Mulheres a mil
Marcelo Barros e Thania Coimbra[1]

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M.Paz

Algumas idéias valem por elas mesmas e não é o caso dessa. Poucas iniciativas nestes tempos reúnem em si tanto de criatividade e esperança: propor um prêmio coletivo para uma láurea com o peso do Nobel da Paz. Esta idéia lhe parece absurda ou maluca? Afinal, não raras vezes, ninguém no mundo inteiro foi considerado digno de receber este prêmio. Mudou o prêmio ou o mundo?

Em uma cultura que cultiva e reverencia a individualidade e o heroísmo solitário e onipotente, é um contraponto saudável–e político com P maiúsculo - propor que não uma, mas mil pessoas ganhem o Nobel da Paz. Não é essa uma maneira engenhosamente simples de premiar o coletivo de toda a humanidade que repudia as guerras e os atos terroristas? E mais, pela forma discreta e laboriosa como a iniciativa se enreda - superando barreiras lingüísticas, culturais e étnicas, se esquivando de interesses partidários - e com um sentido prático de fortalecer essas rendeiras da paz, não é o próprio prêmio que é oxigenado? Ou de outro modo, na medida que se desnuda que a ordem econômica do mundo se estrutura como uma grande engrenagem, em si mesma terrorista, se tomada como sinônimo de iniciativas que destroem a justiça e impedem a vida para seus semelhantes, a mística do Nobel da Paz não é atualizada quando se constrói – de dentro- uma premiação altermundista?

Desde 1901, o Prêmio Nobel da Paz, assim como os outros cinco prêmios dados a quem se distinguiu nas áreas de Física, Química, Literatura, Medicina e Ciências Econômicas, a cada ano, privilegia grandes personalidades que, em suas áreas, são responsáveis por invenções e obras que verdadeiramente tenham contribuído com a humanidade no campo científico ou na literatura. No que diz respeito ao Nobel da Paz, o Comitê Nobel da Noruega, cujos membros são nomeados pelo Parlamento da Noruega, devem dar o prêmio, como recomendava o seu inspirador Alfred Nobel: “a quem, durante o ano, realizar a maior e melhor ação pela fraternidade entre as nações e se empenhar na abolição ou ao menos redução dos esforços de guerra e pela manutenção e promoção dos tratados de paz”. Ora, este ideal é tão elevado e vivemos de tal modo na cultura da guerra que ficamos com a impressão de que, ano a ano, temos de procurar heróis e pessoas excepcionais cujo protagonismo brilhe para toda a humanidade. Talvez, por isso, em anos diferentes, já quinze vezes na história, a Comissão não concedeu o prêmio a ninguém. Será que, naqueles anos, ninguém tinha se dedicado tanto à causa da paz que merecesse ganhar? O Mahatma Gandhi nunca ganhou este prêmio e só após ter sido assassinado tornou-se unanimidade mundial. 

Em 1953, o vencedor foi o General George Marshall, homem de guerra, secretário de Estado dos EUA e responsável pelo chamado Plano Marshall que investiu muito dinheiro norte-americano na recuperação econômica dos paises europeus que sofreram com a guerra e aceitassem a partir deste investimento manter-se sob a tutela do governo norte-americano. Em 1973, ganhou Henry Kissinger, também secretário do governo norte-americano, que, três anos depois, patrocinaria e apoiaria o sangrento golpe militar chileno para “acabar” com o governo eleito democraticamente de Salvador Allende que preferiu morrer do que comandar uma reação armada que mataria mais gente ainda. Ele nunca foi pensado para o Nobel da Paz. 

Na história dos prêmios, só onze mulheres foram contempladas. Tendenciosamente, líderes políticos e governantes acabam favorecidos nas candidaturas.

Desde o começo, o Nobel da Paz é diferente dos outros prêmios porque enquanto os demais são dados por iniciativas já concluídas e descobertas já finalizadas, o da Paz pode e tem sido dado a pessoas e grupos que não obtiveram ainda vitória, mas trabalham e se consagram à causa da paz. Isso nos confirma que a paz depende muito mais de ações cotidianas que criam uma cultura nova e permanente do que de atos espetaculares que brilham por um momento e depois se apagam. É, então, urgente superarmos uma visão histórica de heróis individuais e optarmos por um olhar participativo, plural e comunitário. Neste sentido, só podemos nos alegrar com a iniciativa da Fundação de Mulheres Suíças pela Paz de lançar o Projeto 1000 Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz 2005.

Esta iniciativa da Fundação de Mulheres Suíças pela Paz, presidida pela parlamentar Ruth-Gaby Vermot-Mangold, conta com a participação dos 225 países do mundo e pretende valorizar as ações coletivas e femininas em favor da Paz. O papel central das mulheres na construção da paz foi reconhecido pela ONU através da Resolução 1325 do Conselho de Segurança e por outras organizações e governos. A equipe do projeto espera que o Prêmio Nobel da Paz 2005 seja um reconhecimento do trabalho destas mulheres e, dando a elas apoio internacional, sirva de incentivo para toda a humanidade. As coordenadoras do Projeto 1000 Mulheres para o Prémio Nobel da Paz 2005 trabalharam, em 225 países, para viabilizar a coleta de nomes de mulheres com ações ligadas aos Direitos Humanos, sustentabilidade e desarmamento. As vidas dessas operárias da Paz foram documentadas em vídeos e filmes, em áudio e em texto. Seus trabalhos serão analisados por pesquisadores em todo o mundo e utilizados no estudo sobre conflitos e processos de paz.

                   No Brasil, sob a coordenação de Clara Charf – militante política, feminista de larga bandeira e com a jovialidade de 78 anos bem vividos, são indicadas 31 mulheres com vidas marcadas pela luta contra a desigualdade e a violência e pelo cumprimento dos Direitos Humanos e por uma sociedade mais justa. Uma exaustiva consulta permitiu apontar mulheres que estejam contribuindo para a paz e a justiça no mundo, não apenas doutoras nem líderes políticas, mas mulheres simples e até anônimas, pois estas são exatamente as que poderão fazer com que, um dia, a humanidade venha a viver de tal maneira que soe estranho que alguém mereça o Nobel da Paz.

 Divulgar um pouco mais esta iniciativa do Projeto 1000 Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz 2005 é nossa maneira de celebrar o Dia Internacional da Paz. Em 1982 a Assembléia Geral da ONU aprovou a resolução nº 36/67 que aprovava a celebração de um Dia Internacional da Paz, comemorado pela primeira vez em 1982, coincidindo com o início da sua Assembléia Geral a cada ano. Ao completarem-se os 20 anos desta celebração, a mesma Assembléia Geral da ONU, fixou, a partir de 2003, uma data perene: o dia 21 de setembro.

                    Estabelecendo o Dia Internacional da Paz, a Assembléia da ONU propõe “concentrar numa data especial os esforços das Nações Unidas, e de seus estados membros, bem como de toda humanidade, para promover os ideais da paz e mostrar um sinal positivo do seu compromisso com a paz de todas as formas possíveis... de forma a fortalecer os ideais da paz seja dentro como entre todas as nações e povos”.

                    Que esta data possa vir a ser lembrada nas famílias e celebrada nas escolas e demais instituições, educativas ou não, como uma ocasião privilegiada de renovar o empenho das crianças, jovens, educadores, e cidadãos em geral, com a paz e não-violência.

 

 ilustração de Pulika

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