O FICA, o cinema e o outro
Marcelo Barros e Thania Coimbra ( 1 )

versão para 
imprimir

M.Paz


Quem ama o Cinema e redescobre nas telas o encanto que nos impulsiona ao outro tem nestes dias um encontro marcado e agenda cheia. Receber pela sétima vez o FICA é para os cidadãos vilaboenses e para todos os goianos um orgulho e uma responsabilidade. Antigamente,  dizia-se que aos sete anos a criança atinge “a idade da razão”.

No seu sétimo aniversário, o Festival Internacional de Cinema Ambiental assume uma história já vivida, a experiência saboreada e o imenso desafio de ensaiar uma grande celebração de solidariedade humana que irmane os mais diversos povos representados no festival no cuidado cada vez mais amoroso com todos os seres vivos.

Nesta versão o FICA exibirá 768 filmes de 85 países. O aumento considerável da produção goiana que, como já vimos nas edições anteriores, cresce também em qualidade e sensibilidade ecológica e humana é outra conquista do festival.

Adélia Prado se queixa que Deus a castiga quando retira dela o dom de fazer poemas. E diz que perde este dom cada vez que, ao olhar uma pedra, vê apenas uma pedra. O melhor Cinema oferece ao expectador a possibilidade de ver além, viajar por novas paisagens, viver aventuras e desventuras de amor, indignar-se com a injustiça ou as feiúras do mundo.

Cecília, personagem interpretada por Mia Farrow, no belo “A rosa púrpura do Cairo” (Woody Allen, 1985) era uma garçonete pobre, com marido violento e opressor. Infeliz no casamento e no trabalho, fugia da realidade vendo duas, três, cinco vezes os filmes que passavam no cinema local. Um dia em que, pela quinta vez, assistia a aventura do seu herói preferido em busca da “rosa púrpura do Cairo”, vê o mocinho sair literalmente da tela e chamá-la para viver com ele uma vida nova... O  FICA nos convida a viver  a magia do cinema, não nos refugiando na irrealidade de uma fantasia cinematográfica compensatória, como Cecília, mas nos enriquecendo com o que descobrimos na tela para transformar nossas relações e vivermos mais profundamente o encontro com o outro.

Parodiando o filósofo cristão Paul Ricouer, morto na França no dia 20 de maio, em sua análise da literatura: “Compreender é compreender-se diante da tela. Não se trata de impor ao filme ( Ricouer diz do texto) nossa própria capacidade finita de compreender, mas de expor-se ao filme e receber dele um si mais amplo”.¹  

Quem seria o Outro? Algumas vezes nós mesmos. Provocados, somos desafiados a dialogar com os outros de nós. Sobretudo, o Outro é aquele mais próximo que embora essencialmente diferente da gente merece mais que mera tolerância, nosso respeito e cuidado. Hoje, o Outro é, cada vez mais, alguém de outra cultura, de outras convicções e outra visão de mundo que nos desafia a ir além de nós mesmos. Mas o Outro é, principalmente, toda pessoa e grupo que ainda precise de nosso aval para ter reconhecido o direito de poder ser ele mesmo. No Brasil, para a sociedade “incluída”, entram na categoria do “outro”, os povos indígenas, as comunidades negras, os lavradores sem-terra e todos aqueles que a condição de pobreza ou “invisibilidade” torna marginalizados e injustiçados.

Não sabemos ainda se algum dos filmes selecionados para o Festival nos trará a vida de grupos indígenas ou proporá a discussão da importância da reforma agrária em um Brasil que harmonize melhor o cuidado com a natureza e a justiça no campo. O importante é que para o Cinema Ambiental a Ecologia também não é apenas o verde das matas e o azul das águas transparentes, mas é, igualmente, o ser humano que, como já dizia a ECO 92, é “o mais ameaçado de todos os seres vivos”.

O FICA poderá ajudar a Cidade de Goiás a cuidar melhor do outro, por exemplo, na medida em que pensar na maioria de sua população que não pode ver filmes em Goiânia nem tem acesso facilitado aos DVDs e filmes de TVs a cabo. Até o 7o FICA, a cidade-sede do maior festival latino-americano do Cinema Ambiental não conta ainda com uma sala de cinema regular e permanente. É por uma abertura concreta de atenção ao mais carente e injustiçado, que o FICA será um itinerário espiritual para o Outro transcendente, a realidade mais real, o mistério de amor presente no universo ao qual muitos caminhos religiosos chamam Deus.

Homem pragmático, o papa João Paulo II escreveu que “O cinema é um meio particularmente adequado para narrar o mistério inefável que circunda o mundo e o homem. Através das imagens, o cineasta dialoga com o espectador e transmite-lhe o seu pensamento, impelindo-o a colocar-se perante situações que não podem deixar a sua alma insensível. Se ele souber expressar-se com a arte e, além disso, com responsabilidade e inteligência, poderá oferecer o seu contributo específico ao grande diálogo que existe entre as pessoas, os povos e as civilizações. Assim, de certa forma torna-se um pedagogo não só para os seus contemporâneos, mas também para as gerações futuras, como acontece com qualquer outro agente cultural” (João Paulo II).

Sabemos que o cinema é um meio complexo, sofisticado, uma indústria poderosa, veículo da indústria cultural ao qual muitos intelectuais questionam a importância artística e significação. No entanto, em momentos mais ou menos raros, na escuridão da sala de projeção, uma palavra, uma personagem ou uma história atravessa a tela, o tempo, o merchadising, e nos toca. A experiência desse encontro fortuito enriquece o repertório da nossa humanidade o que para os anjos é que como o sussurro de um prece.

1.  RICOUER, Paul. Do texto à ação. Porto, Rés Editora, 1989. pág. 163


 

email 
do autor

topo