|
O papel da ONU e o aniversário de Goiânia
Marcelo Barros |
M.Paz |
|
Goiânia aniversaria no mesmo dia em que a ONU foi fundada. E uma cidade existe como ponto de convivência das pessoas e para tornar a vida comum mais solidária e feliz. A Organização das Nações Unidas também foi criada em 1945 para substituir a Liga das Nações e promover a paz do mundo e a convivência solidária entre os povos. Em poucas décadas, Goiânia reafirmou sua vocação cosmopolita e pluricultural de ponto de convergência de brasileiros de todas as regiões e estrangeiros de todo o mundo. Em suas ruas é possível saborear a tapioca dos nordestinos, o açaí dos paraenses, o churrasco dos gaúchos ou o yakissoba dos japoneses. Há muitos desafios como melhorar o seu débil sistema de transportes coletivos e, mais urgente ainda, fortalecer uma cultura de paz que supere a insegurança no trânsito e a violência em suas ruas e bairros. Para desejar feliz aniversário à ONU, os desafios são ainda maiores e mais complexos. Até aqui, as tentativas de reforma tem falhado. Se poucos ignoram o papel da ONU todos sabem que nenhuma organização internacional pode cumprir sua função, enquanto o governo dos Estados Unidos age como se o mundo fosse um imenso tabuleiro de WAR onde é preciso usar os artefatos de guerra que as multinacionais produzem e precisam vender. A sociedade civil internacional teme que o governo dos Estados Unidos inicie uma nova guerra, desta vez contra o Irã. O vice-presidente Richard Cheney e os seus aliados no Pentágono querem, a todo custo, bombardear o Irã. Condolezza Rice, secretária de Estado, comanda antes a desestabilização do governo dos aitolás, fornecendo armas e apoio econômico a grupos rebeldes das fronteiras. Embora continue propagando que combate terroristas, a imprensa internacional européia denunciou que Bush sustenta no Iraque 1200 soldados da sociedade privada Blackwater, especializada em matar suspeitos e semear o pânico, (Cf. Revista Internazionale, 19/10/07, p. 42). No Irã, a cada semana, ocorrem incursões clandestinas de grupos armados ligados a Israel, como os curdos do norte estão sendo armados e atiçados contra os iranianos. Tudo para provocar um ataque iraniano a Israel e, assim, justificar o ataque dos Estados Unidos ao Irã. Jornais como o Il Manifesto (Roma, 4ª feira 17/10/07) e Le Monde Diplomatique (outubro de 2007) trazem matérias claras sobre este assunto. O próprio ministro do Exterior dos EUA, Bernard Kouchner, ao falar da relação com o Irã, declarou: "É preciso nos preparar para o pior!". E depois explicou aos jornais que este pior ao qual se referia é a nova invasão dos Estados Unidos ao Irã. Por enquanto, a razão invocada para invadir o Irã é o fato de que este desenvolve armas nucleares. Em um artigo claro e sucinto, o escritor Noam Chomsky argumenta que, de fato, fabricar e estocar armas nucleares é crime. O artigo 6 do tratado de não proliferação nuclear, assinado por 46 países, impõe aos Estados que assinaram (o Irã não assinou) sanções pela desobediência a este acordo da ONU. Ora, o primeiro país a desobedecer ao tratado e a continuar produzindo armas nucleares é exatamente os Estados Unidos. Pior ainda: ao mesmo tempo que ameaça invadir o Irã por este motivo, Bush assina um acordo com a Índia para financiar seu programa nuclear e apóia abertamente o programa de armas nucleares do Paquistão e de Israel (Internazionale, 19/10/07, p. 17). Infelizmente, os representantes da ONU sabem de tudo isso e nem se dão ao trabalho de protestar ou de afirmar publicamente sua contrariedade. Em Darfur e em outros locais da África, existe a prática pública e conhecida da venda de crianças como escravas e a ONU não faz nada para impedir. Governos sanguinários cometem sucessivos massacres da população civil e a ONU parece indiferente. A sociedade civil internacional pede uma renovação dos estatutos da ONU dando participação na mesa de debates não só às autoridades dos Estados, mas ao voluntariado internacional e à sociedade civil. Neste inicio de outubro, em Perúgia (Itália), durante vários dias, a "ONU dos povos" realizou mais uma "Mesa da Paz" e reuniu em Terni, cidade da Úmbria, perto de Assis, uma ONU dos jovens com a presença de mais de 700 rapazes e moças de todo o mundo. O tema deste ano era "Todos os direitos para todos os seres humanos". O objetivo desta iniciativa que começou no início dos anos 90 é favorecer um diálogo entre a ONU e a sociedade ali representada. Infelizmente, este diálogo ainda não foi possível. Nenhum dos responsáveis pela ONU se interessou em escutar os jovens ou conversar com os representantes da sociedade civil reunidos em Perúgia. Como iniciativa do voluntariado e de organismos civis consagrados à paz, esta ONU dos povos não tem como garantir a viagem de participantes de diversos continentes. Por isso, apesar da vocação internacional, ainda é muito italiana e européia. Desta vez, descobriu-se que a iniciativa começa a suscitar fóruns semelhantes em outras partes do mundo. Na capital da Guatemala, apenas restabelecida de ataques violentos que assassinaram 62 pessoas por ocasião das recentes eleições presidenciais, jovens de 18 a 25 anos ensaiaram por um final de semana um encontro da ONU dos povos. Quem sabe, Goiânia, nascida no mesmo dia da ONU e cada vez mais plural não possa, no Brasil, preparar um evento semelhante entre adultos e jovens e ser para todo o país referência de diálogo e convivência de um urbanismo novo e poliglota? Certamente, o primeiro passo para isso é incentivar em cada goianiense este espírito de mundialidade, conforme o qual tudo o que é humano e que acontece com a humanidade e com o planeta Terra nos diz respeito e nos mobiliza. No sentido original do termo, católico quer dizer (cathos holos), universais, como é o Espírito Divino, o Amor. Que comece entre eles esse exercício que é vocação de todas as tradições espirtuais. Goiânia, como toda sociedade internacional, merece este presente. |