O grito dos excluídos
e a Vale do Rio Doce

Marcelo Barros
Voltar Home

Em todos os recantos do Brasil, quem perguntar às pessoas da rua o que sabem sobre a Vale do Rio Doce, certamente, a maioria recordará a bela e eficiente publicidade da empresa, vinculada, em horário nobre, pela Globo, com a credibilidade da imagem sempre simpática de ninguém menos do que Fernanda Montenegro.

Por esta propaganda, todos ficam sabendo que se trata de uma das empresas mais importantes e eficientes do país, uma das maiores mineradoras do mundo, responsável por um alto eficiente de exportação e geração de divisas, além de garantir milhares de empregos, preservar a natureza e cuidar do ambiente.

O que a propaganda da televisão não conta e só uma minoria de brasileiros sabe é que esta maravilhosa empresa, tão rentável e eficiente, foi vendida através de leilão, em 1997, durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. A Vale foi privatizada por 3,1 bilhões de reais (cerca de 1,44 bilhão de dólares). Ora, de acordo com os estudiosos e analistas, o seu valor era estimado em 40 bilhões de reais (18,6 bilhões de dólares). Para quem comprou, a venda foi um presente do povo brasileiro. Basta dizer que já no primeiro ano de funcionamento pós-privatização, o lucro da Vale do Rio Doce foi de quase 10 bilhões de reais (4,65 bilhões de dólares).

Desde que a venda foi efetuada, a imprensa veiculou denúncias de irregularidades jurídicas e suspeitas de corrupção. Conforme carta dos bispos católicos encarregados na CNBB da justiça e da paz, (17/08/2007), o leilão de privatização está sendo julgado pelo Judiciário, mobilizado por mais de 100 ações que contestam a sua legalidade. Segundo Luiz Basségio, secretário do Serviço Pastoral dos Migrantes, em dezembro de 2005 o Tribunal Regional Federal, de Brasília, acatou ação judicial reconhecendo que a avaliação do valor da venda da Companhia Vale do Rio Doce foi errada e que, juridicamente, seria possível anular o leilão.

Como definiu Dom Luciano Mendes de Almeida, em audiência pública, pouco antes do leilão de 1997, esse ato não foi ético. Dizia ele: "Ninguém pode vender uma empresa como a Vale do Rio Doce, sem ter antes informado ao povo sobre o seu valor real, o seu significado histórico, cultural, político... Ninguém pode vender o chão do país.... Esta é uma transação que toca na herança de todo um povo... Não pode ser feita sem informar, formar e consultar o próprio povo".

Por isso, exatamente dez anos depois do tal leilão, a coordenação de movimentos populares, assim como organismos de pastoral da Igreja Católica e o CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) decidiram que o Grito dos Excluídos de 2007, evento que, anualmente ocorre por ocasião das comemorações da independência do Brasil, terá como tema o pedido de anulação do leilão da Vale do Rio Doce. Os movimentos sociais, envolvidos no Grito dos Excluídos, querem dedicar as manifestações populares, caminhadas e atos públicos que se realizarão por ocasião da data da independência (07 de setembro) para realizar um grande Plebiscito Popular pela Anulação do Leilão da Vale do Rio Doce.

Este 13º Grito dos Excluídos conta com o apoio das oito Igrejas cristãs reunidas no CONIC e com a aprovação de muitos setores da sociedade civil internacional que, de forma horizontal e espontânea, participa no processo do Fórum Social Mundial. E não será a primeira vez que estes setores do movimento social e das igrejas realizam um plebiscito popular sobre alguma iniciativa que tenha reflexos na vida da nação. Em 2002, também durante a Semana da Pátria, foi realizado o plebiscito sobre a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que recolheu 10 milhões de votos. A maioria absoluta dos votos foi contra a inserção do Brasil nessa proposta liderada pelos Estados Unidos que, afinal, está sendo superada por uma proposta mais latino-americana e justa para os nossos povos (ALBA).

Este atual plebiscito sobre o leilão da Vale do Rio Doce é um tema mais difícil ainda porque, além de exigir informações históricas e técnicas das pessoas envolvidas, o comum das pessoas tem dificuldade de perceber que o bem comum lhe diz respeito. Os mais pobres estão tão mergulhados nos desafios imediatos da sua sobrevivência cotidiana que não se interessam em debater falcatruas no governo da época. De qualquer forma, o Plebiscito terá um grande valor pedagógico. Mostrará que é direito de todo o povo ser informado sobre assuntos como este. Sinalizará um profundo respeito a todos os brasileiros e um crédito de confiança na capacidade da parcela mais excluída da população manifestar-se sobre isso.

O tempo para esta campanha é breve e os métodos usados para mobilizar a população, na maioria das vezes, ainda parecem mais adequados a minorias intelectuais do que à grande massa. Passeatas, comícios e palavras de ordem são instrumentos políticos que herdamos das mobilizações históricas da esquerda clássica. A experiência mostra que precisam ser revistos à luz da cultura cibernética das gerações mais jovens, como também de uma sensibilidade mais lúdica e de comunicação horizontal, cada vez mais desenvolvida nas cidades.

O fato de enriquecer o 07 de setembro com manifestações populares organizadas e pedagógicas tem o mérito de não deixar que a independência do Brasil pareça ser tarefa militar e armamentista, como pareciam indicar os desfiles tradicionais desta data. Além disso, mesmo se a anulação do leilão da Vale do Rio Doce seja pouco imediato para o povão e o objetivo difícil de ser concretizado, a coragem de traduzir um tema como este para a maioria dos brasileiros e de transmitir a convicção de que todos os brasileiros podem contribuir para mudar o país, é um ensaio concreto de democracia participativa, o que a maioria da humanidade aspira.

Quem tem a opção de fazer da vida um caminho espiritual sabe que toda a história do povo bíblico começou por um grito dos Excluídos. Um grito que escutou uma resposta. Segundo o livro do Êxodo, de um arvoredo incandescente no deserto, Moisés escutou a voz que dizia: "Eu ouvi o grito do povo, vi a opressão que sofre e desci para libertar" (Ex 3, 7).

Volta ao topo