“Que o céu não caia sobre nossas cabeças”
Marcelo Barros

versão para 
imprimir

M.Paz

 
A ONU instituiu o 16 de setembro como o Dia da Camada de Ozônio. Motivados por isso, durante esta semana, grupos ecológicos e cientistas discutem se o buraco que a poluição nossa de cada dia cria na atmosfera, tem aumentado ou regredido. 

desenho de Pulika

 

Para quem gosta de história de quadrinhos, a destruição da camada de ozônio lembra que, na época do antigo Império Romano, os intrépidos gauleses comandados por Asterix e Obelix enfrentavam com coragem o Império e todos os perigos da época, mas morriam de medo que o céu lhes caísse sobre a cabeça.  A diferença entre a realidade atual e aquele mundo fantástico é que, realmente, o planeta Terra está sofrendo um grande risco. O Dr. Mostafa Toba, diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente afirmou: "Estamos diante do maior perigo que a humanidade já enfrentou."

O ozônio é um gás atmosférico azul-escuro, encontrado na estratosfera, entre 20 e 40 km de altitude. O ozônio se concentra mais nos pólos do que no equador, mas protege toda a terra dos raios ultravioletas do Sol. Sem a camada de ozônio que protege a atmosfera, a radiação provocada pelos raios ultra-violeta do sol provoca queimaduras e causa câncer de pele, inclusive o melanoma maligno, quase sempre fatal. Também prejudica a imunidade do corpo e facilita que se desenvolvam tumores malignos, herpes, hepatite e infecções dermatológicas provocadas por parasitas.

Há mais de vinte anos, os cientistas sabem que, sobre a Artártida, a camada de ozônio está sendo destruída como um tecido progressivamente rasgado. A poluição atmosférica e a emissão de gases tóxicos cria um buraco na camada de ozônio que não protege mais a terra dos raios ultra-violetas do sol. Este rombo na camada de ozônio, situado nos pólos, já atinge regiões de todo o mundo. Há treze anos, as agências internacionais publicaram: "A destruição da camada de ozônio não se limita mais à Antártida. Já vem atingindo também o norte da Europa, Sibéria, Alasca e Canadá. Começa a ocorrer em qualquer estação. (...) E atinge a Argentina, o Chile, a Austrália e Nova Zelândia. (…) Nas regiões temperadas não há propriamente um ‘buraco’ na camada de ozônio, mas várias falhas, ou seja, zonas onde o gás é muito rarefeito, como um tecido esgarçado que deixa passar a radiação". (Cf. Destruição da Camada de Ozônio atinge Europa – in O Estado de S. Paulo - 21.10.91). 

        Em 1995, os cientistas observaram que, em regiões do hemisfério sul, como a Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e Patagônia, havia nas populações um aumento considerável de câncer de pele e catarata. Na Austrália, o governo não publicou que em Queensland, no nordeste do país, mais de 75% dos cidadãos acima de 65 anos apresentavam alguma forma de câncer de pele. Agora, uma lei local obriga as crianças a, mesmo no verão,  usarem chapéus e cachecóis quando vão à escola, para se protegerem das radiações ultravioleta. A Academia de Ciências dos Estados Unidos calcula que apenas naquele país estejam surgindo anualmente 10 mil casos de carcinoma de pele por causa da redução da camada de ozônio. 

Ao mesmo tempo, o Ministério da Saúde do Chile informou que desde o aparecimento do buraco no ozônio sobre o pólo Sul, os casos de câncer de pele no Chile cresceram 133%. Atualmente, o governo chileno faz campanhas para a população utilizar cremes protetores para a pele e não ficar exposta ao Sol durante as horas mais críticas do dia. Em setembro de 1994, foi divulgado um estudo realizado por médicos brasileiros e norte-americanos, onde se demonstrava que cada 1% de redução da camada de ozônio desencadeava um crescimento específico de 2,5% na incidência de melanomas. Nestes últimos anos, no mundo inteiro, a incidência de melanoma está aumentando assustadoramente. Entretanto, a ONU não conseguiu que os governos dos Estados Unidos e da Rússia aprovassem a lei que reduz em apenas 12% a emissão de gases tóxicos porque isso poderia prejudicar o lucro de suas empresas.

Governos, como o norte-americano e pessoas que trabalham para empresas multinacionais retrucam que isso é exagero ou que, ao menos não está provada a relação entre uma coisa e outra. Sergio Margulis, economista do Banco Mundial, publicou Causas do desmatamento na Amazônia brasileira. Ele diz que, do ponto de vista econômico, a destruição anual de mais de 20 mil Km² de nossas matas é racional e correto porque plantar pasto e criar gado na Amazônia dá um lucro que chega ao dobro do que é ganho por hectare em outras regiões (Cf. O Globo, 13/02/2004). É a lógica da busca do lucro a qualquer custo. Na mesma linha, temos de aceitar que garimpos joguem mercúrio nos rios, já que têm lucro garantido. Em certas áreas do Brasil, proprietários rurais descobrem que o mais lucrativo para eles é explorar o trabalho escravo. É a mesma lógica da supremacia do lucro sobre a vida que fez o presidente Bush negar-se a assinar o Protocolo de Kyoto sobre o controle das emissões de gases destruidores da camada de ozônio.

Independentemente dos interesses escusos do Banco Mundial, de empresas multinacionais e de governos que a elas servem, a sociedade civil organizada está cada dia mais consciente de que todos nós, pessoas comuns, temos responsabilidade neste assunto e podemos fazer muita coisa para deter a marcha da morte no planeta Terra e ajudar a nave do destino na direção da vida. Acabo de vir do 2o Festival Ecológico das Águas, promovido pela Universidade Federal de Mato Grosso em Luciara, pequena cidade na margem do belo Araguaia, cada vez mais agredido e ameaçado pelo agro-negócio. Ali, descobri que a população comum tomou posição contra a hidrovia que poria em riscos a vida do rio, é contrária às hidroelétricas que não respeitam eco-sistemas delicados e chama de sojeira a invasão da soja que toma milhares de hectares de cerrado e envenena com agro-tóxicos a natureza e o rio do qual índios e populações ribeirinhas dependem.

Voando de volta a Goiânia, a pequena aeronave parecia perder-se em meio ao denso nevoeiro, provocado pelas centenas de focos de queimadas que continuam, neste tempo de seca, destruindo o Centro-oeste. Um cacique Karajá me disse que, em relação a outros anos, as queimadas diminuíram porque várias cidades criaram comissões de voluntários para combater as queimadas na região. É urgente espalhar e fortalecer tais iniciativas porque o que está em jogo é o eco-sistema local, a sobrevivência da humanidade e o próprio planeta Terra, cuja vida depende da camada de ozônio que tais queimadas ajudam a destruir.

Quem crê em Deus é chamado a defender a natureza que Deus criou com amor e  na qual se faz presente através de uma energia cósmica que nos torna mais amorosos e felizes. Nós, humanos, feitos de terra, de água e de ar, somos a Terra que sente, pensa e ama. Cada folha de árvore queimada é como uma célula de nosso próprio corpo destruída pela gangrena do capitalismo depredador. Sinta o mal que se faz à Terra, à Água e ao Ar como uma agressão contra si mesmo e sua família constituída de todos os seres vivos. Como sempre escreve tão bem o querido irmão e amigo Leonardo Boff: “Precisamos respirar juntos com a Terra para conspirar com ela pela paz”.

 ilustração de Pulika

email 
do autor

topo