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O Nosso Voto pode construir
uma casa nova! |
M.Paz |
A Campanha eleitoral, em
seus últimos dias, toma conta de cada rincão deste diversificado Brasil.
Domingo próximo, em mais de 5 mil municípios(5560), o povo estará elegendo
seus representantes.
O tempo de campanha serve
para que todos possam ouvir as propostas de cada candidato, conhecer o programa
dos partidos e aprofundar o debate sobre os rumos que a cidade deve tomar.
Alguns candidatos, com práticas de coronelismo e a reincidência de outros vícios
pessoais em suas vidas públicas, tentam conquistar votos com propostas messiânicas
e práticas pouco claras. A justiça eleitoral continua claramente
desrespeitada. Temos informações, infelizmente difíceis de serem comprovadas,
que certos candidatos, já conhecidos pela desonestidade no uso do dinheiro público,
compram votos à luz do dia. Testemunhas e vítimas não aceitam denunciar por
medo de represálias.
Isso favorece certa
descrença na Política e em muitos eleitores, a incerteza. Muitos se perguntam
se uma eleição como esta muda alguma coisa. Existe grande decepção do povo
com homens e mulheres políticos, com partidos e com os poderes executivo,
legislativo e judiciário, tanto no nível federal como estadual e municipal. O
próprio processo eleitoral ainda não consegue evitar vícios. A Democracia
brasileira está social e politicamente consolidada. A Constituição e as Leis
são, em geral, boas e justas. Entretanto, as desigualdades sociais e um modo de
organização econômica estruturalmente injusta fazem com que o processo
eleitoral e a representação política ainda tenham muitos aspectos a serem
aperfeiçoados. Todo mundo sabe que há casos de malversação de recursos públicos.
Neste período de campanha a quantidade de carros de propaganda nas ruas e o número
de out-doors já revelam o peso que tem o dinheiro no financiamento das
campanhas. Isso sem falar no famoso "caixa-dois". No bolso dos eleitores, o dinheiro
continua curto e não é difícil perceber que ainda há candidatos fazendo da
Política meio de vida, maneira de se arranjar e se enriquecer! Tudo isso é
grave porque está em jogo a própria democracia e o direito de todos à
cidadania.
De acordo com as tradições filosóficas antigas, todos
nós habitamos, ao mesmo tempo, quatro moradas. A primeira é comum a todos os
seres vivos e por isso fundamentalmente ecumênica: o Cosmos. Hoje precisamos
reaprender a habitar o universo de forma mais amorosa. A segunda morada é
exatamente a polis , a cidade, espaço cultural e humano no qual convivemos uns
com os outros e nos complementamos mutuamente. A terceira morada é a casa, em
grego oikos, direito de todos os que habitam a cidade e a partir da qual se
consolidam mais profundamente os laços familiares e afetivos. Finalmente, todos
nós habitamos um corpo e temos uma identidade pessoal que é como uma morada
interior. Isso é o que nos faz capazes de ethos, caráter, índole. É a partir
desta fonte que se forma a Ética.
As eleições municipais dizem respeito mais
imediatamente à cidade. Entretanto, em um país que desejamos cada vez menos
centralizado, a organização municipal coordena a construção destas quatro
moradas da Casa Comum que todos habitamos. O município administra o cuidado com
a natureza (o cosmos), é responsável em conseguir que todos tenham casa e
possam assim ser cidadãos a partir de uma Ética pessoal e comunitária.
Entre outros, o voto é instrumento indispensável nesse
processo de construção das quatro moradas desta Casa Comum que queremos, não
só para nós mas para todos. Por isso, não votar ou votar de forma irresponsável
e errada significa pôr em risco o processo democrático e possibilitar que os
coronéis de sempre e corruptos de carreira ocupem o espaço da Política e impeçam
que os verdadeiros cidadãos possam transformar esta realidade social e humana.
Os antigos filósofos gregos nos ensinaram que o indivíduo
só se torna plenamente pessoa quando aprende a conviver na família, na cidade
e no cosmos, sentindo-se responsável pelo bem comum.
Um amigo, ao longo dos seus 80 anos de vida, votou
muitas vezes e nem sempre viu seu
voto dar vitória às pessoas que ele julgava mais idôneas para o exercício do
cargo público. Freqüentemente votou com a minoria, seguindo sua consciência.
Mas nunca se perguntou se valia a pena votar. Sua esposa conta que, cada dia de
eleição, ele se veste com a roupa mais solene e vai, todo elegante, cumprir o
sagrado direito de ser cidadão. O voto é o modo mais concreto que qualquer
pessoa tem de expressar sua voz e exercer a cidadania. Em recente artigo,
escrevia Cristóvão Pereira: “A pessoa em quem você vota, o apoio ao partido
no qual o seu candidato está escrito, com o respectivo projeto de Sociedade que
defende, revela a grandeza de seu coração. Ele é a expressão de seu amor
para com a sua Cidade, seu Estado, a Nação que queremos para todos. O seu voto
expressa quem você é e se você se interessa pela paz e pela justiça na
cidade e no mundo”.
| ilustração de Pulika |
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