CARTA AO ABADE-PRESIDENTE
DA NOSSA CONGREGAÇÃO DE SUBIACO
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Goiás, 18 de julho de 2004
Caríssimo Abade Presidente,
Dom Thierry Portevin, 

Espero que o senhor esteja bem de saúde e em paz. Escrevo-lhe como simples monge e irmão, sem nenhuma outra autoridade do que a de amar a congregação e de me sentir co-responsável do caminho comum. Sou membro da comissão preparatória do Capítulo e fui eleito pela província francesa como um de seus representantes no capítulo, mas escrevo esta carta a título pessoal e por iniciativa própria, na confiança do diálogo com o senhor. 

1 – A nossa Congregação, o Capítulo Geral e o mundo 

Antes de transferir a minha estabilidade ao mosteiro de Tournay/ Goiás e ser acolhido por nossa congregazione (dos monges beneditinos de Subiaco), fui monge em Olinda (mosteiro da Congregação Beneditina Brasileira). Participei como representante dos monges em dois capítulos gerais da congregação brasileira e fui membro da comissão de revisão da Constituição daquela congregação. Nestes últimos anos, tenho acompanhado como assessor e conselheiro a alguns capítulos  gerais e também continentais (latino-americanos) de congregações como as irmãs beneditinas guadalupanas do México, a das irmãs da Assunção, dos oblatos de Maria Imaculada e também da Congregação das irmãs de Jesus Crucificado. Fui também conselheiro de um dos bispos brasileiros na 4° conferência do episcopado latinoamericano em Santo Domingo (1992).

Na nossa Congregação, tenho participado dos capítulos gerais de 1988, como convidado do abade presidente Dom Dennis Huerre e no capítulo de 1996, como representante da província francesa, da qual amo a simplicidade e a busca de evangelicidade. Cada vez mais, creio que o que caracteriza a mensagem de Jesus e sua revelação de Deus como Abbá de Amor é a procura do rosto de Deus no outro, principalmente no diferente. Penso que, no mundo atual, esta dimensão da “alteridade” seria importante para fazer com que nossos mosteiros se tornem mais profundamente escolas vivas do serviço do Senhor. 

Com sofrimento, me sinto constrangido a dizer que, de todos os encontros de religiosos dos quais participo, os capítulos de monges e especificamente os de nossa congregação são os que mais manifestam uma forte tendência de auto-centração, fechamento na própria congregação e nos mosteiros como um mundo a parte. Seja porque cada mosteiro é autônomo, seja por uma visão de vida monástica retirada do mundo, o fato é que, como percebo, se nossos capítulos e encontros monásticos acontecessem no planeta Marte ou na Lua, seriam exatamente os mesmos.

O mundo está ferido por dezenas de guerras fratricidas. As nações ricas organizam a economia dita “global” de uma forma que, em três décadas, a pobreza do sul do mundo triplicou. Cada dia, mais de um bilhão de seres humanos não tem o suficiente para comer nem água potável limpa para viver. E as agressões à natureza são de tal órdem que pesquisadores sérios sustentam que, se o caminho da humanidade continua igual, de hoje a poucas décadas, o planeta Terra não terá mais condições de vida. Tudo isso acontece não por uma fatalidade da vida, mas como conseqüência de uma organização do mundo, no qual o cristianismo e mesmo os mosteiros beneditinos, que estão na origem desta civilização ocidental,  têm grande responsabilidade. Entretanto, em tal situação, os monges beneditinos se encontram em um capítulo geral que reúne irmãos vindos de todos os continentes do mundo, para discutir se um mosteiro que antes era abadia pode continuar com este título de honra mesmo se não tem mais o número suficiente de monges exigido pelas Constituições para tal, ou como adaptar as constituições à realidade atual dos mosteiros. 

Gostei muito de uma conferência dada pelo abade Bruno Marinni (do Mosteiro de Praglia, Itália) no Congresso organizado pela Conferência italiana dos Superiores Beneditinos (abril de 2003). Ele falou sobre “A comunicação da comunidade monástica com as outras comunidades e entre as congregações monásticas”. Ele falava de certa tendência da cultura ocidental tardo-moderna para a afirmação e exaltação da dimensão individual quase “privatizada” dos vários sujeitos sociais. “Esta atmosfera cultural, obviamente, respira-se também nos nossos ambientes monásticos”.

Para dar um único exemplo: sei das dificuldades que os superiores da congregação tiveram para compreender e tornar que seja possível a proposta que o senhor havia feito de criar um “Fundo Internacional de Solidariedade” entre os mosteiros da congregação. Penso que a ajuda econômica é sempre um risco e, muitas vezes na história, foi e ainda é hoje instrumento de colonização e dependência. Nas Igrejas do sul do mundo e também nos mosteiros pobres, a facilidade de receber ajuda econômica das organizações do norte, pode fazer com que se construam belos edifícios e isso ajude a comunidade a distanciar-se dos seus vizinhos mais pobres e da solidariedade evangélica que consiste em encarnação e a comunhão da vida e não apenas a esmola. Mas, esta tentação, da qual o meu próprio mosteiro de Goiás não é isento, não deveria desviar uma congregação como a nossa do seu objetivo principal que seria a comunhão de vida e a partilha como parábola do reino de Deus. Este Fundo poderia fortificar um caminho de comunhão não em um sentido único, mas recíproco. Além de ser uma pedagogia concreta de alteridade, este fundo poderia ser destinado concretamente, não a construir edifícios ou a tornar os mosteiros do sul mais semelhantes aos mosteiros europeus e sim para possibilitar nas comunidades um fundo de intercâmbio monástico e principalmente para nos ajudar a que, neste mundo de guerras e violências até inter-religiosas, cada mosteiro possa ser, em seu lugar, um ponto de referência de educação concreta pela paz e pelo diálogo entre as Igrejas cristãs, como também entre as culturas e as religiões. Se eu pudesse, diria aos meus irmaos dos mosteiros europeus e norte-americanos, o que dizia Dom Hélder Câmara, bispo profeta latino-americano que, por oito anos, foi meu mestre espiritual: “Ninguém é tão rico que não tenha qualquer coisa a receber e ninguém é tão pobre que não tenha algo a dar”.  

Compreendo que esta auto-centração da congregação e dos mosteiros, em alguns lugares ainda entendida como expressao de uma espiritualidade na linha da ruptura com o mundo, seja fruto de uma longa história. Os capítulos manifestam a realidade da vida cotidiana da imensa maioria dos mosteiros. Sei que não se pode mudar isso repentinamente ou de forma artificial, mas me pergunto se não podemos ajudar os irmãos a levar mais a sério as perguntas feitas pela comissão preparatória ao Capítulo: “O que os monges e mosteiros podem contribuir com o mundo atual e o que devem receber deste mundo?”. É preciso que estas questões nao sejam não apenas um tema conceitual a mais e sim um lugar teológico para todo o capítulo.

Superar esta limitação de uma cultura monástica auto-centrada é importante para responder corretamente ao que os nossos mosteiros podem contribuir com o mundo, mas também para que nossas comunidades adquiram vida nova e os monges possam ser homens do hoje de Deus e possam ser mais integradamente beneditinos e verdadeiros africanos, latino-americanos ou mesmo europeus desta Europa nova. Se o próximo Capítulo puder ser expressão desta internacionalidade e diversidade cultural da congregação, seria um sinal de diálogo e reconciliação com esta humanidade que Deus ama em seus diversos continentes e quer que seja plural e diversificada. 

2 – A oração litúrgica no Capítulo 

Para nós, monges, tanto nos mosteiros como em encontros entre nós, a liturgia é o lugar onde mais se manifesta este ambiente que pode ser aberto ou pode ser fechado do qual falávamos. A liturgia pode criar um clima de sensibilidade onde se viva esta comunhão universal a partir da diversidade.

É verdade que a liturgia romana, que na época do Concílio Vaticano II prometia abrir-se às outras culturas (Cf. Sacrossantum Concilium, n. 39 e 40), tem sofrido um rígido controle romano e os espaços de liberdade atualmente são inexistentes. Também é verdade que a maioria dos monges da congregação, formados na rigidez dos cânones romanos, não sentem necessidade de nenhuma mudança e nem seriam favoráveis a experiências litúrgicas. O Capítulo acontece em um mosteiro italiano e os superiores e delegados que vêm ao Capítulo esperam uma liturgia clássica e sem novidades. Não penso de sugerir que no capítulo, cada continente tenha um dia para coordenar e fazer a liturgia como expressão da vida e do caminho espiritual na sua região (alguns capítulos de outras congregações e ordens fazem assim). Na nossa congregação, isso não seria real. Não mudaria nada. Proponho que as preces litânicas de cada dia do capítulo sejam confiadas a cada continente ou a diversos países. Sugiro ainda que os irmãos encarregados de preparar os livros dos ofícios litúrgicos possam integrar alguns hinos de outros continentes. Seria bom ainda escolher dois dias e tomar os formulários da missa, uma vez, “pela paz do mundo” e outra vez “pela unidade das Igrejas”. 

Espero que estas simples e pobres sugestões ajudem o capítulo a criar um clima de solidariedade universal e de sensibilidade aos sofrimentos dos homens e mulheres de hoje e nos ajudem também a dialogar sobre nossos problemas como homens de hoje e, por baixo de nossas túnicas monásticas, nos sintamos mais pessoas humanas pobres e carentes, necessitadas de ser iluminadas pelo Espírito do Senhor Jesus. 

Muito obrigado por ter me escutado e peço as suas orações para mim e minha comunidade. Um abraço brasileiro do 

                                         irmão  Marcelo Barros 

 

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