O melhor presente para as crianças
Thania Coimbra e Marcelo Barros

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M.Paz

crianças brincando de jogar peão Ao se aproximar o dia das crianças, a preocupação primeira de pais e familiares costuma ser: que presente daremos a elas?

É justo que pensemos qual será o melhor presente a dar às nossas crianças. Para escolher algo mais adequado, há quem procure saber o que a pessoa em questão mais precisa. Assim não se dará um presente inútil. Outro critério comum é saber o que a pessoa mais gostaria de receber, seus gostos e costumes. Normalmente, ninguém daria um disco de rock ao seu avô ou um CD de Emilinha Borba ao filho adolescente. O presente supõe que a gente confirme à pessoa que o recebe o direito sagrado dela poder ser o que é e viver a sua identidade sem sobressaltos e agressões.

Nossa sociedade massificou conceitos pedagógicos e muitos buscarão escolher um presente que ensine a pensar, amplie vocabulário, motricidade, habilidades matemáticas ou idiomáticas. Para o senso comum e, infelizmente, até para muitos profissionais da área educacional persiste uma idéia de infância como tempo do ainda-não-ser-adulto.

Poucos se sentiriam seguros para oferecer às crianças simplesmente um amoroso tempo de escuta, partilha e - como se dizia nos tempos antigos -folguedos. Momentos em que o adulto trava contato com a própria infância guardada em si e transmite às crianças a memória social, familiar e individual, de brincadeiras, causos, adivinhas ou um passeio sem objetivo senão a diversão mútua. Em troca, o adulto aprenderia com os pequenos a re-ler o mundo, a re-inventá-lo de sentido, como nos versos VII do “O livro das Ignorãças”, do octogenário poeta Manoel Barros:

“O delírio do verbo estava no começo,
lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor,
mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos _
o verbo tem que pegar delírio.”

Crianças ricas e miseráveis são tristemente semelhantes na sua necessidade de infância. A família rica, condicionada a habitar um mundo transformado em um interminável shopping-center, empaturra suas crianças de comidas e coisas e superlota sua agenda com atividades preparatórias de um adulto bem-sucedido. As famílias muito pobres não podem dar a seus filhos um quinhão mínimo de espaço- até as camas as crianças dividem com várias - pessoas, alimentação ou tempo livre. Umas, e outras, na prática, são consideradas como ocupando uma espécie de corredor para o mundo adulto, uma lagarta esperando o futuro.

Nas sociedades tradicionais, ao contrário, de tal forma as crianças são respeitadas e mesmo veneradas como crianças que o processo de iniciação na comunidade é lento. Na maioria dos povos indígenas, o cuidado com as crianças fica a cargo de toda a comunidade. Elas crescem coletivamente, educadas em clã e só têm que entrar na vida da aldeia muito progressivamente e a partir da adolescência. A tradição judaico-cristã se desenvolveu em uma sociedade de cultura patriarcal que valoriza a sabedoria dos anciãos e dá poder aos mais velhos. Entretanto, a Bíblia salienta uma espécie de preferência de Deus não pelo primogênito, que na cultura vigente era o herdeiro, e sim pelo filho menor. E há duas profecias nas quais Deus falou pela boca de crianças: Samuel (1 Sm 3) e Daniel (Dn 12).

Mais tarde, Jesus de Nazaré, sentindo que, em sua sociedade, a criança é marginalizada, faz questão de colocá-la no centro da vida social. Acolhe-as na comunidade dos discípulos e entra com crianças no templo de Jerusalém, o que era terminantemente proibido nos costumes religiosos da época.

Conforme o Evangelho, cada criança é revelação do amor divino presente em todas as pessoas para que estas, mantendo em si mesmas a infância espiritual, se divinizem cada vez mais. Nos Evangelhos, Jesus Cristo diz: “Quem acolhe a uma criança no meu nome, é a mim que acolhe” (Lc 9, 37). Brincar, fabricar seus brinquedos que podem tanto ser uma coleção de folhas, joaninhas, pular corda, fazer um boneco de pano ou teclar o computador- sim, há espaço nele para brincadeiras e para a criança ele é uma ferramenta do mundo como tudo o mais que a rodeia.

O melhor presente que poderemos oferecer às nossas crianças não se compra em lojas. É restituir-lhes o direito de ser crianças, de viver e sonhar como crianças. Um direito que é político. Que exige, em seu exercício, pequenos gestos privados e grandes gestos públicos. Como aderir ao protesto proposto pela Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos deputados: no dia 17 de outubro desligar as tevês, de preferência para faze algo mais prazeroso, das 16 às 17 horas. Esse será o Dia Nacional Contra a Baixaria na TV, cuja baixa qualidade é uma agressão às crianças que precisam dessa babá eletrônica mas têm direito a atrações saudáveis. A idéia é promovida pela campanha “Quem financia a baixaria é contra a cidadania”.

As crianças também merecem o presente de políticas públicas que as respeitem e sejam pensadas a partir das suas especificidades. A Educação Infantil é dever do Estado e direito da criança. Não pode ser a mera escolarização da infância. O espaço e o tempo dessa ainda nova forma de ensino deve ser organizados de forma a permitir o desenvolvimento humano pleno e o respeito aos corpos e mentes infantis.

Certamente, do que mais as crianças gostarão, é de que sentemos com elas no chão, empinemos papagaios juntos, troquemos histórias, provemos picolé de groselha ou carambola. Talvez o maior presente e surpresa seja para nós adultos, que, nos descobriremos mais leves e mais capazes de oferecer às futuras gerações um mundo mais justo e agradável de se viver. 
 ilustração de Pulika

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