, sobre uma família de imigrantes. O curta-metragem paraibano A Canga, além do troféu da categoria, ganhou também o Prêmio Imprensa. Outra obra duplamente premiada foi o espanhol Gaudi na favela (premiado pelo júri popular e pelo premio de aquisição da TV Cultura).
A maioria dos filmes premiados adverte para os riscos da destruição do meio ambiente e denuncia a realidade em que vivemos. Barrados e Condenados, co-produção da Universidade Católica de Goiás, apresenta a situação de uma população ribeirinha depois da construção de uma hidrelétrica. O canadense Afternath (prêmio da Unesco de melhor obra humanística) denuncia as conseqüências das guerras, que mesmo depois de terminadas, deixam como herança bombas abandonadas ou poluição química. O paraibano A Canga, prêmio de melhor curta, registra a tragédia de uma família num campo desolado do sertão nordestino. O sueco Tong Tana, melhor longa, é quase o testamento de uma tribo nômade de Bornéu, ameaçada com a destruição das florestas pelas madeireiras e monoculturas. Um dos poucos premiados nos quais o ser humano não é protagonista foi o media metragem britânico Ape Hunters , sobre a dizimação dos gorilas na América Central. Entre os ganhadores, dois apostam mais em soluções do que em denúncias. É o caso da animação goiana Alternativas, sobre formas menos poluentes de obtenção de energia. A série de TV Indonésia, produção da National Geographic, aponta as formas sustentáveis, encontradas por comunidades costeiras, na exploração da vida marinha. A seguir, a lista dos vencedores da Mostra oficial:
Melhor filme: - Hersdman, de Chen Jian Jun (China).
Melhor curta-metragem: A Canga, Marcus Vilar (Brasil).
Melhor longa-metragem: Tong-Tana – Paradise Lost, de Jan Roed, Erik Pauser, Bjork Cederberg (Suécia).
Série de TV: Indonésia:Beyound the Reef-Biaf, direção de Robert Chapell (Singapura).
Melhores produções goianas: Barrados e Condenados, de Adrian Cowell (Brasil/ Inglaterra) e Alternativas, de Dustan Oeven (Brasil).
Prêmio especial: Afternath: The Remnants of War, de Daniel Sekulich (Canadá).
Troféu Imprensa: A Canga, de Marcus Vilar (Brasil)
Prêmio especial do júri: Gaudi na Favela, de Sérgio Oksman (Espanha).
Prêmio TV Cultura/ Natura: Gaudi na Favela, de Sérgio Oksman (Espanha).
Prêmio Unesco como melhor obra humanística: Afternath: The Remnants of War, de Daniel Sekulich (Canadá).
O festival acabou, as luzes se apagaram e a cidade retomou sua cotidiana rotina. Continua o desafio de ajudar as pessoas a verem que o mais importante patrimônio da humanidade é o ser humano e não os prédios antigos. E que o Cinema Ambiental é importante porque revela um olhar contemplativo e amoroso sobre o universo. Mas, o mais importante mesmo é ver este mundo belo e plural ser assumido como um conjunto unidiverso, ao qual pertencemos, a tal ponto que cortar uma árvore nos fere como amputar uma parte do nosso corpo. Para isso, ressoa ainda pelos ares o vozeirão único do Milton Nascimento, seguido pelo canto de trinta mil concelebrantes: “Afagar a terra, conhecer os desejos da terra...”
[1] - Marcelo Barros, monge beneditino, autor de 25 livros, dos quais “O Espírito vem pelas Águas”(A crise mundial da Água e a Espiritualidade Ecumênica), Ed. CEBI- Rede. Email: mostecum@cultura.com.br