| O dia dos namorados e a proteção das florestas - Macelo Barros ( 1 ) | M.Paz |
Parece estranho querer unir duas datas que ocorrem nesta
semana: o dia dos namorados e o dia internacional contra a devastação das
florestas. O dia dos namorados, celebrado no domingo passado, é muito querido
pelo mercado. O dia internacional contra a devastação das florestas é comemorado
pela ONU nesta sexta, 17, mas não tem apelo comercial. Ao contrário, no Brasil,
confirmam-se as denúncias de esquema milionário de corrupção envolvendo figurões
da política e das madeireiras da região amazônica para provocar destruição da
floresta e vender sua madeira. O mercado inventa dia dos namorados, mas não dos esposos. Talvez porque a proposta é que os esposos sejam sempre namorados, embora estudos recentes afirmem que a paixão é desestabilizadora e, por isso, passageira. Todo mundo sabe que quem ama perde, o que os antigos gregos chamavam de “ataraxia”, impassibilidade, ou ausência de perturbações. Quem ama prefere a delícia de ser perturbado, corre atrás da emoção mais do que da razão e aceita o risco de sofrer, pondo a sua vida nas mãos de um outro ser, também inacabado e incompleto. Esta busca do outro, contida em todo ato de amor, mesmo no imaturo e mais carente, é sempre caminho de uma vida mais humana. Para quem crê, apaixonar-se e se deixar conduzir pela paixão amorosa, é caminho de oração e vida mística. Entretanto, há como que dois modelos ou formas de se viver o amor. O primeiro tipo, mais comum em nossa sociedade, é retratado por velhas músicas sentimentais que dizem: “eu tenho ciúme até da camisa que você veste”. É o amor que reduz o mundo inteiro à intimidade dos dois e sonha com uma casinha isolada na montanha, aonde as almas gêmeas possam ser felizes para sempre.
Entretanto, há também o modelo cantado por Violeta Parra no “Gracias a la Vida”. Ela diz ter começado a admirar e amar mais os olhos de todos os seres humanos por poder neles vislumbrar os olhos do seu bem amado. Agradece à vida os ouvidos que escutam os ruídos da sociedade, porque, em meio ao torvelinho da vida, ouvirá a palavra terna do homem a quem ama. Assim, o amor, ao invés de fechar a pessoa em uma redoma intimista e romântica, que durará o prazo da sensibilidade natural de cada um, abre o ser às grandes causas da humanidade e ao amor do universo. Aí está a relação, aparentemente desconexa, entre o dia dos namorados e a proteção das florestas. Não é apenas que os namorados quererão ter florestas mais protegidas para ali viver mais secretamente o seu amor. Nem que o comércio possa dizer aos namorados: “Dê uma floresta de presente à pessoa que ama”. Mas, pode dizer: “Prove seu amor por ele (ou ela), namorando uma floresta inteira e dela cuidando como testemunha do seu amor”.
Conforme a ONU, de todas as florestas que o mundo tinha, restam apenas 7% e estas estão, cada dia, mais ameaçadas. O Brasil tem a segunda maior área florestal do mundo.
São as florestas brasileiras que garantem a circulação da quinta parte de toda água doce disponível no mundo. Ainda somos campeões mundiais de biodiversidade e de eco-sistemas. Deles depende uma grande variedade de culturas e muitas comunidades indígenas que vivem na e da floresta. Em 2004, o governo federal lançou um novo plano nacional para o setor florestal, incentivando a preservação das florestas nativas e garantindo recursos para a recuperação de áreas já degradadas, como também o plantio de novas florestas. De fato, 4% do PIB nacional e 8% das exportações vêm do setor florestal, assim como milhões em impostos e milhares de empregos.
Entretanto, o Brasil precisa, urgentemente, comemorar e viver o dia do cuidado com as nossas florestas. A Mata Atlântica está reduzida a 5% de sua extensão original e mesmo este resíduo está ameaçado. A Amazônia já perdeu 18% de sua cobertura original e 4% dessa área devastada não serve mais para nada. Transformou-se em deserto. O pior é que o crime continua. De um ano para cá, foram devastados 26.140 Km2, quase o correspondente a todo o território de um país como a Bélgica. Jornais internacionais como o The Independent de Londres e o El País de Madri chamam esta realidade de “estupro da natureza, cometido por grandes latifundiários, sob a omissão das autoridades competentes”. (Cf. Veja, 08/ 06/ 2005, p. 126)
A boa notícia é que, cada vez mais, a sociedade civil internacional se torna consciente da importância das florestas para o equilíbrio dos climas, hoje tão imprevisíveis, e para o futuro da vida no planeta Terra. Não precisamos aproximar o dia dos namorados com a data consagrada pela ONU à preservação das florestas. A maior parte das pessoas se apaixona pelas florestas. Na luta inglória contra o sistema capitalista, por natureza depredador, este amor é a esperança de vitória da vida.
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