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Férias
e busca filosófica da felicidade
Marcelo Barros e Raílton Nascimento[1] |
M.Pa |
No
Centro-oeste, julho é mês de férias no Araguaia, como na Europa é tempo de férias
de verão. Muitos procuram descansar e quem pode viaja em busca de novas experiências.
Agências de viagem oferecem viagens para a “ilha da sua fantasia” e um
jornal italiano fala até em “busca de sua felicidade”.
De fato, segundo Aristóteles, a felicidade é o sumo bem que todo ser humano procura. Assim sendo, as ações cotidianas, os planos e metas humanas teriam como objetivo a conquista desse bem maior. Para buscar a felicidade, a pessoa conta com a Ética, reflexão racional que busca compreender a origem, o sentido, a complexidade e as conseqüências do agir moral. Entretanto, para fundamentar nossas ações numa ética, necessitamos de tempo, disposição e orientação. Na falta desses elementos, busca-se o caminho mais fácil. Seguem-se os valores vigentes: o utilitarismo e o pragmatismo da modernidade capitalista como orientação para viver melhor. Diuturnamente, a sociedade impõe necessidades sempre novas. A almejada felicidade coincidiria com a realização dessas necessidades, produzidas e reproduzidas pelo marketing. A felicidade torna-se um objetivo a se conquistar.
As necessidades não realizadas nos distanciam do ideal. Quando realizadas, nos aproximam – mesmo que momentaneamente – do gozo perene. Entretanto, estamos sempre em atraso e, como que, inadimplentes em relação ao modelo. Sentimo-nos, assim, culpados, vazios e insatisfeitos. O agora vivido não é tão interessante. Ainda não conquistamos tudo que precisamos para ser felizes. É comum que alguém pense: “Serei feliz quando entrar na universidade, quando tiver um celular tal, um carro F, uma casa S, uma namorada G, uma conta Y e um corpo B”. Depois de ter conquistado tudo isso, desejará outras coisas. Sua felicidade será adiada e novamente perseguida, voltando o ciclo à estaca zero. Presos a essa lógica, adiamos ou limitamos a felicidade a momentos. Adotamos o preceito da sociedade de mercado, segundo a qual, tempo é dinheiro e deve ser aplicado em coisas úteis. Não se quer “perder tempo” em filosofar e refletir. A expressão característica do homem pós-moderno passa a ser a falta de reflexão mais profunda. O importante parece ser o que se sente aqui e agora.
Qual seria a ética mais adequada para nos conduzir à felicidade? Existe uma resposta universal para essa questão? Não. Os seres humanos são universos diversos. Cada um tem uma história e se constitui de maneira diferente. Em preparação ao ano 2000, Hans Küng, filósofo e teólogo alemão, reuniu pensadores e ministros das mais diversas religiões para pensar juntos uma Ética mundial que, aceita pelas mais diversas religiões e diferentes culturas pudesse nortear o ser humano na busca da paz e da felicidade. Todos concordaram que a base de uma Ética Mundial é a valorização da vida e não só da vida individual, mas coletiva. A Vida é o valor universal mais sagrado e ao qual toda Ética se subordina. A própria fé deve ser vivida como valorização da vida. Aos discípulos, Jesus disse: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância”.
Todo ser humano é responsável pela própria vida e tem o direito e dever de defendê-la. Entretanto, este cuidado com a vida não basta para nos trazer felicidade a não ser quando cada um se faz responsável também pela vida do outro. Em todas as culturas, a solidariedade é reconhecida como fonte de felicidade e de bem-estar. O mundo inteiro deve ser reorganizado de forma que favoreça o direito que todos os seres humanos têm a uma vida digna e feliz. É o que buscam os altermundialistas a se reunirem nos diversos fóruns e a proclamar: “Um outro mundo é possível”.
Este caminho não é espontâneo. Por isso, as diversas escolas de Filosofia e Ética precisam ajudar as pessoas para torná-las mais capazes do amor solidário e da construção de um mundo no qual todos sejam irmãos. Entretanto, por mais que valorizemos e conheçamos as éticas esculpidas pelos mestres e filósofos, no plano mais profundo e a cada dia, seremos nós os mestres de nós mesmos. O diálogo uns com os outros e as lições da história serão sempre essenciais, mas somos nós que devemos decidir, em cada momento, a justa forma de agir. Escolheremos os valores que queremos para pautar nossas ações. A decisão depende de nós, como também o resultado de nossas ações. Poderemos tornar nossa vida uma bela obra de arte, a ser admirada, mas poderemos transformá-la em algo desarmônico, feio e nocivo.
A
sociedade nos condiciona até certo ponto, mas podemos reagir a isso e sermos
responsáveis por um caminho novo e mais feliz.
Neste
mês de julho, muitos viverão suas merecidas férias individuais. Outros
aproveitam o tempo livre e realizam, em Porto Alegre, um Fórum Mundial sobre
Educação; em São Paulo um sobre Cultura, em Barcelona, sobre Reforma Agrária
e em Quito, julho se encerrará com o Fórum Social das Américas. Os sonhos de
um mundo mais justo e de paz não se tornarão realidade repentinamente, como
uma flor, sem que tenhamos cultivado o solo de nossos corações com os
instrumentos do diálogo e da busca. O futuro da humanidade depende da nossa opção
em tornar verdadeira a utopia.
| Marcelo Barros é monge
beneditino e autor de 26 livros e Raílton Nascimento é filósofo e
professor. ilustração de Pulika |
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