Desafios da pátria grande
Marcelo Barros [1]
M.Paz

Pela primeira vez na história, mais de 500 anos depois da conquista, vários países da América Latina se unem para reafirmar sua independência em relação aos países do chamado "Primeiro Mundo" e especificamente aos Estados Unidos e à sua estratégia de manutenção da dependência econômica e política dos nossos países em relação a Washington. Ainda em 2002, nas vésperas das eleições presidenciais brasileiras, George Soros, arquimilionário norte-americano, declarou que pouco importava quem fosse eleito. Quem manda no Brasil é o FMI e Banco Mundial. Conforme tal visão, deveriam ser eles a nomearem os presidentes de nossos países. Do mesmo modo, em outubro deste ano, entre o 1º e o 2º turno das eleições, em uma reunião entre pares, um grande banqueiro brasileiro teria dito: "Deixa a senzala escolher o presidente que quiser. Nós que de fato damos as cartas neste país nomeamos quem importa: o presidente do Banco Central".

A novidade desta vez é que, como diz Boaventura de Souza Santos, "58 milhões de brasileiros preferiram correr o risco de votar em um governo que os pode desiludir a votar num que, de saída, já não os ilude". (Folha de S.Paulo, 22/11/06, p. 3). Assim agiram nicaragüenses, bolivianos, chilenos e argentinos e se preparam para fazer o mesmo muitos venezuelanos que nestes dias escolherão o seu presidente. Votam como latino-americanos. Não há uma mera polarização entre esquerda ou direita. Resgata-se antes de tudo a utopia da revolução bolivariana para, através do voto e de modo pacífico, retomar o sonho de uma América Latina unida como uma pátria grande e independente.

Com a história sofrida de cicatrizes mal-curadas, todos os povos do continente aprenderam que, sem autonomia econômica, não existe independência social e política. Não conseguimos reparar o passado e obter indenização por tudo o que nos foi roubado. Se pudéssemos fazer isso, muito da riqueza da atual Europa deveria retornar aos países latino-americanos. Com relação ao Brasil, o grande Celso Furtado calculou que entre 1650 e 1822, ano de nossa chamada independência política, foram transferidos do Brasil para Portugal, mais de 75 mil quilos de ouro, o que hoje, corresponderia a 1, 2 bilhão de dólares. O que significa a nossa atual dívida externa frente a esta dívida histórica? Como prosseguir a política de dependência atual dos Estados Unidos quando estes exigem de volta 11 dólares por cada dólar que "investem" em nosso país?

Até poucos anos, o governo norte-americano não permitia movimentos populares que ameaçassem o seu domínio no continente. Os historiadores discutem se houve 198 ou 202 invasões e intervenções do governo dos Estados Unidos na América Latina, no século XX. Praticamente todos os países da América Central foram, ao menos uma vez, invadidos por intervenções armadas e ocupações como o Panamá que os norte-americanos só deixaram em 1999, depois de garantir que a única moeda do país fosse o dólar. Na década de 80, os EUA invadiram Granada e mataram o primeiro ministro eleito pelo povo. Depois de sucessivos atos terroristas, conseguiram derrubar o governo sandinista na Nicarágua, não mais assassinando fisicamente sandinistas - como, em 1933, fizeram com o general Sandino - mas procurando destruir a integridade moral dos militantes e comprar as pessoas. Por falar em dinheiro, financiaram e apoiaram golpes militares na maior parte de nossos países até que estes governos ditatoriais não serviam mais ao seu interesse.

Atílio Boron, sociólogo argentino, observou que, na América Latina, não por acaso, a democratização de nossos países coincidiu com "reformas econômicas" impostas pelo governo dos Estados Unidos, através do FMI e do Banco Mundial. Permitem nossas democracias, desde que antes tenham roubado qualquer possibilidade de verdadeira soberania nacional.

Nenhum brasileiro lúcido está muito animado ao ver o preço da vitória de um segundo mandado presidencial que pode ter como resultado político, apenas a criação de uma espécie de grande e artificial PMDBzão que nos obrigará, em 2010, a escolher de novo entre Arena e MDB, como em velhos tempos dos quais ninguém tem saudade. Entretanto, o povo não quis voltar ao risco das privatizações e à dependência norte-americana. Este foi o fiel da balança. Nas mais recentes eleições presidenciais da Bolívia, a maioria dos eleitores deixou claro que só votaria no candidato que se comprometesse em garantir o controle nacional sobre o gás natural do país.

Falou-se publicamente dos direitos dos índios, dos direitos das mulheres e dos direitos da terra e da água. Evo Morales ganhou porque se comprometeu com esta política sabendo que, se não a cumprir, será derrubado pelos índios, como nos últimos anos foram derrubados três presidentes anteriores. Hugo Chaves pode ter os defeitos que a mídia quiser lhe emprestar, mas é porta-voz desta esperança bolivariana e sua possível reeleição fez Noam Chomsky observar: "Como os Estados Unidos vão continuar sua política de interferência no mundo inteiro se não puderem mais contar com a América Latina como base segura para dali tirarem recursos naturais, dominarem o mercado e os investimentos?"(Revista Internazionale, 13/10/2006, p. 17).

Mesmo se os Estados continuam sendo referência para a organização social e política dos nossos povos, em todo o continente latino-americano, os movimentos indígenas se organizam politicamente e chegam a conquistar direito de voz na ONU. Na próxima semana, um encontro bolivariano de povos indígenas, em La Paz, aprofundará formas desta integração. Pode ser que esta nova forma de organização social e política se firme antes mesmo do chamado Parlamento Latinoamericano e seja força para que nossos povos tenham mais vida e liberdade.

ilustração: "O poder e o cofre" - desenho de Pulika

 

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