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Ajudar
o dia a clarear A missão do Conselho de Igrejas dos EUA em relação a Cuba Marcelo Barros |
Quero,
antes de tudo, agradecer ao Conselho Ecumênico de Igrejas dos Estados Unidos e
ao Conselho de Igrejas de Cuba a honra de ter sido convidado para este
encontro-consulta-diálogo entre norte-americanos e cubanos, todos de Igrejas
evangélicos, sendo eu aqui, o único de Igreja Católica e o único brasileiro.
Sinto-me honrado em representar aqui o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs no Brasil, o CONIC, cujo secretário-geral, Rev. Ervino Schmidt me enviou uma carta me pedindo que o representasse aqui. Trago também aqui a comunhão e a solidariedade do Padre Dr. Diego Irarrazaval, presidente da Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo (ASETT) e da Comissão Teológica Latino-americana, da qual sou membro.
Como católico, não posso deixar de lamentar a ausência notória de qualquer representante da Igreja Católica de Cuba, seja nesta consulta, seja na acolhida nestes dias de Sua Santidade, Bartolomeu I, patriarca ecumênico e dos metropolitas latino-americanos da Igreja Ortodoxa Grega que estão aqui em Cuba para a consagração da Catedral Ortodoxa de Havana. Não compreendo como o arcebispo de Havana ou um representante credenciado seu não perceba como missão prioritária o testemunho da unidade cristã e do diálogo a serviço da sociedade e deste país tão duramente golpeado pelo bloqueio econômico que é um ato de guerra permanente e desumano com este povo.
Esta sensação de dor pela omissão dos representantes da minha Igreja aqui se atenua ao constatar a solidariedade dos pastores evangélicos de tantas Igrejas norte-americanas com as Igrejas e o povo de Cuba. O próprio fato de que o tema principal desta consulta é o “acompanhamento pastoral” já diz muito. Significa que as Igrejas dos Estados Unidos se sentem responsáveis como irmãs que devem zelar, cuidar das outras Igrejas, especialmente das Igrejas e do povo de Cuba. De fato, nenhuma Igreja existe em função de si mesma e só tem sentido à medida que se considera simples servidora do povo. O acompanhamento pastoral não tem em vista chamar mais fiéis para a nossa confissão ou simplesmente cuidar da formação eclesiástica dos membros da comunidade e sim como aprimorar o cuidado da Igreja com o povo de Deus que vai além de suas fronteiras e é especialmente constituído pelos empobrecidos e marginalizados.
Este acompanhamento pastoral aberto ao mundo, com significado social e conseqüência política é urgente por vários motivos. Para ser breve, posso recordar dois:
1 – a dívida histórica de nossas Igrejas com relação aos povos latino-americanos e caribenhos.
2 – a conjuntura internacional que vivemos hoje.
1. Em relação ao passado
O fato do continente americano se dizer de cultura cristã não deixa de ser uma interpelação forte às nossas Igrejas. Qual o resultado dos 500 anos de inserção das Igrejas neste continente? A escravidão e a miséria dos índios, dos negros e de milhões de pessoas excluídas da sociedade dominante?
Dom Leônidas Proano, bispo, profeta dos índios no Equador, dizia: "De fato, em Riobamba, dois terços da população é indígena. Os indígenas viviam mais completa miséria, discriminados e marginalizados pela sociedade e inclusive pela Igreja Católica. Em Riobamba, esta era dona de grandes extensões de terra, herdadas do tempo colonial”. No leito, algumas horas antes de falecer, o bispo Proaño expressou uma verdade terrível: “Há um pensamento que me persegue: a de que a igreja é responsável pela opressão dos índios. Que dor, meu Deus, que dor! Este peso dos séculos caiu sobre mim”.
Quantos bispos e pastores pensam assim e sentem esta dor. Quantos se perguntam como o povo norte-americano pode ser tão simpático e fraternal com um governo tão desumano? Como as Igrejas norte-americanas reagem ao fato de que o governo do seu país, só durante o século XX, invadiu ou organizou intervenções militares no continente latino-americano e no Caribe, 202 vezes? Isso nada tem a ver com a fé e a missão dos pastores cristãos? Se, hoje, vocês estão aqui é porque estão convencidos de que uma coisa tem a ver com a outra.
Vocês sabem que Cuba é para toda a América Latina um farol de esperança, uma profecia de luz e de liberdade teimosa. É essencial que toda pessoa comprometida com o testemunho do reino de Deus seja clara quanto ao apoio ao projeto socialista de uma sociedade mais justa e igualitária. Sei que o presidente do Conselho de Igrejas de Cuba sofreu pressões por parte de pastores da Igreja Católica para, do mesmo modo como está atuando em favor dos prisioneiros cubanos em Miami também visite e se solidarize com os prisioneiros dissidentes aqui em Havana. Certamente, os pastores dos Estados Unidos e de Cuba compreendem que as duas situações são muito diversas e não podem ser confundidas. É claro que temos de ser humanos com todos. Podemos visitar presos, independentemente de qualquer apoio à causa desses prisioneiros. Mas, é importante clarear que os companheiros que foram presos em Miami o foram por defender a liberdade do seu povo, enquanto os dissidentes de Cuba aqui estão presos por defenderem interesses privados, seus e dos que há séculos nos oprimem. Misturar as duas coisas ou achar que se equivalem seria negar a verdade e ofender o Evangelho.
2.
Em relação à conjuntura atual
O Conselho de Igrejas dos Estados Unidos têm a nova conjuntura de lidar com um presidente que se diz evangélico e pretende apoiar-se na Bíblia para prosseguir sua política imperialista de conquistas e de genocídio contra os povos pobres do mundo.
Pode ser que o Império tenha pés de barro como diz o Apocalipse de João, mas suas armas são mortíferas e seu poder é terrível. Os filhos da liberdade vivem o amanhecer de um dia novo e convivem com muita fragilidade. Independentemente de qualquer limitação que todo sistema contenha, as Igrejas precisam reconhecer que o projeto social e político de Cuba é mais próximo ao reino de Deus do que o de todas as nossas sociedades capitalistas. Há quem pense que Bush não se conformará enquanto não criar as condições propícias para mais uma invasão e intervenção militar em nosso continente. Certamente seus assessores lhe farão ver que isso não é tão simples e sairia caro para todo o povo norte-americano e seus filhos já tão explorados. Mas, o fanatismo pode querer ter a última palavra. Precisamos impedir esta tragédia pela raiz. As Igrejas podem unir-se e seus pastores juntos deslegitimar qualquer ato do governo americano contra o governo e o povo deste país, seja o bloqueio assassino, seja esta onda paranóica, doentia, de ficar escolhendo a próxima invasão.
O que vocês garantirem de apoio e solidariedade às Igrejas e ao povo de Cuba, será a melhor ajuda que estarão dando ao Brasil e a toda a América Latina. Muito obrigado.
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Queridos
irmãos e irmãs,
Estou voltando de Cuba e de uma passagem rápida na Argentina. Em Cuba, o
Conselho Ecumênico de Igrejas dos Estados Unidos aceitou a sugestão do
Conselho de Igrejas para fazerem durante três ou quatro dias em Havana um
encontro-consulta entre evangélicos dos EUA e de Cuba sobre como podem se
apoiar melhor e cumprirem juntos a missão cristã. E os dois Conselhos, não
sei por que, me convidaram para ser presente a esta consulta.
Eram uns 28 norte-americanos, a maioria, pastores/as e alguns teólogos. E
uns 35 de Igrejas de Cuba.O encontro se deu nos mesmos dias em que o país era
visitado pelo patriarca ecumênico Bartolomeu I. E poucos dias antes do Encontro
continental contra a ALCA. O clima foi bom e fraternal. Reparto com vocês o que
falei no encontro no único momento em que me deram a palavra.
Fora disso, assim que puder, lhes contarei minha impressão destes dias naquela
ilha tão bonita e com aquele povo tão querido e tão parecido conosco,
brasileiros.
O governo Lula se não fosse por outras coisas boas, já valeria por colocar em
Cuba um embaixador bom como Tilden Santiago, amigo de todos nós e que me
recebeu como se eu fosse uma pessoa muito importante. Bom, sou amigo dele
e fiquei feliz de ver a boa missão que ele cumpre ali. Um abraço a todos.
O irmão
Marcelo
Barros
| (*) Marcelo Barros, monge beneditino, autor de 26 livros, dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas" (A crise mundial da Água e a Espiritualidade Ecumênica) Ed. CEBI- Rede. Fax: 062- 3721135. Email: mostecum@cultura.com.br |