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Como ajudar a primavera a florir
Marcelo Barros |
M.Paz |
Convidado, nestes dias, para coordenar um fórum ecumênico sobre ecologia, em Valência, na Espanha, encontrei a cidade toda enfeitada como para uma grande festa. As ruas iluminadas e praças com rodas de madeira gigante e estruturas coloridas se preparam para o dia 19 de março, quando, em honra de São José, as pessoas saem às ruas com roupas novas e devem queimar aquelas estruturas que há dez dias enfeitavam a cidade inteira. Este costume tradicional vem das antigas festas da primavera que se inicia.
Por mais que seja estranho queimar tantas coisas bonitas, este costume tem o mesmo significado de todos os ritos de renovação que implicam jogar fora o que é velho para acolher o novo. Cristãos celebram Quaresma, judeus jogam fora o fermento que têm em casa para celebrar a Páscoa de forma realmente nova e pura, muçulmanos vivem o Ramadã, tradições indígenas observam a terapia do Casulo, assim como grupos espiritualistas aprofundam técnicas de renascimento. De um modo ou de outro, todos sentem a necessidade de uma renovação profunda que parta do mais íntimo do ser e atinja a vida social e até todo o cosmos.
Em uma civilização cujo conceito de desenvolvimento é meramente técnico e exterior, soa como ainda mais importante o apelo para uma renovação que parta de dentro e coloque o ser humano em contato com o mais profundo de si mesmo, com os outros e com a sua missão no mundo.
Todos os seres vivos são tocados pelo tempo. As plantas obedecem a estações para florir e frutificar. Os animais têm ciclos naturais. Até a terra, hoje reconhecida como Gaya, um imenso ser vivo do qual somos células e órgãos do seu corpo, tem suas estações e passa do inverno à primavera na qual se veste de flores e sai ao sol para brincar.
Existe uma renovação que vem através da própria evolução do tempo, como se sucedem as estações do ano. Entretanto, a vida pede mais. Precisa superar os desafios e ir além da rotina. A própria lei da sobrevivência exige esforço e mudanças profundas. Um símbolo disso é como muitas criaturas se reproduzem. Répteis mudam de pele. Ursos hibernam e mamíferos entram em cio. Na época da piracema, muitas espécies de peixes nadam quilômetros e quilômetros na direção oposta à corrente, muitas vezes, em uma luta de vida e morte, em busca dos lugares onde nasceram.
Mas, todos os animais fazem isso por instinto e, durante a vida inteira, repetem os mesmos ciclos. A capacidade de "mudar o rumo do tempo" é próprio do ser humano. Só nós podemos assumir as nossas piracemas interiores como opção e resposta a um apelo do mais íntimo do ser.
A sociedade nos impõe um modo de viver e contar o tempo que acaba sufocando este apelo a uma mudança mais profunda. Quem diz que "tempo é dinheiro" não quer parar para ouvir a voz do coração. Entretanto, as tradições espirituais mais antigas insistem que o tempo pode ser mais do que a mera contagem das horas, dias e anos. A Bíblia chama de "Kairós" (tempo de graça) estes momentos e etapas que podem acarretar mudanças para as pessoas e comunidades. Para os cristãos, este tempo de Quaresma e Páscoa significa o que Paulo escreveu: "este é o tempo favorável. É o dia da salvação" (2 Cor 6).
Mesmo pessoas que se deixam acomodar por um estilo de vida confortável ou simplesmente pelo medo de mudar, não conseguem sufocar o anseio interior de nadar contra a corrente e peregrinar às fontes da vida para retomar o projeto mais profundo do seu ser. Obedecer a esta voz do coração é fonte de saúde física e integração psíquica. Todos precisam reencontrar a energia primordial que abastece o coração. A esta força que suscita nas pessoas uma verdadeira transformação interior, podemos chamar "espiritualidade". Quem crê em Deus aposta que esta vocação para renovar-se constantemente é, no coração humano, inspiração divina.
Durante séculos, as diversas religiões cuidam disso e fornecem à humanidade uma metodologia para esta peregrinação. Entretanto, para isso, elas mesmas precisam se renovar como estruturas e viver mais profundamente ainda a espiritualidade que propõem à humanidade. Ninguém entraria em uma piscina para aprender a nadar com um mestre que não aceitasse, ele mesmo mergulhar junto com o aprendiz.
A vitalidade de uma religião não é garantida por doutrinas, dogmas ou tradições litúrgicas. Menos ainda o apego ao poder, idolatrado como divino, poderá restituir à nenhuma religião a confiança das pessoas. Sua credibilidade virá principalmente do seu compromisso com a vida de toda a humanidade e sua possibilidade de contribuir efetivamente para a paz, a justiça e o cuidado com a natureza.
Seja qual for sua tradição religiosa ou mesmo que você não esteja ligado a nenhuma, aceite o convite para juntar-se aos irmãos e irmãs que buscam refazer tanto no plano íntimo, como no diálogo com outros, esta viagem em busca das fontes da vida. É esse o sentido mais profundo da Páscoa que os cristãos vivem na relação de seguimento de Jesus Cristo e na memória da doação da sua vida. Cada vez que você vence em si mesmo(a) o entorpecimento que amarra os seus pés ao chão, está vivendo este impulso pascal de ressurreição.
Muita gente que não é de Igreja redescobre, com métodos novos e, às vezes, com significados diferentes, terapias e técnicas de renascimento. Procuram retomar as raízes mais profundas da sua vida e dialogar com o que há de melhor em si mesmos(as).
Na noite da Páscoa, São João Crisóstomo, pastor da Igreja do século IV proclamava: "Venham todos à festa. Vocês que cumpriram os costumes da Quaresma são como operários da primeira hora que, conforme a parábola de Jesus, trabalharam o dia inteiro e agora receberão mais do que o salário prometido. Vocês que não se prepararam e não praticaram a Quaresma, venham assim mesmo, pois o Senhor, por generosidade, os recebe, como na parábola foram aceitos os trabalhadores que chegaram no final do dia. Deus não exclui ninguém. Dá aos últimos, tanto quanto aos primeiros. Venham todos à alegria do seu amor" (São João Crisóstomo).
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