A esperança possível de um mundo renovado
Marcelo Barros
M.Paz

Engravidar a realidade com a expectativa de um mundo melhor faz parte da vocação humana. É essa místíca que será fortalecida pelas mais de 100 mil pessoas de todos os continentes e das mais diversas culturas que se reúnem nestes dias (de 20 a 25 de janeiro) em Nairobi, capital do Quênia, no 7º Fórum Social Mundial. Infelizmente, a maioria dos meios de comunicação, que dão destaque a qualquer Big Brother da vida, não se interessam muito em acompanhar este processo. O Fórum traz novidades desde a sua organização que reúne desde intelectuais e políticos de destaque, até os mais pobres do mundo, como os dalits da Índia, até hoje, considerados "impuros" e os representantes de tribos africanas que lutam para sobreviver a séculos de colonialismo. O Fórum Social é espaço de discussão e integração entre organizações e movimentos que buscam outra forma de organizar o mundo. Não tem poder de decisão, mas o povo boliviano que, pela primeira vez na história, tem um índio como presidente da República e vários outros países da América Latina que vivem um caminho social e político novo sabem que, dificilmente, isso teria sido possível sem o processo que os fóruns sociais desencadearam no mundo.

Desde 2001, o Fórum Social Mundial tem atraído e dado melhor visibilidade às ações alter-mundialistas, buscado alternativas à globalização neoliberal em seus aspectos, econômicos, políticos, sociais e culturais. Iniciativas de economia solidária, de comércio alternativo e de cooperativas mais igualitárias têm se multiplicado e revelado uma eficácia surpreendente. O fato do prêmio Nobel da Paz de 2006 ter sido dado a Muhammad Yunus, pioneiro do micro-crédito, revela que a sociedade internacional começa a reconhecer o valor deste tipo de ação. O Banco dos pobres começou na década de 70, mas sua experiência se tornou mundial a partir dos fóruns sociais.

O Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES) e o Faces do Brasil, em conjunto com várias entidades, redes e empreendedores, bem como instâncias internacionais como a Rede Intercontinental de Promoção da Economia Social e Solidária (Ripess), estão em Nairobi, como caravana da economia solidária. Coordenam a oficina "Comércio Justo e Economia Solidária no Brasil". O objetivo é apresentar as muitas experiências que já existem neste campo e propor que, a partir de uma articulação maior entre entidades da sociedade civil e o governo, se crie uma política pública de apoio ao desenvolvimento de cadeias comerciais alternativas.

O Fórum Social tem também aprofundado a urgência sentida por muita gente de criar novas formas de "fazer política", mais de acordo com a realidade do mundo atual. Uma Política baseada na diversidade cultural e que valorize as diversas visões de mundo, assim como as múltiplas perspectivas de futuro. Esta nova forma de fazer política assume o diálogo entre os diferentes como instrumento para a construção de planos de ação e agendas coordenadas de lutas e propostas.

É muito importante que este 7º Fórum esteja se realizando no coração da África negra. Ele desvenda para todo mundo a realidade terrível de sofrimentos e injustiças que os povos africanos continuam a sofrer, desde que, no século XV, o Ocidente começou a colonizá-los. Vindos da Europa e da América, os brancos souberam atiçar as rivalidades entre chefes tribais e, assim, puderam melhor roubar os bens naturais e explorar as riquezas minerais do continente. Milhões de africanos foram escravizados. E até hoje, as potências ocidentais levam da África diamantes, petróleo e outras riquezas, deixando para os negros várias guerras assassinas e uma miséria sempre maior. A rica diversidade de crenças, culturas, línguas e religiões que nasceram e florescem em terras africanas é desconhecida e desprezada. Ao se realizar no Quênia, o 7º Fórum Social Mundial viabiliza o encontro de organizações, movimentos, militantes, ativistas e pessoas de todas as regiões do mundo com os movimentos sociais e comunidades da África. É um momento histórico, tanto para as lutas de resistência no continente africano, como para o processo dos fóruns sociais.

O território geográfico do Fórum está sendo o Centro Internacional de Esportes Kasarani de Nairobi, grande complexo esportivo, próximo a áreas populares e também vizinho de universidades, por onde cotidianamente trafegam milhares de jovens. Ali se implantou o acampamento internacional da juventude que, durante quase uma semana, faz conviver jovens vindos de todos os quadrantes do mundo. Mesmo com a confusão das línguas, é importante perceber que todos conseguem se entender e participar do caminho para transformar o mundo.

. As atividades do FSM se dão em torno de nove objetivos gerais, definidos a partir de uma ampla consulta às organizações e movimentos internacionais que prepararam este fórum. Cada participante pode escolher um entre nove eixos temáticos de trabalho para as reuniões e atividades do Fórum. Um primeiro eixo temático reúne tudo o que tem como meta a construção de um mundo de paz, justiça, ética e respeito pelas espiritualidades diversas. Outro eixo visa a libertação da opressão exercida pelas multinacionais e pelo capital financeiro. Um terceiro aprofunda o acesso universal e sustentável aos bens comuns da humanidade e da natureza. O quarto trata da democratização do conhecimento e da informação. O eixo 5 versa sobre a dignidade, diversidade, garantia da igualdade de gênero e eliminação de todas as formas de discriminação. O 6º aprofunda os direitos econômicos, sociais, humanos e culturais, especialmente direito à alimentação, saúde, educação, habitação, emprego e trabalho digno. O 7º eixo aborda a construção de uma ordem mundial baseada na soberania, na autodeterminação e nos direitos dos povos. O 8º eixo é pela construção de uma economia centrada nos povos e na sustentabilidade. No 9º eixo se reúnem as pessoas que trabalham diretamente para a construção de estruturas políticas realmente democráticas, com maior participação da população nas decisões e controle dos negócios e recursos públicos.

Cada eixo temático reune milhares de pessoas em diversos seminários, oficinas e encontros auto-gestados. Elas começaram no domingo passado, segundo dia do fórum, já que a tarde da véspera foi dedicada a uma grande e festiva caminhada pelas ruas da cidade que culminou com um show de Martinho da Vila, muito popular na África. A marcha até o Parque de Uhuru, no centro de Nairóbi foi a caminhada da esperança. A maioria dos participantes vem ao fórum para fortalecer a utopia de que é possível mudar a forma de organizar o mundo e a vida. Eduardo Galeano conta a história do homem que dizia à Utopia: "- Eu me aproximo de ti um passo e vejo que te distancias dois. Dou um passo a mais e vejo que te distancias mais dois. Para que serves, então?". A Utopia respondeu: "Para te fazer caminhar".

 

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