Celebrar os defuntos para viver melhor

 Marcelo Barros[1]

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M.Paz

 
As culturas negras e indígenas dão grande valor à memória e à comunhão com os antepassados que nos precederam nesta vida. Os antigos cristãos, apesar de só aceitarem cultuar a Deus, assumiram os costumes que encontraram nas diversas regiões e celebraram o louvor a Deus pela vida dos que se foram. Assim as Igrejas antigas cultivaram a memória dos mártires e dos defuntos. Dedicaram o início de novembro à celebração de Todos os Santos e o dia 02, à comemoração de todos os defuntos.

A cultura ocidental não gosta de pensar na morte. Atualmente, o avanço da ciência permite que as pessoas possam escolher como querem morrer ou, ao menos, em que condições ou, até que ponto, aceitam manter a vida. Há poucos meses, os meios de comunicação falaram da norte-americana Terri Schiavo que, por 15 anos, se manteve em estado vegetativo. Quando seu marido obteve da justiça o direito de desligar os aparelhos, a família e organizações religiosas protestaram. Até o presidente Bush protestou, ele que, como todos sabem, respeita imensamente a vida...

Antigamente, a pessoa era declarada morta quando o coração parava. Atualmente, existem equipamentos que permitem reanimar alguém com parada cardíaca. Pode-se respirar por aparelhos... Então, a definição de morte mudou. Acredita-se, hoje, que a vida humana esteja guardada no encéfalo, caixa craniana formada por cérebro, cerebelo e tronco cerebral. Uma pessoa é considerada viva enquanto seu tronco cerebral, a parte do encéfalo que controla as funções básicas do corpo, como batida do coração e respiração está funcionando. A morte cerebral é definida quando um paciente tem destruído o seu tronco cerebral, mas nem sempre o córtex está morto... Por isso, a ciência pode fazer transplantes. O conceito de morte encefálica permite o atestado de óbito, quando o coração ainda está batendo, o que é fundamental para conseguir órgãos para transplantes.

É uma felicidade que alguém possa, ao morrer, doar um órgão que permita outra pessoa viver. Algumas obras de ficção têm até imaginado que o coração transplantado possa trazer a quem o recebe algo da humanidade de quem o doa. Entretanto, todo mundo sabe que todas estas conquistas da ciência estão ainda muito atreladas a interesses econômicos pouco dignos e que, de certa forma, seqüestraram das pessoas o direito de morrer em paz e de forma digna. Marcos Bosi Ferraz, médico especialista em economia da saúde, do Centro Paulista de Economia da Saúde da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), trabalhou por três anos com números referentes aos quatro anos que antecederam a morte de 274 clientes de um plano de saúde. A conclusão foi de que 72% dos gastos com a saúde ocorreram no último ano de vida, metade nos últimos quatro meses. Antes disso, os custos eram de 0, 5%. Ele analisou 28.467 registros de faturas de diferentes serviços prestados pela operadora. O tipo de plano analisado foi o de cobertura completa (ambulatorial, hospitalar e exames). Os maiores gastos foram com internações. (Cf. Adriana Dias Lopes, “Quanto mais perto da morte, mais caro é se manter vivo”, in O Estado de S.Paulo, 03/ 04/ 2005, A 25). A internação em casa com cuidados hospitalares (home care) custa a metade para os planos de saúde, mas quantos médicos propõem isso?

Muitas vezes, as chamadas “Unidades de Terapia Intensiva” revelam que a sociedade evoluiu muito tecnicamente, mas é cada vez menos humana e humanizadora. É como se a pessoa fosse apenas uma máquina composta de órgãos, músculos, nervos e ossos. Assim como se muda uma peça no motor de um veículo, faz-se um transplante de órgãos. O ser humano é reduzido à sua dimensão animal e, às vezes, mesmo de mercadoria.

Contra isso, reagem alguns grupos religiosos e organizações de saúde alternativa. Não se trata de insistir que o ser humano não deveria interferir na natureza ou em algo que, para os que crêem, é uma ação divina. Há mesmo grupos que estão nesta linha mas concordam que o Ramón do filme Mar adentro tivesse o direito de pedir que lhe ajudassem a partir. A questão mais profunda é uma compreensão de vida na qual a morte não é apenas um absurdo a ser negado. É um momento fundamental da vida e todos têm o direito de vivê-la de forma digna e humana. A ciência tem todo o direito de querer prolongar a vida, mas respeitando a dignidade fundamental do ser humano e a unidade essencial entre a dimensão física, psíquica e espiritual.

Ninguém vive a experiência da própria morte. Quando ela chega, nós não já não estamos aqui. Entretanto, vivemos a morte das pessoas próximas e de todos os entes queridos. Podemos viver este momento difícil com mais ou menos sabedoria. As tradições espirituais podem ser revistas. Em algumas regiões e culturas, comunidades empobrecidas tiveram, de tal forma, de conviver  cotidianamente com a morte e morte violenta que, no seu inconsciente coletivo, elaboraram rituais tristes e pesados, em alguns casos até macabros e que ao homem e mulher modernos podem parecer de mau gosto. Entretanto, elas nos podem ajudar a lidar com a morte a partir de três atitudes da espiritualidade humana, capazes de nos levantar de nosso abatimento: 1º - reler a nossa vida como um processo portador de sentido. A morte ilumina a vida.  2º - religar-se a uma comunidade. A tendência de se fechar no sofrimento só nos tornará mais incapazes de lidar com esta passagem. 3º - enfim, abrir-se à possibilidade de um mistério que nos ultrapassa. Frei Hugo Baggio era um franciscano que teve uma experiência rara. Em um ano, ele passou por três experiências de coma. Uma vez, o deram por morto. E, cada vez, ele voltou à consciência e sobreviveu. Chamava a morte de “dama da madrugada”. Sobre esta experiência de ter passado pela morte e três vezes sobrevivido a um coma profundo, ele dizia: “É como uma grande passagem: do sofrimento e do medo para o não-sofrimento, a paz e a alegria pura. Uma  misteriosa força impele a gente. Para onde, não se sabe. Sabe-se apenas que é ‘para’. (...). Posso, sim, retardar a morte ou o fenômeno que abarca todos os elementos escondidos na palavra morte, como posso acelerar seu efeito final. (...) O ser humano é simplesmente colhido como fruto maduro. Ele sabe que está sendo colhido e toma parte nesta colheita”.

Dedicar um dia a lembrar os mortos pode nos ajudar a viver com mais humanidade e a optar de novo pela vida. Por eles, por nós mesmos e pela geração que a nós se seguirá.  
 

 

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