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Sabedoria para quem ama a vida
Marcelo Barros |
M.Paz |
Um desafio permanente na vida de cada um é fazer com que o cabedal de conhecimentos que vamos adquirindo na vida nos torne verdadeiramente mais sábios e não apenas eruditos. Com Manuelão, vaqueiro dos sertões de Minas, que inspirou Guimarães Rosa, o mundo das letras descobriu que o casamento da intelectualidade com a sabedoria vivencial pode produzir literatura primorosa.
Não é de hoje que a sabedoria é definida como a capacidade de saborear a vida. De fato, o termo sabedoria e sabor vêm da mesma raiz etimológica. Em hebraico, o termo sabedoria se traduz por hokma, cuja tradução exata é experiência, ou saber viver. Para esta cultura, o alimento da sabedoria é o sal que ajuda a pessoa saborear melhor o gosto dos alimentos. Antigamente, no ritual católico do batismo, o celebrante colocava uma pitada de sal na boca do neófito e dizia: "Recebe o sal da sabedoria para saboreares a Palavra de Deus".
Quem acredita que Deus é fonte de vida, compreende que a verdadeira espiritualidade é deixar-se conduzir pelo Espírito Divino para uma vida melhor vivida, na integridade pessoal, na relação com os outros e na comunhão com o ambiente que nos cerca. Grandes legisladores espirituais como Buda, Confúcio e Jesus Cristo quiseram nos ensinar a viver melhor. O próprio Jesus afirmou: "Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância, ou seja, de qualidade" (Jo 10, 10). Por isso, o sentido mais profundo do exercício da fé e da devoção deve ser nos fazer viver melhor.
Nos últimos anos, nas Igrejas cristãs, a corrente teológica que mais insistiu nisso recebeu o nome de "Teologia da Libertação". Nasceu como um movimento de base que unia homens e mulheres, membros de grupos bíblicos, de comunidades eclesiais de base e de movimentos populares que trabalhavam para um mundo mais justo. Ao procurar unir fé e vida, ao interpretar a Bíblia a partir da realidade e do projeto divino de paz e justiça para todos, estes grupos formularam uma teologia popular, de conteúdo profundo e coerente. Toda uma geração de teólogos/as aprendeu das comunidades populares esta sabedoria e procurou sistematizar estes dados em textos nos quais esta experiência de fé vivida de forma libertadora pelas comunidades é confrontada com a exegese bíblica mais crítica, com a teologia tradicional das Igrejas e os dados da ciência sociológica. A Teologia da Libertação ganhou muita simpatia em todo o mundo, não apenas por seus temas novos, mas principalmente por seu método de fazer teologia e sua relação permanente com a realidade. Ao mesmo tempo, ficou claro que teologia não é assunto apenas de profissionais acadêmicos. Sem a reflexão de fé engajada das comunidades do campo e da cidade, a teologia da libertação nem teria começado nem existiria atualmente.
Neste inicio de milênio, por vários motivos, tanto na Igreja Católica oficial, como em outras Igrejas cristãs, a experiência militante das comunidades de base e da pastoral libertadora tornou-se menos visível e parece superada. Compreende-se, então, que muitas pessoas desejem saber se a caminhada da libertação e a Teologia que dela decorre ainda existem e como vão. Para todos que desejam a transformação do mundo e a justiça, será, então, uma boa notícia saber que a Teologia da Libertação está viva e vai muito bem, obrigado. Vai tão bem que, hoje, deixou se ser apenas uma corrente de teologia latino-americana para ser um movimento ecumênico mundial. Estou escrevendo estas linhas no momento de partir para Nairobi, capital do Quênia, onde estou convidado para participar do 2º Fórum Mundial de Teologia da Libertação. Escrevo-lhes estas linhas porque estou convencido de que este assunto diz respeito não apenas a estudiosos, nem somente a pessoas de Igreja, mas a toda pessoa que ama a vida e se sente chamada a solidariedade universal.
O 1º Fórum desta natureza aconteceu em Porto Alegre em 2005 e reuniu pessoas de todos os continentes para buscarem uma teologia "para um novo mundo possível". A segunda sessão do Fórum de Teologia da Libertação se realizará, neste janeiro, no coração da África, imediatamente antes do 7º Fórum Social Mundial. Ele reunirá professores/as de Teologia e pessoas de base do mundo todo, mas é claro que privilegiará as comunidades africanas, que pela primeira vez recebem um encontro deste porte no continente negro. Ali, as questões mais discutidas e que servirão de pano de fundo para a elaboração de uma nova espiritualidade ecumênica serão o trabalho pela paz mundial, o compromisso com a justiça em todos os níveis e o cuidado urgente e meticuloso com a terra e a natureza.
Na sua 2ª sessão, o fórum de teologia optou por uma organização mais comunitária e menos acadêmica. Será um espaço de livre expressão para as eventuais decisões de grupos e movimentos de base. O próprio fato de possibilitar uma maior convivência entre latino-americanos, africanos e pessoas de outros continentes oferece a base para uma convivência fraterna que amplia as fronteiras do nosso mundo cultural, de nossa religião e de nossas amizades. Começa a servir como parábola para um mundo mais horizontal e igualitário, no qual a fé e a espiritualidade possam ser fermento de uma cultura de amor e esperança e nos ajudem a vivermos uma cidadania verdadeiramente planetária. Este fórum se constitui como um processo que envolve a toda pessoa de boa vontade. Ele convida quem tem fé e esteja ligado a qualquer grupo religioso a testemunhar que a presença divina se manifesta em todo ser vivo. Nossa primeira atitude espiritual deve ser a do respeito e cuidado com o outro, seja uma pessoa humana, de qualquer raça, cor e nacionalidade, seja a comunidade de Vida, composta também dos outros seres que, conosco, participam do universo.
*Marcelo Barros é monge benedito
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