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Peregrinação para as fontes da vida
Marcelo Barros |
M.Paz |
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Há muitos séculos, São Bernardo dizia que de nada adiantava a romaria dos pés se o coração não marchar primeiro. De fato, o ato de caminhar revela a disposição de mudar interiormente. É preciso avançar sempre na busca de Deus que não se encontra em um santuário de pedra e sim no mais íntimo de cada ser humano, principalmente dos que aceitam peregrinar ao mais profundo do próprio coração e reconhecer no outro irmão e irmã esta morada do divino. Crentes e não crentes marcham com esperança para um futuro de justiça e paz. Na quarta-feira, 23, o procurador geral da República, Dr. Cláudio Fonteles, diante de diversos representantes de povos indígenas e militantes de organizações de apoio à causa indígena, honrava com sua presença o lançamento do Fórum em Defesa dos Povos Indígenas. Usando uma comparação típica das culturas autóctones, o procurador-geral da República declarou: “Assim como os pássaros, voaremos enquanto não arrancarem nossas asas”. Em seus últimos dias de vida, há
cinco anos, em Recife, repetia sempre Dom Hélder Câmara: “Pela paz, vôo
sempre sem me poupar até cair de cansaço”. Este espírito de peregrinação
para um mundo diferente está presente em diversos fóruns que marcarão
este mês de julho: o Fórum Mundial de Educação em Porto Alegre e, no
final do mês, o Fórum Social das Américas que se reunirá em Quito
(Equador). Entretanto, andaremos sem sair do lugar se esta peregrinação
para um mundo novo e diferente não for acompanhada de uma romaria
interior às fontes de bondade humana e de generosidade do próprio coração.
É
importante cada pessoa averiguar em si mesma o quanto está sedenta e
comprometida com a paz e com uma relação humana mais justa e profunda.
Todas as pessoas, seguidoras de qualquer religião ou caminho espiritual,
descobrem que Deus conta conosco para, por nosso modo de viver, tornar
acessível sua compaixão infinita por todo ser humano. Mesmo no ambiente
humano mais sombrio, um ser humano que se deixa inundar pelo amor divino
pode iluminar e transformar o ambiente. Já
com o peso de seus 90 anos, dizia Paul Ricoeur, um dos maiores filósofos
do século XX: “É preciso acreditar que a bondade é mais profunda e
alicerçada no mundo do que o mal. Por mais radical e espalhado que seja o
mal, não é tão profundo quanto a bondade”. Não
se trata de ser ingênuo ou alienado, mas de ajudar cada pessoa a
redescobrir o potencial de bondade que tem em si mesma e ser capaz de
deixa-lo aflorar em sua vida. Mesmo dentro das pessoas que os sofrimentos
da vida já destruiu muita coisa, há sempre um resto de fogo para ser
reaceso e iluminar a noite fria do mundo sem coração. Pode
parecer uma constatação banal, mas não é. Na vida familiar, nas relações
de amizade, como no dia a dia de qualquer comunidade, a opção pela
bondade do coração é um valor inestimável e essencial. Sem isso,
qualquer comunicação cai sob o risco da superficialidade. Mas, como
peregrinar não apenas ao santuário de Trindade, mas às fontes da
bondade, da alegria e da confiança que podem renovar nossas vidas? Nos
Andes, participei de rituais indígenas através dos quais, os Xamãs
ajudam cada pessoa a receber da mãe Terra a fecundidade espiritual e
possa se alimentar desta ternura. Em Salvador da Bahia, vi em um culto dos
Orixás, os fiéis, possuídos pelo Espírito, devorarem minúsculos fogos
de Xangô para ser nutridos com o fogo da sua justiça. Os cristãos
buscam na oração pessoal e comunitária esta energia amorosa do Espírito
Divino. Foi o que os discípulos disseram a Jesus: “A quem iríamos nós?
Só Tu tens palavras de vida eterna” (Jo 6, 68). Falar
da oração para quem não crê seria querer explicar o gosto da manga
para quem nunca provou. Para quem crê, orar é se dispor a escutar a Deus
através da vida, dos outros e das fontes da fé. É deixar-se impregnar
do seu Espírito para que o Divino que existe em nós possa emergir e
guiar nossas vidas e nosso modo de ser. Se a oração não nos torna mais
humanos e mais amorosos, é sinal de que tem aparência de prece, mas é
fantasia. Uma
antiga oração de romeiros pede: “Jesus, manso e humilde de coração,
torna o meu coração semelhante ao teu”. Parece o poema de um místico
muçulmano da Idade Média que descreve bem a alma peregrina da vida:
“Entre as rochas e sobre os montes, busco o teu nome. Como te buscam os
pássaros, voando nos céus; como nadam os peixes, velozes nos rios e como
corre o antílope pelas planícies, assim te desejo e te busco, ó
Deus". Busco
o teu nome e canto o teu louvor. Conheço o mundo e me uno às criaturas.
Em todas, percebo o teu rastro e corro atrás de ti, Senhor, amor”. |
| ilustração de Pulika | topo |