Avanços e recuos no caminho
Marcelo Barros
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M.Paz

Parece que os desacertos e conflitos que o mundo atual vive nas áreas da política, economia, educação e cultura contagiam também ambientes de Igrejas e de outras religiões. No mundo todo, proliferam movimentos religiosos conservadores. Grupos fundamentalistas islâmicos e os círculos evangélicos que apóiam Bush justificam igualmente a violência em suas ações políticas para destruir o inimigo em nome de Deus. Por outro lado, no âmbito das instituições religiosas e dos grupos não fanáticos, infelizmente, diante do mundo que se acaba em guerras, pastores de Igrejas e líderes de religiões lamentam, mas não se sentem diretamente responsáveis em transformar esta situação.

Nestes dias, completam-se cinco anos de um fato importante para todos os cristãos, independentemente da Igreja a que pertençam. No dia 31 de outubro de 1999, autoridades da Igreja Católica e da Federação Luterana Mundial assinaram uma importante Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação pela fé. Este documento reconhece, entre católicos e evangélicos, um consenso básico sobre as verdades fundamentais relacionadas à fé cristã.

Esta visão comum está expressa no parágrafo 15 da Declaração Conjunta: "Confessamos juntos: ‘somente por graça, na fé na obra salvífica de Cristo, e não por causa de nosso mérito, somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo, que nos renova os corações e nos capacita e chama para boas obras". Tal consenso possibilitou aos pastores católicos e luteranos declararem juntos que as condenações que uma Igreja fez à outra no século XVI não expressam a verdade mais profunda da compreensão de fé nem católica nem protestante.

Assim, adquiriu maior profundidade e realidade um lastro de comunhão que já existe entre as Igrejas, mesmo se esta unidade ainda está longe de ser completa. Este acordo entre católicos e luteranos encerra cinco séculos de divisões e deixa claro o erro de tantas guerras e conflitos que tais questões provocaram no passado. Para a humanidade atual, a assinatura desta Declaração Conjunta representa não só um documento teológico, mas um testemunho comum de paz e reconciliação importante neste mundo dividido por tantos conflitos.

O Conselho Mundial de Igrejas que reúne 340 Igrejas cristãs prepara sua 10a assembléia geral para Porto Alegre (2006). Houve um momento no qual parecia que este Conselho não resistiria aos ataques dos setores mais conservadores das Igrejas. Algumas confissões orientais se retiraram do Conselho, inconformadas pelo fato deste ligar a fé cristã à luta contra o racismo e ao compromisso de solidariedade com os oprimidos. A hierarquia da Igreja Católica não participa do Conselho porque não pode aceitar um diálogo com as outras Igrejas, de igual para igual, sem que estas reconheçam a primazia do papa. Enquanto isso, o relógio do tempo apressa o prazo no qual ainda é possível salvar o planeta.

Em um tempo no qual a maior parte da humanidade busca novas formas de democracia e participação no poder, infelizmente algumas Igrejas reforçam o poder de seus bispos. As hierarquias fomentam movimentos espirituais que privilegiam a catarsis emocional momentânea e descompromissada. Em meio a um mundo cada vez mais pluralista, os ministros cristãos parecem pouco formados para repensar sua fé e sua doutrina a partir da convivência com o diferente. Poucos recordam a proposta do Concílio Vaticano II e de Medellín de constituir uma Igreja pobre e servidora.

No mundo, as ONGs tentam preencher o vazio entre governos e sociedade civil. Em ambientes ligados à fé, cada vez mais, aqui e ali, começam a surgir verdadeiras “ONIRs”, Organizações Não Institucionais Religiosas, que não querem se opor à nenhuma Igreja ou religião, mas reúnem pessoas e grupos que não conseguem suprir seus anseios e necessidades espirituais e humanas nas atuais instituições religiosas. Um crente formado em Teologia declarou há pouco tempo: “Assim como na medicina, surgiu o remédio genérico, o fechamento das Igrejas em si mesmas e sua incapacidade de dialogar com o mundo atual me obrigam a me declarar “cristão genérico”. Pessoalmente, creio profundamente na importância de uma comunidade de fé para que uma pessoa possa viver a fé cristã e só com muito sofrimento aceito a legitimidade da constatação deste amigo.

Não escrevo isso para falar mal da minha ou de outras Igrejas e sim para que os padres, bispos e pastores compreendam a urgência de retomar um diálogo positivo e fraterno com a humanidade e sua sensibilidade atual. Este diálogo não tem de ser sobre interesses eclesiásticos e sim sobre como as Igrejas podem melhor servir às grandes causas da humanidade atual. O corajoso diálogo com o mundo moderno, iniciado pelo bom papa João XXIII precisa ser retomado com a juventude, com os intelectuais e com todo o povo, mas mesmo no seio dos movimentos eclesiais e entre uma Igreja e outra.

Todos os cristãos lêem no Novo Testamento: “Deus é Amor. Quem vive no amor vive com Deus e Deus está com essa pessoa”(1 Jo 4, 16). É preciso tirar todas as conseqüências desta afirmação revolucionária. Ela expressa que Deus salva gratuitamente a todos. Ninguém precisa de Igreja para ser salvo, mas as Igrejas são essenciais como testemunho e conseqüência da salvação de Deus. Ele nos salva, nos une em comunidade e nos faz viver para os outros. Isso significa que o primeiro interesse de qualquer grupo ou instituição que se diz de Deus deve ser ir além de suas próprias fronteiras e estabelecer a terra do amor, da justiça e da paz como religião básica e comum de toda humanidade.
 

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