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Nós e o holocausto atômico
Marcelo Barros [1] |
M.Paz |
Pode ser que os testes atômicos na Coréia do Norte e as ameaças do governo dos Estados Unidos, xerife do mundo, em resposta, tenham apressado a Assembléia Geral da ONU e a resolução para criação de um Tratado sobre o Comércio de Armas. Foram mais de três anos de trabalho da sociedade civil internacional, mas valeu a pena. Dos 170 países presentes, 139 votaram a favor da decisão. Como sempre, só o governo dos Estados Unidos votou contra. Agora, Ban Ki-Moon, o novo Secretário Geral da ONU, começará a recolher as posições de todos os paises sobre o tratado até 2007. Em 2008 estabelecerá um grupo de especialistas para criar o tratado.
Esse é um processo longo e que ainda pede muito esforço e dedicação, mas o certo é que a paz já alcançou uma grande vitória. O teste atômico feito pela Coréia do Norte teve repercussões no mundo inteiro. Foi uma experiência de caráter mais político e estratégico do que realmente bélico e militar. A bomba que o governo norte-coreano explodiu em um túnel na região montanhosa do nordeste do país tinha a potência de apenas ½ Kw, enquanto, em sua época, as bombas que os Estados Unidos lançaram sobre Hiroshima e Nagazaki tinham 15 Kw e, em 1996, o Paquistão realizou experiências nucleares com bombas 24 e até 50 vezes mais potentes.
O fato de ser um artefato de potência baixa não diminui a gravidade do problema. Com este teste, a Coréia do Norte abre uma nova temporada para sócios do clube das potências nucleares e declara realmente ultrapassado o Tratado de Proliferação Nuclear. Mark Fitzpatrick, diretor do programa de não-proliferação nuclear do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, sentenciou: "Esta iniciativa da Coréia do Norte provocará inevitavelmente uma nova corrida de proliferação de armas nucleares no mundo" (Cf. revista Rocca, 01/01/ 2006, p. 14).
O governo dos Estados Unidos sabe que não tem moral para protestar, ou menos ainda punir a Coréia do Norte. Afinal é o país que mais aumenta o seu poder nuclear. Só na Europa tem armadas e prontas para usar 480 bombas atômicas, das quais 50 B61 em Aviano e 40 em Ghedi na Itália (Cf. Revista Azione Noviolenta, 8-9/06, p. 28). Além disso, os EUA financiam Israel que já fez quase 200 testes nucleares, aprovados por Bush e companhia.
Infelizmente, nenhum destes senhores que dirigem o destino dos povos consulta os cidadãos de seus países sobre este tipo de experiências. Os técnicos dizem que temos armas nucleares suficientes para, em poucos minutos, explodir dez planetas como a Terra. Esperava-se que, neste ano, o Parlamento Europeu proibisse a produção de armas de destruição de massa. Apenas aprovou a criação de uma onda desnuclearizada no Mediterrâneo. Isso significa que as experiências atômicas e o lançamento das bombas devem ficar na casa dos outros, ou seja, nos países do sul.
Diante deste quadro, muitas pessoas conscientes se perguntam sobre o que fazer para impedir que este caminho de destruição e morte continue. O movimento não-violento contra o armamentismo tem aceitado que seus militantes pratiquem o boicote e o que é mais arriscado: a sabotagem consciente e não-violenta.
Nos EUA, vários pacifistas estão presos e condenados por se declararem publicamente contra a guerra. Três religiosas dominicanas continuam presas por protestar contra a guerra do Iraque, diante da Casa Branca. Na Europa, Turi Vaccaro é ex-operário da FIAT e conhecido por suas greves de fome contra a guerra. Há três anos, passou todo tempo da Quaresma acampado na Praça de São Pedro, em greve de forme diante do Vaticano. No ano passado, foi preso porque entrou ocultamente na base militar de Woensdrecht (Holanda) e depredou dois caça-bombardeios nucleares norte-americanos. A imprensa começou a chamá-lo de "demolidor de F16". O advogado de Turi sustentou que o pacifista tinha agido em "legítima defesa" contra a ilegalidade das armas nucleares que são de destruição de massa e, portanto, violam tratados internacionais de não-proliferação nuclear. O tribunal considerou o ato de Turi como vandalismo e lhe impôs anos de prisão e o pagamento de 750 mil euros de multa. O pacifista negou-se a pagar, por não possuir os meios, mas principalmente por não desejar colaborar com a recuperação das armas que ele, em consciência, havia destruído. A um jornalista que lhe perguntou como se sentia ao ser condenado respondeu: "Feliz por ter salvo, ao menos pelo momento, muitas vidas humanas. Se puder, mesmo correndo riscos, continuarei a salvar outras vidas".
Pessoas como Turi Vaccaro e tantos outros que dedicam suas vidas à Paz são cidadãos como nós. Como todos nós, eles também têm família, devem ganhar suas vidas e têm direito à sua vida particular. Mas, ao sentir que está em jogo o presente e o futuro da vida no planeta Terra, nos convidam a fortalecer um movimento de pressão moral civil e internacional contra o armamentismo e, principalmente, contra qualquer arma de destruição de armas como são as bombas atômicas e mísseis nucleares. Neste contexto em que vivemos, a resolução da ONU de aprovar uma resolução para criar um Tratado sobre o Comércio das Armas é uma boa notícia, mas pede o empenho de todos nós para não somente não cair no vazio, como se apoiar em um cada vez maior movimento civil de toda a humanidade pela paz e pela irmandade universal.
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