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O futuro da vida Marcelo Barros[1] |
A preocupação
com o futuro da vida no planeta Terra foi o assunto central do Fórum
inter-religioso popular que, na semana passada, reuniu milhares de pessoas em
Vitória, bela cidade do país basco, no norte da Espanha.
Um dos pontos de partida daquela assembléia heterogênea e pluralista foi a afirmação de Vandana Shiva: “Um desafio grande para o planeta Terra é sobreviver ao atual modelo de desenvolvimen- to social, político e científico que a sociedade ocidental consagrou como o único”.
No Brasil, aconteceu em Curitiba a Conferência mundial sobre Biodiversidade. No final, em artigo claro e contundente, escreveu o mestre Washington Novaes: “Qual é a urgência real para as transformações nos nossos modos de viver? (...) Quanto tempo o mundo pode esperar pelo cumprimento de objetivos como os das Metas do Milênio? Serão as grandes convenções internacionais caminho eficiente para assegu- rarem condições para a vida no planeta e a redução das brutais desigualdade entre seres humanos, países, regiões?” (O Estado de S.Paulo, 31/06/2006).
A revista Science de 16 de fevereiro publicou as descobertas de E. Rignot e P. Kana- 0garatnan, dois dos maiores geólogos do mundo. Eles mostram que as geleiras do leste da Groelândia estão se desfazendo a uma velocidade de 38 metros por dia e, portanto, 14 quilômetros por ano. Está também se derretendo o gelo da Antártica, do Himalaia, dos Alpes e dos Andes. O resultado disso é um aumento do nível do mar, mudança das correntes marítimas responsáveis pelo clima nos continentes e elevação de quase três graus na temperatura da terra, provocando secas nunca vistas no hemisfério sul e invernos mais rigorosos no norte.
Fui convidado para falar aos os participantes do Fórum inter-religioso de Vitória sobre a espiritualidade ecológica como contribuição ao futuro da Vida. Ali pude constatar que resgatar a sacralidade da Terra não é apenas uma questão teológica e sim a necessidade urgente de defender a vida ameaçada. A solidariedade com a Terra e a natureza é um desafio teológico e espiritual, mas é antes de tudo uma questão de vida. Em um tempo n qual a Política internacional está em mãos de governantes como Bush, a Economia comandada pelo Banco Mundial, é compre- ensível que as pessoas se perguntem que contribuição as religiões e tradições espirituais podem oferecer à humanidade neste esforço de transformar o modo de nos relacionarmos com a terra, a água e todos os seres do universo.
Cada dia, aumenta o número de pessoas que tomam consciência de que, para as religiões contribuírem efetivamente para garantir o futuro da vida, é fundamental que sejam humildes e abertas ao diálogo com a ciência atual. Em poucos anos, a ciência passou por um desenvolvimento maior do que toda a evolução científica de vários séculos. As ciências atuais são marcadas pela interdisciplinaridade. A Cos- mologia procura um paradigma mais holístico na abordagem da natureza e das relações entre o ser humano e o universo. O universo aparece como um complexo conjunto de possibilidades múltiplas e indeterminadas.
As pesquisas mais recentes descobriram que os organismos vivos são sistemas abertos, se mantêm vivos e crescem em vitalidade, na medida em que continuam aprendendo. Aquilo que chamávamos de contágio existe para doenças, mas também como multiplicação da vida, como forma da vida se reproduzir. A imunidade de cada ser é necessária, mas é extremamente relativa e frágil. Um sistema capta do outro os dados da vida, aprendendo o segredo da vitalidade. Os sistemas da vida são interdependentes e relacionáveis. Esta espécie de diálogo entre os seres vivos sig- nifica que há uma comunidade da Vida. Pode se dizer: A vida ‘se gosta’ natural- mente. Existe um nexo profundo entre dinâmica da vida e dinâmica do prazer. Por isso, a prazeirosidade é um aspecto importante da aprendizagem e da vida. Isso terá conseqüências profundas para caminhos de espiritualidade que sempre descon- fiam do prazer como pecaminoso e insistem mais na tristeza e na dor do que no direito à alegria. Alguns grupos orientais e as religiões afro e indígenas têm muito a nos ensinar.
No Fórum da Espanha, participei de uma palestra do padre Juan Massia, jesuíta es- panhol, especialista em Bioética a quem jornalistas e participantes crivaram de questões sobre clonagem, células-tronco e até sobre o direito das pessoas usarem preservativos para evitar doenças sexuais transmissíveis. Ele insistiu em uma espiri- tualidade do diálogo, no qual todos se disponham a dialogar sem pretender possuir a verdade. Todos têm direito de ter suas convicções, mas estas se expressam não por princípio de autoridade e sim por argumentos a serem discutidos. O diálogo entre pessoas que pensam diferentemente é como uma continuidade na vida huma- na deste sistema impresso na natureza de um aprendizado mútuo e permanente. Nossas certezas por mais firmes que sejam não valem independentemente da rela- ção humana e da solidariedade. A Bíblia já nos diz que a verdade e o amor se abra- çam. Se não, não seriam verdade nem amor.
As tradições espirituais podem sim nos ensinar a reorganizar nossos valores mais profundos e optar por um estilo de vida que não comprometa o futuro da Terra. A conversão a Deus que as religiões propõem se concretiza também em uma conversão muito profunda e cotidiana ao cuidado solícito com a casa comum e com todos os seres que a habitam. Assim, daremos impulso ao desabrochar das melhores promes- sas. Então, atravessaremos a noite e firmaremos no mundo uma cultura não violen- ta, um modo de viver construtivo e sociedades nas quais a compaixão seja um idi- oma comum. Para além do deserto, sempre há um caminho, uma vida com futuro.
ilustração de Pulika[1] topo