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A raiz negra do Brasil e a luta contra a escravidão
Marcelo Barros [1] |
M.Paz |
Esta semana é marcada pelo dia da união e consciência negra, celebrado no dia 20 de novembro de cada ano, aniversário do martírio de Zumbi dos Palmares, líder da resistência e libertação dos escravos, assassinado, em 1695, pelos donos de escravos e pelo exército que apoiava os senhores.
Desta vez, esta memória ocorre em um contexto muito particular. A escravidão não é uma monstruosidade do passado, da qual a humanidade tenha conseguido libertar-se definitivamente. Ao contrário, a escravidão continua a existir em todo o mundo, inclusive em países considerados desenvolvidos e do chamado "primeiro mundo", como a França, os Estados Unidos e a Itália. Na semana passada, em Roma, encerrou-se um encontro internacional de religiosos e leigos "mercedários", uma família de religiosos, religiosas e leigos, fundada em 1218 e que hoje atua nos quatro cantos do planeta. Conforme dados distribuídos neste encontro, no momento atual, mais de 270 milhões de pessoas vivem como escravos no mundo. São vítimas da mesma lógica iníqua que, durante três séculos e meio, roubou da África 60 milhões de pessoas, das quais apenas 15 milhões chegaram vivas à terra da escravidão. Do século XIX para hoje, a escravidão mudou muito de forma.
Atualmente, além da pura e simples servidão que existe em muitos países, somam-se chagas como o mercado florescente de tráfico de órgãos, a venda de crianças, a prostituição infantil, a exploração do trabalho infantil, a mutilação sexual de meninas, o uso de menores em guerras, a escravidão por dívidas e certas práticas coloniais de racismo.
No Brasil, onde não temos guerra, continuamos a aparecer no rol dos muitos países que ainda abrigam casos de escravidão. No campo, mas também em grandes cidades, o Ministério do Trabalho continua descobrindo centenas de pessoas sendo escravizadas. Mesmo com todo o trabalho do governo federal e de organizações como a Pastoral da Terra e de ONGs especializadas na luta contra a escravidão, como a "Repórter Brasil", principalmente no campo brasileiro, a estrutura escravagista continua forte. Ainda no mês passado, em Catalão, GO, os fiscais do Ministério do Trabalho libertaram 164 trabalhadores rurais mantidos como escravos em uma fazenda que é propriedade de um homem que tem como função principal ser educador, concretamente, reitor de universidade. Chegam aos cinemas o documentário Correntes, produzido e dirigido por Caio Cavechini e Ivan Paganotti. "Correntes" não se refere apenas às correntes utilizadas na antiga escravidão, mas à corrente de acontecimentos que se repetem na vida das pessoas simples do campo e que formam a espinha dorsal da narrativa do documentário. Além disso, o título do filme se refere também à corrente humana de solidariedade, formada por ONGs, líderes comunitários e grupos de fiscalização, corrente criada para lutar contra o problema da escravidão no Brasil.
Estas formas de escravidão atual atingem homens e mulheres, tanto negros, como índios e brancos. Entretanto, a maioria das vítimas da escravidão no campo e e a maior parte dos mais pobres no Brasil ainda são constituídos pela população negra. Por isso, celebrar a comemoração da união e consciência negra é simbólica e reúne todas estas lutas pacíficas para transformar o mundo.
Afinal, na realidade internacional, a escravidão toma rostos novos como os milhões de migrantes clandestinos no primeiro mundo e pessoas que vivem como prisioneiros políticos dos Estados Unidos em campos de concentração que recordam os campos nazistas. Na África, multidões continuam fugindo de guerras assassinas e, em Israel, os palestinos reprimidos pelo governo de Israel sofrem condições humanas semelhantes à pior escravidão. O jornalista israelense Gideon Levy denunciou que, nos primeiros dias de novembro, o exército de Israel assassinou 74 palestinos, entre homens, mulheres e crianças. Em uma aldeia, um pelotão de soldados matou friamente doze civis. O general israelense os felicitou dizendo: "Doze a zero para vocês!" (Cf. Internazionale 667, 10/11/2006, p. 5).
Organismos internacionais como a ONU observam esta terrível desvalorização da vida humana, mas não têm força para condená-la. A novidade única na conjuntura mundial é o fortalecimento de muitos grupos consagrados à paz e movimentos pela libertação dos mais pobres. A derrota de Bush e do partido republicano nos Estados Unidos contribui para esta mudança de conjuntura internacional. Na semana passada, no sul do México, homens e mulheres integrantes dos povos indígenas e camponeses sem terra formaram a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO) que está mudando os destinos do país. Em toda a América Latina, as populações rejeitam claramente o atual modelo econômico vigente. Ao mesmo tempo, os povos indígenas preparam para o início de dezembro um encontro internacional a favor da vida. Nesta semana de união e consciência negra, a história e as expressões atuais das culturas afros nos recordam de que para mudar esta realidade do mundo é importante desenvolver uma dimensão social e política não só nas grandes estruturas da sociedade, mas também nas opções de vida de cada pessoa. Só seremos coerentes com este movimento pela mudança social e política se, em nosso modo de ser, tanto em nossas relações de amizade e de trabalho, conseguirmos libertar o fundo de bondade, perdão e generosidade que existe no mais profundo do nosso ser. Quanto mais nos aproximamos das pessoas, mais nos damos conta das diferenças pessoais e das dificuldades de um diálogo profundo e transparente como caminho de comunhão. Entretanto, é importante ir além da nossa sensibilidade imediata. Na religião dos Orixás, há um costume significativo: durante o culto, as pessoas que saem da sala, para não dar as costas aos Orixás presentes nas pessoas, ao se aproximarem da porta, por um momento, caminham de costas, até sair. É uma atitude simbólica para nossas relações cotidianas: mesmo se nos forçamos a, como que, "andar de costas", reconhecemos a presença divina na outra pessoa, mesmo naquela que nos incomoda. Axé.
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