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África, Brasil, história e futuro
Marcelo Barros ( 1 ) |
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M.Paz |
Na Cidade de Goiás aconteceu neste final de semana, o
2o Encontro afro-goiano, feliz iniciativa do SEBRAE que resgatou a
riqueza humana e social das culturas afro-descendentes. O encontro contou com
mais de mil participantes, vindos de muitos municípios do Estado e com
representantes de outros Estados brasileiros. Quem por aqui andou nestes dias,
sentiu na Serra Dourada o cheiro saboroso da Mãe-África.
Não parece, mas a solidariedade com a África pode ser o assunto internacional mais importante desta semana. Em assembléia geral, a ONU consagrou 25 de maio como “dia da libertação da África”. O seu secretário geral é africano e sabe que sem tratar da África com mais justiça, a Europa continuará sendo invadida por massas de africanos em busca de melhor vida e nenhum país do mundo terá paz. Infelizmente, as agências de notícia só dão notícias da África se ocorre algum tsunami ou quando, nas guerras que devastam países do continente mais do que qualquer ciclone natural, é morto algum europeu ou norte-americano.
O Brasil tem uma dívida histórica e cultural com os povos africanos, como uma imensa familiaridade de gostos, músicas, comidas e jeito de ser. Da população brasileira, 47% – quase a metade – é constituída de afro-descendentes. Por isso, para todos nós, refazer relações mais solidárias com a Mãe África é nos relacionar com nossas raízes e resgatar nossa história. Há décadas, pessoas saem da Bahia, de Minas e do Maranhão e, no lugar de correrem à “América”, como sugere a novela global, viajam à África. Muitos vão para reencontrar raízes e parentes. Alguns ficam morando na Nigéria ou no Daomé. O presidente Lula é o primeiro estadista brasileiro a privilegiar a relação com nações africanas. Até aqui, ele já visitou mais países do continente do que todos os seus antecessores juntos. Ao invés de considerar os interesses financeiros do país como motivo principal das relações internacionais, ele visita também e com freqüência países mais pobres do que o Brasil. Tem construído entre latino-americanos e africanos, uma rede internacional de solidariedade que pode se constituir, na ONU e em outros organismos internacionais, como importante força moral e política.
Em extensão, a África é o terceiro continente do mundo. Conforme as pesquisas mais atuais, ali surgiu a vida humana. Encontraram-se vestígios de presença humana que remonta a mais de um milhão de anos. Algumas culturas e religiões africanas, cujas tradições geraram cultos afro-brasileiros, remontam a cinco mil anos e até hoje, orientam a vida de muitas pessoas e comunidades. Entretanto, apesar de toda esta riqueza histórica e cultural, a África continua vítima de uma relação internacional iníqua.
A situação do continente é trágica. No Sudão, calculam-se que só em 2004, a guerra deixou mais de 50 mil mortos e 1, 6 milhões de refugiados e exilados (Cf. Nigrizia, janeiro de 2005, p. 8). A hostilidade entre hutus e tutsis que provocou o genocídio de mais de 2 milhões de pessoas em Ruanda (1994), continua nas fronteiras do Congo, Angola e Ruanda. Durante 2005, dez países africanos terão eleições presidenciais e nove eleições parlamentares, mas a democracia ainda é quase inexistente. Conflitos armados e guerras declaradas ferem o continente. Na maioria dos países, a água é um bem raro, a fome assola regiões inteiras e a AIDS ameaça a vida de milhões, entre elas muitas crianças.
Isso não ocorre porque a África seja pobre. Ao contrário. Tem riquezas naturais que encantam turistas e recursos minerais como petróleo e pedras preciosas. Seus habitantes são inteligentes, criativos e trabalhadores. Mesmo com adversidades climáticas e em terras pobres, os africanos viveram bem durante milhares de anos até que chegou o homem branco. Os colonizadores tomaram o governo e as terras da África, roubando tudo o que podiam. Durante séculos, utilizaram os africanos para fazê-los trabalhar gratuitamente, e se apossaram de suas minas e riquezas. Em três séculos, a África perdeu 60 milhões de habitantes devido ao tráfico de escravos. Destes, só 15 milhões chegaram vivos ao destino. Enquanto isso, na própria África, os europeus se apossavam de tudo e dominavam as populações sobreviventes.
A partir dos anos 50, os países africanos conseguiram a independência política. Entretanto, os colonizadores impuseram fronteiras artificiais que deram origem aos novos países. Separaram grupos humanos pertences às mesmas tribos, com dialetos e costumes comuns; e mantiveram, através de legislação imposta aos novos governos, a hegemonia européia. Isso gerou violento processo de segregação racial na qual o africano é considerado inferior em sua própria pátria. As conseqüências são guerras, massacres, genocídios entre os próprios africanos. E uma estrutura social injusta: no Zimbábue, por exemplo, 2% da população branca detêm a quase totalidade das terras e da economia.
Libertar a África e contribuir para um mundo mais justo e humano exige de nós reinverter as distâncias mentais e culturais. Até hoje, é mais fácil encontrar brasileiros que sabem o nome dos rios da França, das praças de Londres e das cidades da Itália do que de qualquer país ou cidade da África. Poucos brasileiros sabem que Yaoundê, a capital da República de Camarões, é parecida com muitas de nossas cidades do interior do nordeste. A maioria nunca ouviu falar em Abdijam, cidade que olha para Recife do outro lado do Oceano, mais ou menos, na mesma latitude, com o mesmo clima e muitos problemas semelhantes. Mas, os pernambucanos foram formados escutando que Recife é a “Veneza brasileira”. A referência é sempre a Europa, branca e rica. No Brasil, quem sabe aonde fica Darfur, Kartoum ou Dar es Salaam?
A urgência disso não é apenas aprender geografia, mas descobrir que temos muita coisa em comum e, se nos unirmos, fica mais fácil vencermos.
Uma das fortalezas nas quais eram aprisionados os escravos para ser embarcados ao Brasil fica em Gana. Na parede do forte, permanece uma inscrição dos chefes ganeses: "À memória eterna da angústia de nossos ancestrais. Que aqueles que morreram descansem em paz. Que aqueles que regressarem encontrem suas raízes. Que a humanidade nunca mais cometa semelhante injustiça contra a humanidade. Nós, os vivos, juramos não faze-lo". Diante de um continente inteiro que, hoje, morre à míngua, como conseqüência da barbaridade cometida ontem e hoje, não basta não repetir o tráfico. É preciso combater suas raízes: o racismo e a injustiça social.
Na abertura do 2o Encontro Afro-goiano,
diversas autoridades ressaltaram que não basta viver o momento atual. É
importante resgatar o passado. A população brasileira salva a si mesma ao
abraçar e solidarizar-se com a Mãe África.
| [1] - Marcelo Barros, monge beneditino e autor de 27 livros, dos quais os romances: “A Noite do Maracá” e "A Festa do Pastor" (Ed. Rede da Paz). Email: mosteirodegoias@cultura.com.br |
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