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Dores de parto para uma vida nova
Marcelo Barros [1] |
M.Paz |
Mesmo em uma sociedade na qual as mulheres dão à luz com todo acompanhamento médico e o auxílio da anestesia, as dores do parto continuam fortemente simbólicas. Jesus de Nazaré usou esta imagem para explicar aos discípulos porque assumia os riscos de uma morte violenta: "Quando a mulher está para dar a luz sofre porque vê chegar a sua hora. Assim que a criança nasce, nem se lembra mais da dor, feliz por ter dado ao mundo uma vida nova. Isso também acontecerá a vocês. Pelo fato de não me verem, vocês ficarão muito tristes, enquanto o mundo se alegrará. Mas, eu virei de novo e o coração de vocês se encherá de alegria" (Jo 16, 20 ss).
Esta palavra explica aos cristãos porque, a cada ano, na Semana Santa, celebrar a memória da morte e ressurreição de Jesus. Não devemos compreender a paixão como uma espécie de destino de Jesus (nasceu para sofrer). Menos ainda podemos acreditar que Deus quisesse ou precisasse que o seu filho morresse para com seu sangue reconciliar a humanidade. Deus é amor, ternura radical. Não deve ser confundido com uma espécie de mandante do assassinato do próprio filho. Jesus sofreu e morreu como conseqüência da sua profecia social e política. Foi vítima da política opressiva do Império Romano e da conivência dos religiosos da época. Cada ano, a paixão de Jesus é rememorada porque Jesus foi capaz de fazer da sua dor e até da morte um ato de doação e serviço aos outros. É isso que ele nos propõe: aprender a fazer de nossas lutas e dores uma gravidez capaz de gerar vida nova.
Para além da fé cristã, quem observa criticamente a realidade social e política, pode perceber que os povos latino-americanos _ especialmente as comunidades indígenas e os movimentos populares _ depois de 500 anos de opressão, vivem um longo e doloroso processo de articulação. Mesmo em países como a Bolívia, Equador e Venezuela, nos quais o racismo e a discriminação social são ainda muito fortes, as comunidades populares conseguiram eleger presidentes comprometidos e propor políticas sociais inovadoras. As contradições e dificuldades continuam fortes, mas existe uma agenda de reformas estruturais na direção da justiça e da paz. Este processo, cheio de riscos e sofrimentos, parece anunciar o parto de uma sociedade nova.
Dentro deste processo, El Salvador, o menor país da América Central, se tornou referência de resistência e vitória dos mais pobres. Ali, a pobreza é tão grande que 50% dos habitantes são obrigados a viver com menos de 10 dólares por mês para sobreviver. Mas, esta pobreza não é natural nem ocorre por acaso. Desde 1932, o governo dos Estados Unidos toma conta de terras e compra fazendas para que produzam bananas e outros produtos necessários aos vizinhos do Norte.
Para garantir que o povo não se revolte, os EUA vêm sustentando sucessivos governos militares ou controlados pelos generais. Militantes dos direitos humanos e de organizações populares têm sido presos, torturados ou simplesmente desaparecidos. Em 1980, um bispo católico, muito religioso e socialmente conservador, se deu conta de que a sua missão era defender a vida. Começou a denunciar as torturas e desaparecimentos. No dia 24 de março de 1980, enquanto celebrava a Eucaristia, Dom Oscar Romero foi assassinado. Desde então, a cada ano, no mundo inteiro, as comunidades que trabalham pela paz e pela justiça celebram sua memória. Comunidades cristãs ligam o martírio de Romero à páscoa de Jesus Cristo.
No entanto, enquanto as comunidades pobres da América Latina recordam a memória de Oscar Romero, o Vaticano publica uma censura pública à teologia e ao pensamento de Jon Sobrino, teólogo assessor de Romero e jesuíta que continua em El Salvador uma inserção amorosa no mundo dos pobres. Da parte dos monsenhores da Congregação Romana, a questão é sublinhar a divindade de Jesus. Da parte de Jon Sobrino e de todos os profetas latino-americanos, o importante é testemunhar que a dimensão divina de Jesus se manifesta no seu amor solidário a todas as vítimas de injustiça e especialmente aos povos que, como diz Jon Sobrino, vivem crucificados. Como disse Dom Romero na Universidade de Louvain (Bélgica): "Ser a favor da vida ou da morte. Cada dia, vejo com mais clareza que esta é a opção a seguir. Nisso não existe neutralidade possível. Ou servimos à vida, ou somos cúmplices da morte de muitos seres humanos. Aqui se revela qual é a nossa fé: ou cremos em um Deus da Vida, ou usamos o nome de Deus, servindo aos algozes da morte".
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