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Para
não dizer que falei de Terra
Marcelo Barros |
M.Paz |

Entretanto, a ONU tem insistido que não haverá paz ou desenvolvimento justo, se o país não empreender uma justa reforma agrária e promover a educação e inclusão social dos empobrecidos no campo. Diversos organismos da ONU reconhecem que, no Brasil, os movimentos de trabalhadores rurais têm dado uma contribuição inestimável ao desenvolvimento e à justiça.
O MST é o movimento social brasileiro que, nos últimos anos, mais ganhou prêmios
internacionais pela defesa do direito e por se dedicar à educação no campo.
Esta
semana, que começou com o 25 de julho, dia consagrado pela ONU ao lavrador, será
coroada com o Fórum Social das Américas em Quito. Lá, a reforma agrária e a
justiça no campo serão temas centrais. Com relação ao Brasil, há dois anos,
Jean Ziegler, relator especial da ONU para o direito à alimentação, conduziu
uma missão no Brasil para investigar as causas da fome e como o Brasil
reconhece o direito de todos se alimentarem dignamente. Aí vão alguns tópicos
do documento entregue à ONU: “O Brasil tem avançado muito na compreensão
conceitual do direito à alimentação, em grande parte como resultado do
trabalho de sua sociedade civil. A Constituição Brasileira de 1988 é uma das
mais progressistas no mundo em sua proteção aos direitos econômicos, sociais
e culturais. (...) Entretanto, embora o governo tenha iniciado programas
inovadores para o combate à pobreza e à fome, ainda existem dificuldades para
aplicar esses programas, incluindo resistências da elite.”
A
questão chave está nas grandes disparidades de distribuição de recursos.
(...) No Brasil, o problema da fome e da desnutrição não é a falta de
comida. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e
Alimentação, os alimentos produzidos no Brasil são mais do que o suficiente
para alimentar todos os brasileiros. Entretanto, neste país que é a décima
maior economia do mundo e um dos maiores exportadores de alimentos de todos os
continentes, diariamente, mais de 22 milhões de pobres permanecem subnutridos.
Uma das raízes desta injustiça está na situação agrária do país. A
distribuição de terras é extremamente desigual – dois por cento dos
latifundiários possuem 56 por cento de toda a terra disponível, enquanto 80
por cento dos pequenos proprietários dividem entre eles apenas 12 por cento da
terra. De acordo com o INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária),
há quase 100 milhões de hectares de terras improdutivas no Brasil. A
agricultura orientada para exportação tem acelerado o problema da falta de
terra e a crescente concentração de terra tem expulsado mais pessoas em direção
às cidades.
Em
muitas regiões do país, vastas áreas de terras agrícolas férteis permanecem
improdutivas, enquanto quase 4.8 milhões de famílias camponesas sem-terra
(arrendatários, parceiros, posseiros ou pequenos produtores) lutam para
sobreviver em propriedades menores que cinco hectares. Essas famílias se
beneficiariam muito com propriedades maiores para cultivar suas plantações de
alimentos.
João
Pedro Stedile argumenta que o atual modelo econômico está produzindo mais
fome, pobreza e marginalização. A atual política agrícola e o problema dos
sem-terra estão intimamente ligados à extrema miséria urbana, pois as pessoas
são forçadas a migrar para as cidades, alimentando o ciclo vicioso da violência,
repressão e dos abusos de direitos humanos tanto nas áreas rurais quanto
urbanas.
A
maioria das religiões insiste na misericórdia, na compaixão e na
solidariedade como caminhos para o encontro com Deus. Dom Hélder Câmara
“reconhecia quem é de Deus não por ser religioso e gostar de culto, mas pela
sensibilidade para com a justiça e a solidariedade”. De fato, isso
corresponde ao pensamento de Jesus ao proclamar bem-aventurados não tanto
aqueles que freqüentam Igrejas ou usam o nome de Deus e sim, “bem aventuradas
as pessoas que constroem a paz e a justiça porque são consideradas como filhas
e filhos de Deus.”
| ilustração de Pulika | topo |