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“Não comercializem nosso
futuro”
Marcelo Barros |
M.Pa |
No Estado de Goiás, deputados e uma pequena parte da
sociedade civil debatem um projeto de Marco Regulatório da Prestação de Serviços
de Abastecimento de Água e Esgotamento Sanitário do Estado.
Grupos comprometidos com a Ecologia e com Direitos Humanos vêem em algumas cláusulas do projeto o risco de privatizar recursos hídricos do Estado.
No Brasil, governo e sociedade continuam discutindo que caminho de desenvolvimento devemos percorrer. Neste contexto, é importante retomar este grito, tema do Fórum Alternativo, realizado pela fundação alemã Heinrich Böll, durante a 5a conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em junho de 2003: “Não comercializem nosso futuro!”.
Evidentemente, é difícil pedir
à Organização Mundial do Comércio que não comercialize a própria vida
humana, mas precisamos mostrar à OMC, como ao Fundo Monetário Internacional
(FMI) e ao Banco Mundial (BIRD) que o Brasil e o seu povo não podem entrar como
artigos de barganha no pagamento da dívida que generais e governantes mais
ligados aos interesses estrangeiros do que ao serviço de seu povo contraíram
sem consultar a ninguém. Por terem recebido os votos do povo para governar o país,
sentiram-se no direito de sucatear o país e suas riquezas, privatizando tudo ao
seu bel prazer, como os poderosos do mundo fazem há anos com a água e os
recursos naturais do planeta Terra.
Para os próximos anos a ONU estabeleceu a água como
prioridade. Em cidades como São Paulo, Cidade do México e Bombaim (Índia) já
é um bem escasso e caro, devido ao consumo descontrolado, à destruição ecológica
que os países pobres têm sofrido para pagar a dívida externa, e também pelo
caminho ditado pelo BIRD e pelo FMI de forçar países já empobrecidos a
privatizar suas águas e vendê-las a multinacionais norte-americanas ou européias.
Estou voltando de Cochabamba na Bolívia, onde, há anos, coordeno uma formação de cristãos engajados sobre como ler a Bíblia de forma que respeite e valorize as tradições indígenas. Faz parte deste tipo de leitura interpretar a Bíblia a partir dos acontecimentos da vida e das lutas populares. Por isso, fiquei sabendo da crise política que, por causa da água, esta cidade enfrentou e, por sua forte organização indígena, venceu. No final dos anos 90, o BIRD exigiu que o governo boliviano privatizasse todo seu sistema de abastecimento em troca do perdão de parte da dívida externa do país.
Como quase sempre tem ocorrido na
América Latina, os governantes da Bolívia não hesitaram em submeter-se
caninamente ao que seus chefes internacionais decidiram. Em 1999, após um leilão,
no qual a única concorrente era uma empresa norte-americana, o governo assinou
contrato de concessão da água a tal empresa por 40 anos. Em pouco tempo o
serviço de água ficou mais elitizado. Só os bairros que podiam pagar mais
contavam com o serviço de abastecimento. As tarifas aumentaram em 50 por cento,
o que acabou privando os pobres do acesso à água.
As organizações indígenas começaram a denunciar a realidade e a recordar a
todo o povo que a água, um bem, por natureza, comum a todos e de direito
universal, tinha sido privatizado, e sem que a população fosse consultada. Os
governantes não aceitaram diálogo. Recusaram-se a receber as delegações dos
movimentos populares e indígenas. As manifestações foram crescendo, mas o
governo se mantinha indiferente. A pressão social chegou a um ponto que o
movimento daqueles dias passou à história como “a guerra da água”. Mesmo
usando violenta repressão policial, o governo não conseguiu controlar as
reivindicações e acabou obrigado a revogar o contrato, tendo de pagar multas
milionárias à empresa norte-americana.
Este fato nos recorda que, apesar de não ser fácil, um
povo unido e organizado pode evitar que interesses de grandes corporações lhe
sejam impostos. Em várias regiões se criam comissões de defesa das bacias
hidrográficas. Mas, o que adianta limpar rios e organizar a utilização que o
povo faz da água, se a finalidade for entregar os rios, despoluídos e
organizados, para uma multinacional administrar? O que adianta nossos países da
América do Sul possuírem as maiores fontes de água doce do planeta, como a
bacia amazônica e o Aqüífero Guarani - reservatório de água subterrânea
que ocupa quase metade dos os países do continente - se se compreende a água
como mercadoria e esta como todas as outras se devem colocar a serviço do
sistema injusto que vigora neste mundo?
Desde
o Fórum Mundial da Água, em Kyoto (2002), os dados da ONU confirmam: está se
fortalecendo no mundo uma nova forma de apartheid: o hídrico. Em muitos países
da África e da Ásia, a água é cada vez mais instrumento de guerra e de pressão
social. O Brasil é o país que tem maior volume de água doce no planeta (13%
das reservas), mas a avaliação do apartheid hídrico não depende só da
quantidade de água, mas de sua qualidade, ou seja, é preciso ver o grau de
contaminação dos recursos hídricos, a forma de gestão e o compromisso público
com a preservação e recuperação da água doce. Neste processo, o Brasil que
ocupa o primeiro lugar em recursos hídricos passa ao 23o lugar no
que diz respeito à qualidade e ao cuidado social com sua água. Apesar de toda
a riqueza de água doce no Brasil, muitos de seus pobres ainda adoecem e morrem
por falta de acesso à água limpa. Cada vez aumenta o número de pessoas
conscientes que se perguntam se será o desvio do rio São Francisco para
irrigar áreas semi-áridas no Nordeste que resolverá o problema do rio e da
região, assim como cresce o número dos cidadãos de Goiás que se preocupa em
defender a água do Estado como bem comum de todos os goianos.
Neste período de campanha eleitoral é bom saber o que cada partido propõe
sobre recursos hídricos. Ao aderir a um/uma candidato/a tenhamos em vista como
seu projeto político assume ou não a proposta de novas relações da
humanidade com a água. É preciso desbanalizar o olhar sobre a Água e perceber
que, para compreender o mundo, precisamos compreender a Água, relacionar-se com
ela como sacramento divino. Não aceitar mercantilizar e privatizar a Água. É
importante que este trabalho educativo alcance as escolas, igrejas, grupos
sociais, meios de comunicação e seja expressão da arte e, para quem crê em
Deus, testemunho de fé e espiritualidade ecológica.
Desde muito antigamente, no dia 15 de agosto, as Igrejas Orientais Ortodoxas e a
Igreja Latina celebram a memória da dormição ou trânsito da Virgem Maria
que, conforme já acreditavam os primeiros cristãos, foi a primeira a
participar plenamente da ressurreição de Jesus. Na América Latina,
principalmente em ambientes culturais indígenas, Maria tornou-se símbolo, em
alguns lugares, da Mãe Terra e, em outros, da Água Mãe da Vida. Mais tarde, a
Igreja Latina começou a falar em assunção de Maria. Ela foi assumida em Deus
no céu e atesta que todos nós, humanos e todos os seres do universo somos
chamados a ressuscitar com o Cristo, a ser elevados e inundados com a própria
vida divina. Este destino maravilhoso engloba a terra, água e toda a natureza.
O sociólogo e educador popular Ivo Poletto afirma: “A proposta de uma
teologia e espiritualidade ligada à água precisa fazer-se presente e ser fonte
de mística, de projetos e lutas políticas, para ser expressão do amor de Deus
para todas as pessoas. Sem isso, pode acontecer que certos grupos políticos,
capitalistas e gente pertencente à elite social, se apropriem dos mananciais
das águas e o façam em nome da defesa dos mesmos rios e da água, deixando de
fora até do uso físico da água os que não têm recursos financeiros para
comprá-la...”.
| ilustração de Pulika | topo |