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A ONU e a vocação do Brasil
Marcelo Barros [1] |
M.Paz |
Goiânia faz aniversário na mesma data da ONU. Isso é indício da vocação universal da nossa querida cidade, chamada a ser cada vez mais inclusiva e cosmopolita. A Organização das Nações Unidas, mais nova do que Goiânia, precisa urgentemente de uma renovação, para continuar exercendo sua missão de paz neste mundo dividido e conflituoso.
Há menos de um mês, (29 de setembro), a ONU encerrou a sua assembléia geral, desta vez, dominada pelos conflitos que ferem o Oriente Médio e o Sudão (África), como também pela homenagem ao seu Secretário geral, Kofi Annan que se despede do cargo. No seu discurso de abertura, o secretário-geral lembrou os três maiores desafios indicados na Assembléia de dez anos atrás: uma economia mundial injusta, as desordens mundiais e o desprezo aos Direitos Humanos. Constatou que estes problemas persistem e se agravaram. Concluiu: "Estas divisões ameaçam a noção mesma de comunidade internacional, sobre a qual esta instituição está fundamentada". Reconheceu que as relações internacionais não são responsabilidade apenas dos Estados e governos, mas também dos povos e da sociedade civil. Afirmou que "todos devem assumir seu papel numa verdadeira ordem mundial multilateral, com uma ONU dinâmica e renovada no seu centro".
Kofi Annan qualificou o conflito no Oriente Médio como o maior desafio à segurança e à paz mundiais. Alertou para a necessidade de respeito às resoluções do Conselho de Segurança, cuja imparcialidade não pode ser posta em questão. Lembrou que a guerra no Darfur, (Sudão) é, atualmente, o conflito mais sangrento. Desde fevereiro de 2003, já fez mais de 200.000 mil mortos e 2 milhões de deslocados. E a imprensa sequer noticia esta guerra, nem a ONU consegue impedir a continuidade do massacre. Finalmente, pediu a criação de uma organização da ONU para o meio ambiente, para combater "o lento suicídio coletivo da humanidade".
É impossível não concordar com estas palavras ou não torcer para que o novo secretário geral já eleito, o sul coreano Ban Ki Moon, continue este trabalho. Entretanto, é sabido que a ONU não tem força legal para fazer com que suas decisões sejam cumpridas. Por isso, dificilmente estes discursos se concretizarão em mudanças efetivas.
Quase no mesmo período em que se reuniu a assembléia geral da ONU, reunia-se em Havana a mais importante organização mundial depois da ONU: o Movimento dos Países não-Alinhados. Nascido em 1961, no contexto das lutas de libertação dos países do Terceiro Mundo, esta organização conta, hoje, com 118 países, quase dois terços de todos que compõem a ONU. Este fórum mais independente expressou apoio e solidariedade aos caminhos novos e autônomos trilhados pela Bolívia e pela Venezuela. Pronunciou-se mais uma vez contra o embargo norte-americano a Cuba e a favor de que o governo dos EUA restituam imediatamente a Cuba o território de Guantânamo que os EUA invadiram e ocupam militarmente até hoje, sem qualquer justificativa legal. Condenou as ações de Israel contra o Líbano e contra a Palestina e defendeu o direito do povo porto-riquenho à sua livre determinação e independência em relação aos EUA. Manifestou apoio à política externa brasileira que conseguiu evitar a dependência do comércio norte-americano, aprofundar os laços entre os países da América do Sul e, pela primeira vez, suscitar relação de parceria cultural e comercial com países da África e da Ásia.
Um mês depois destes acontecimentos, o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras recoloca duas propostas de integração internacional que, em nada, se parecem. É importante que o presidente eleito, quem quer que seja, assuma esta vocação do Brasil para a construção da pátria latino-americana comum.
O atual governo brasileiro tem lutado para que o Brasil tenha um lugar no Conselho de Segurança da ONU. Entretanto, isso não transforma em si a realidade nem brasileira nem mundial. A orientação de solidariedade e de independência de sua política externa, sim, é mais coerente e deve continuar.
Além do tipo de orientação política do Estado brasileiro, neste segundo turno das eleições presidenciais estão em jogo dois projetos de Brasil e de mundo. A escolha de um ou de outro presidente, pode representar um apoio à integração latino-americana ou acarretar o isolamento do nosso país como súdito dócil do governo Bush. Continuar a atual política externa do Brasil é favorecer a vida e o destino de milhões de pessoas em todo o continente, meta da chamada "revolução bolivariana". Mesmo com muitas contradições - comuns em todo movimento de massa - e com as fragilidades próprias de um processo novo e emergente, há uma revolução social em curso que respeita totalmente os elementos da cultura e as instituições democráticas de Estado. Opta sempre pela ação não-violenta e, através de meios democráticos, ensaia em nosso continente uma nova ordem internacional mais justa e solidária.
[1] - Marcelo Barros, monge beneditino e autor de 30 livros, dos quais o mais recente é "Dom Helder, profeta para os nossos dias", Goiás, Ed. Rede da Paz, 2006.
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