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Retrato
interior de uma família
Marcelo Barros |
M.Paz |
Este
é o título original de um filme da década de 70, dirigido pelo grande Luchino
Visconti, revelando as angústias de um professor, dividido entre o seu ambiente
mais doméstico e o universo profissional.
Não é por nada que a ONU consagrou o 15 de julho como o Dia Internacional da Família. É sinal de que não se resolverão os problemas dos povos e não chegaremos a relações políticas mais justas se não dermos atenção à crise que, no mundo inteiro, de forma diferenciada, afeta a família.
Trata-se de uma das instituições sociais mais
questionadas. A problemática que envolve a família tem suas causas em diversos
fatores sociais e culturais. Manifesta-se de forma mais clara nas sociedades
urbanas por causa das imensas transformações que o mundo atual tem vivido.
A família brasileira ganhou sua atual estrutura na história da colonização.
A sociedade européia trouxe o modelo patriarcal de família. Culturas indígenas,
mesmo com certos traços patriarcais, dividem de outra forma os papéis do homem
e da mulher na sociedade. Assim, contribuíram com certos aspectos de
sensibilidade mais matriarcal. Ao mesmo tempo, na sociedade tradicional
brasileira, o fato do homem ser “dono do mundo”, provedor da família e mais
atuante na Política relegou à mulher o domínio da casa. Quase em todo o país,
as pessoas se referem mais à “casa de minha mãe” do que “do meu pai”.
Em bairros de periferia e nas camadas mais empobrecidas do povo, cada vez mais é freqüente o modelo de família matrifocal, na qual, o pai só está presente, quando está, como genitor e não como pai ou marido. Na maioria dos casos, nem existe uma figura masculina estável e permanente. Infelizmente, mesmo nesta situação, a família não se torna menos autoritária. Mesmo quando a mulher sozinha dirige a casa, nem por isso os valores familiares se tornam menos patriarcais e autoritários. Um bom número de “meninos de rua” tem casa e família, mas prefere a rua porque nos seu lar o ambiente é de violência, maus tratos e incompreensão.
Poucas pessoas conscientes e atualizadas desejariam retomar ou fortalecer o
modelo patriarcal de família. O valor da subjetividade e o critério da
liberdade individual são conquistas da sociedade moderna. A recuperação do
amor como centro e cerne da relação conjugal, acima de qualquer forma de
instituição ou lei é, sem dúvida, um valor inestimável. Mas, será que não
poderemos garantir isso sem permitir que a cultura do neo-liberalismo
individualista penetre em nossas relações mais profundas e a sociedade atual,
depois de nos privar de todos os direitos sociais, também privatize o próprio
amor?
Mesmo quem está convencido que “família só funciona na hora das fotos de
aniversário”, de alguma forma, busca um substitutivo humano e social que
ainda não existe. A autoridade foi minada, os costumes alterados e muitos
valores invertidos. As Igrejas desenvolvem trabalhos pastorais criticando o divórcio,
condenando o aborto e propugnando a continuidade da família monogâmica e estável.
Alguns países discutem a possibilidade de casais homossexuais adotarem filhos.
Mesmo quem não concorda que uma religião qualquer deva guiar ou controlar a
sociedade civil, leiga e pluralista, está de acordo que devemos buscar meios
mais profundos e justos para apoiar e fortalecer os vínculos afetivos, por
demais fragilizados, e evitar tão grande fragmentação da vida social. Ao
instituir um Dia Internacional da Família, a ONU parece dizer que toda
humanidade precisa debruçar-se sobre o que sobra deste terremoto social que
atingiu nossas famílias. Sem cair na nostalgia dos velhos tempos, nem ficar
repetindo mitos distantes da realidade precisamos compreender o que está
acontecendo e vislumbrar pistas para um novo pacto familiar. Isso é importante
porque a espécie humana precisa, inexoravelmente, de algum tipo de núcleo
familiar para o desenvolvimento humano de seus filhos e a sanidade dos adultos.
Se não garantirmos às crianças relações afetivas equilibradas no ambiente
familiar, será mais difícil para nossos filhos, quando jovens e adultos,
aprofundarem relações emocionais justas e livres com seus semelhantes.
É, portanto, urgente, ajudar os casais jovens e as famílias a elaborar
um projeto mais profundo de vida conjugal e familiar, o que só conseguiremos
fazer se aceitarmos dialogar sem dogmatismos, nem moralismos fechados.
Um dos problemas que mais atinge e enfraquece as estruturas de nossas famílias
é a miragem do consumismo que exerce uma verdadeira tirania sobre jovens e
adultos e assassina por dentro as relações familiares. Eu não hesitaria em
dizer que, atualmente, o desafio cotidiano mais profundo para os pais e
educadores é ajudar as pessoas a libertar-se da ânsia alienadora do consumo
desenfreado. Infelizmente, os meios de comunicação social e mesmo a escola
atual não se preocupam tanto em formar cidadãos e sim consumidores para o
mercado. A cultura do Shopping, que faz um jovem sentir-se importante quando
exibe marcas famosas de tênis e de roupa, torna a vida fútil e esvazia a mente
da pessoa, tanto quanto um vampiro que bebe o sangue da alma. É preciso repetir
sem cessar que ninguém é importante pelas coisas que pode comprar, ou pelo
modelo de carro em que anda, nem pela roupa que veste. Quem pensa assim é mais
uma peça da máquina desumanizadora deste tipo de mercado. O que torna as
pessoas importantes é saber que são amadas e que amam e se responsabilizam
umas pelas outras.
As Igrejas cristãs crêem que o matrimônio e a família são sinais vivos do
Amor de Deus e da aliança de intimidade que o Espírito Divino quer viver com a
humanidade. Mas, será que se pode dizer isso de qualquer casamento? Qualquer
família, mesmo a que se funda sobre a dominação e o autoritarismo, seria
imagem de Deus?
Quem
quiser testemunhar Deus como energia de amor gratuito se comprometa a lutar
contra o vício do consumismo, assumir o diálogo como método nas relações
entre pais e filhos, irmãos e irmãs e entre marido e mulher. Procure firmar laços
familiares fundados não só no sangue, mas na causa da solidariedade. Assim,
toda a sociedade será uma grande família de cidadãos.
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| ilustração de Pulika | topo |