Encontro das comunidades de base e a política nacional
Marcelo Barros ( 1 )

versão para 
imprimir

M.Paz

Acaba de acontecer em Ipatinga, MG, o 11º Encontro nacional das Comunidades Eclesiais de Base. Trata-se de grupos cristãos, constituídos por homens e mulheres, do campo ou das periferias urbanas que se reúnem para orar, ajudar-se mutuamente e refletir sobre a realidade do mundo e do país.

No Brasil, as Cebs (comunidades eclesiais de base) surgiram nos anos 60, em dioceses católicas, como forma de tornar a Igreja uma rede de solidariedade entre comunidades, mergulhadas na luta cotidiana da sobrevivência e para ligar a espiritualidade aos desafios concretos da vida. Hoje, essas comunidades se espalham pela América Latina e outros continentes. Desafiam as Igrejas a se renovar, retomar o diálogo com a humanidade e buscar formas de organização mais compatíveis com o espírito das primeiras Igrejas cristãs.

Hoje, existem Cebs católicas, luteranas, metodistas, anglicanas, presbiterianas e congregacionais, além das que reúnem cristãos de duas ou mais confissões. Há outras Igrejas, especialmente pentecostais, que se organizam como "Igreja em células", versão devocional, entretanto legítima, da mesma intuição das Cebs: viver a fé no núcleo de base. No Brasil, desde 1975, com certa regularidade, as Cebs fazem os "encontros intereclesiais" que reúnem comunidades de todo o país e convidados de fora.

Este 11º intereclesial de Cebs foi o primeiro realizado em Minas. Éramos quase 5000 participantes, de várias Igrejas, pessoas de religiões afro-descendentes e mais de 70 índios e índias de vários povos. Além disso, quase 200 convidados de vários países da América Latina, da América do Norte, Europa e África.

O método usado nos encontros das Cebs continua sendo "ver, julgar e agir". No primeiro dia, as pessoas partilham a realidade que vivem. Esboçam um quadro do que está acontecendo em cada local e no país. No segundo dia, confrontam-se estes dados da realidade com a palavra da Bíblia e procura-se descobrir o que, neste contexto, Deus espera das comunidades. Em um terceiro, à luz da fé, as pessoas assumem o engajamento pela justiça e libertação de todos. Desta vez, aprofundamos o tema: "Seguir Jesus no compromisso com os excluídos". Os participantes se organizaram em seis grandes plenários de mais de 600 pessoas. Cada plenário era composto por seis grupos de cem participantes, subdivididos em círculos de dez. Assim, conviviam pessoas de diferentes regiões, raças e culturas. Cada dia começava por uma oração ecumênica. À noite, havia celebrações vibrantes, de grande beleza e profunda espiritualidade.

Em um parque municipal, foi montado um "Acampamento da Juventude". Ali, 500 rapazes e moças conversavam sobre sua forma de ver a vida e o mundo. Cada manhã, convidavam algum/a assessor/a para com eles refletir sobre a situação do país e do mundo, a realidade das Igrejas, a busca de uma espiritualidade libertadora e outros temas do encontro das Cebs. Por falar em espiritualidade libertadora, em um dos plenários, foi comovente ouvir a experiência do Padre Mike, que, em Chicago, trabalha com comunidades, formadas por latino-americanos sem documentos. Estas comunidades são uma amostra da resistência dos 10 milhões de migrantes que, nos Estados Unidos, sobrevivem no coração do Império. Benvinda era uma das angolanas presentes. Em seu dialeto africano, mostrou aos brasileiros como se invoca o Espírito Divino para pedir a graça de ser mais firme no caminho da justiça e da ética. Quem sabe, ela pensou que nós, brasileiros, andamos precisando disso.

Aliás, desde o primeiro momento, um dos assuntos mais presentes nos bate-papos informais, como nas reuniões e celebrações foi a crise política pela qual passam o PT e o governo. O povo ali reunido expressou apoio às comissões de inquérito e investigações da justiça para punir corruptos e devolver credibilidade à Política. Entretanto, todos sabem: alguns políticos atiram no que está errado neste governo para atingir o que é correto: o projeto de um país mais justo e democrático, sonho que não é propriedade de Lula nem do PT e sim dos milhões de brasileiros que votaram pela mudança. Nenhuma das pessoas ali reunidas se mostrou favorável à Política Econômica do governo Lula. Era grande a decepção pelo fato do presidente continuar loteando cargos e remanejando ministérios para servir a interesses de "companheiros" como Severino, Sarney e ACM que, junto com Delfim Neto, parecem ser seus atuais amigos e conselheiros. Entretanto, muitos expressavam que, apesar de todas as decepções, o Brasil de hoje parece melhor do que o de antes.

Para quem continua apostando na esperança, é urgente valorizar a articulação dos povos latino-americanos contra a hegemonia imperialista do governo Bush, para o que inegavelmente a política externa do atual governo tem dado alguns passos positivos e diferenciados. Mesmo reclamando do atual presidente mais diálogo com a sociedade civil, as Cebs expressaram sua satisfação com o fato deste governo respeitar os movimentos populares e não reprimir, como sempre acontecia antes. Este próprio encontro das Cebs recebeu uma mensagem de apoio do presidente da República, distinção com a qual os dez encontros anteriores nem poderiam sonhar. Ipatinga mostrou que, nas bases, estão sendo desenvolvidos projetos sociais importantes. A solução para uma verdadeira reforma política não virá apenas das instâncias oficiais de poder. É urgente que a sociedade organizada se mobilize para exigir as transformações que todos queremos.


 

email 
do autor

topo