O Nosso Voto pode construir uma casa nova!  
Marcelo Barros

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M.Paz

A Campanha eleitoral, em seus últimos dias, toma conta de cada rincão deste diversificado Brasil. Domingo próximo, em mais de 5 mil municípios(5560), o povo estará elegendo seus representantes. 

O tempo de campanha serve para que todos possam ouvir as propostas de cada candidato, conhecer o programa dos partidos e aprofundar o debate sobre os rumos que a cidade deve tomar. Alguns candidatos, com práticas de coronelismo e a reincidência de outros vícios pessoais em suas vidas públicas, tentam conquistar votos com propostas messiânicas e práticas pouco claras. A justiça eleitoral continua claramente desrespeitada. Temos informações, infelizmente difíceis de serem comprovadas, que certos candidatos, já conhecidos pela desonestidade no uso do dinheiro público, compram votos à luz do dia. Testemunhas e vítimas não aceitam denunciar por medo de represálias.

 Isso favorece certa descrença na Política e em muitos eleitores, a incerteza. Muitos se perguntam se uma eleição como esta muda alguma coisa. Existe grande decepção do povo com homens e mulheres políticos, com partidos e com os poderes executivo, legislativo e judiciário, tanto no nível federal como estadual e municipal. O próprio processo eleitoral ainda não consegue evitar vícios. A Democracia brasileira está social e politicamente consolidada. A Constituição e as Leis são, em geral, boas e justas. Entretanto, as desigualdades sociais e um modo de organização econômica estruturalmente injusta fazem com que o processo eleitoral e a representação política ainda tenham muitos aspectos a serem aperfeiçoados. Todo mundo sabe que há casos de malversação de recursos públicos. Neste período de campanha a quantidade de carros de propaganda nas ruas e o número de out-doors já revelam o peso que tem o dinheiro no financiamento das campanhas. Isso sem falar no famoso "caixa-dois".  No bolso dos eleitores, o dinheiro continua curto e não é difícil perceber que ainda há candidatos fazendo da Política meio de vida, maneira de se arranjar e se enriquecer! Tudo isso é grave porque está em jogo a própria democracia e o direito de todos à cidadania.

De acordo com as tradições filosóficas antigas, todos nós habitamos, ao mesmo tempo, quatro moradas. A primeira é comum a todos os seres vivos e por isso fundamentalmente ecumênica: o Cosmos. Hoje precisamos reaprender a habitar o universo de forma mais amorosa. A segunda morada é exatamente a polis , a cidade, espaço cultural e humano no qual convivemos uns com os outros e nos complementamos mutuamente. A terceira morada é a casa, em grego oikos, direito de todos os que habitam a cidade e a partir da qual se consolidam mais profundamente os laços familiares e afetivos. Finalmente, todos nós habitamos um corpo e temos uma identidade pessoal que é como uma morada interior. Isso é o que nos faz capazes de ethos, caráter, índole. É a partir desta fonte que se forma a Ética.    

As eleições municipais dizem respeito mais imediatamente à cidade. Entretanto, em um país que desejamos cada vez menos centralizado, a organização municipal coordena a construção destas quatro moradas da Casa Comum que todos habitamos. O município administra o cuidado com a natureza (o cosmos), é responsável em conseguir que todos tenham casa e possam assim ser cidadãos a partir de uma Ética pessoal e comunitária. 

Entre outros, o voto é instrumento indispensável nesse processo de construção das quatro moradas desta Casa Comum que queremos, não só para nós mas para todos. Por isso, não votar ou votar de forma irresponsável e errada significa pôr em risco o processo democrático e possibilitar que os coronéis de sempre e corruptos de carreira ocupem o espaço da Política e impeçam que os verdadeiros cidadãos possam transformar esta realidade social e humana.

Os antigos filósofos gregos nos ensinaram que o indivíduo só se torna plenamente pessoa quando aprende a conviver na família, na cidade e no cosmos, sentindo-se responsável pelo bem comum.  

Um amigo, ao longo dos seus 80 anos de vida, votou muitas vezes  e nem sempre viu seu voto dar vitória às pessoas que ele julgava mais idôneas para o exercício do cargo público. Freqüentemente votou com a minoria, seguindo sua consciência. Mas nunca se perguntou se valia a pena votar. Sua esposa conta que, cada dia de eleição, ele se veste com a roupa mais solene e vai, todo elegante, cumprir o sagrado direito de ser cidadão. O voto é o modo mais concreto que qualquer pessoa tem de expressar sua voz e exercer a cidadania. Em recente artigo, escrevia Cristóvão Pereira: “A pessoa em quem você vota, o apoio ao partido no qual o seu candidato está escrito, com o respectivo projeto de Sociedade que defende, revela a grandeza de seu coração. Ele é a expressão de seu amor para com a sua Cidade, seu Estado, a Nação que queremos para todos. O seu voto expressa quem você é e se você se interessa pela paz e pela justiça na cidade e no mundo”.  

 ilustração de Pulika

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