Desobedecer em nome da Paz
Marcelo Barros
M.Paz

No mundo inteiro, cada vez mais aumenta o número das pessoas que, em nome da fé e de suas convicções éticas, desobedecem a autoridades e leis oficiais, quando se trata de pegar em armas ou executar ordens que ressoam como injustas ou violentas. No Brasil, ainda se fala pouco da "objeção de consciência", mas o direito internacional a conhece e respeita. A própria ONU considera-a tão importante que até dedica o 15 de maio como "dia internacional da objeção de consciência".

O mais comum e freqüente caso é o de pessoas que, por motivo de fé religiosa ou simplesmente de convicção humana se recusam ao serviço militar, mas não só rejeitam cumprir a lei do alistamento obrigatório. Em contrapartida, se propõem a executar serviços alternativos úteis à sociedade. Nos primeiros séculos do cristianismo, pais da Igreja como Orígenes, Lactâncio e Tertuliano, ensinaram que cristãos não deveriam prestar serviço militar. Desde o século XVIII, em nome do Evangelho, a Igreja dos Quackers rejeita toda forma de militarismo. Segundo esta Igreja, para obedecer às palavras e ao exemplo de Jesus, os cristãos devem se distinguir como pessoas que nunca aceitam pegar em armas. Outras religiões como o Budismo e o Hinduísmo também têm grupos pacifistas.

Há também objeção de consciência quando, mesmo se a pessoa aceita ações armadas, em nome de sua fé ou de princípios éticos, se nega a cumprir ordens consideradas violentas, cruéis ou antiéticas. Objetar é mais do que estar em desacordo. É opor-se determinantementee a cumprir uma lei que fere a consciência. Em um famoso discurso, pouco antes de ser assassinado, Dom Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, pediu aos soldados: "Parem de matar! A quem mandar vocês matarem, desobedeçam, em nome de Deus!".

Em Israel, milhares de jovens israelitas que, comumente, aceitam fazer serviço militar e participar do exército, se negam a participar de operações militares contra palestinos. Em 2002, Jonathan Ben Artzi, sobrinho do ex-ministro Benjamin Netanyahu, tinha 20 anos e foi preso como objetor de consciência por se negar a reprimir acampamentos palestinos. Nos Estados Unidos, Camilo Mejía, filho do compositor nicaragüense Carlos Mejía Godói, foi um dos mais de 5000 jovens cidadãos norte-americanos que por se negarem a participar como marines da invasão do Iraque, tiveram seus direitos civis cassados. Desses, muitos ainda poderão responder a processos legais e serem presos. Alguns jornalistas correm o risco de perder o emprego por recusarem-se a divulgar notícias que incentivam ódio e racismo. Na Inglaterra, estudantes de Medicina se declararam em "objeção de consciência" para não praticar experiências clínicas com animais vivos.

No Brasil, há anos que grupos pacifistas trabalham para que o Estado reconheça o direito à objeção de consciência e estabeleça uma legislação justa sobre o tema. Entretanto, ainda estamos profundamente imersos na cultura armamentista e de cunho militar. As religiões que, na história, poderiam ter sido instrumentos de paz e convivência fraterna, quase sempre pecaram com relação ao princípio do diálogo e respeito ao diferente. Devemos reconhecer que, no decorrer da história, das religiões mais conhecidas o Cristianismo foi a mais responsável por guerras e intervenções armadas contra outras culturas e civilizações.

Mesmo se, desde a metade do século XX, as Igrejas tenham se empenhado mais em construir uma cultura de paz, ainda mantêm, na linguagem e na organização muitos elementos provenientes de uma cultura imperial e conquistadora. A própria forma como imaginam Deus como poder supremo e como religiosos se apresentam como investidos de poder sagrado não coincide com as palavras e exemplos de Jesus Cristo, nem com o testemunho de simplicidade no serviço que ele chamou seus discípulos a dar.

A objeção de consciência supõe ser vivida por pessoas simples, humildes que exercem este ato profético de forma não-violenta e não-agressiva.

Em 1965, os bispos católicos do mundo inteiro, reunidos no Concílio Vaticano II, defenderam o direito de toda pessoa humana à "objeção de consciência. A 5ª conferência geral dos bispos católicos da América Latina, que será em Aparecida do Norte, a partir do dia 13 de maio, se aproxima. É bom lembrar que a 3ª conferência (Puebla, 1979) salientou a vocação que toda pessoa cristã tem de testemunhar a paz e sublinhou o direito à objeção de consciência. Mais do que se preocupar se o número de católicos aumenta ou diminui, uma Igreja cristã cumpre melhor sua missão se for instrumento da paz e do diálogo no mundo.


 ilustração de Pulika
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