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O Cinema, a Terra e o Universo
Marcelo Barros |
M.Paz |
A Cidade de Goiás se transforma mais uma vez na Meca do cinema ambiental. Nesta semana, (de 11 a 17 de junho), a querida Vila Boa sedia o 9º FICA, Festival Internacional do Cinema Ambiental. Conduzido pelo cineasta João Batista de Andrade, referência fundamental na história do Cinema Brasileiro, o 9º FICA contou com 522 obras inscritas, das quais 322 internacionais e 200 brasileiras. Ao ver estes números, se pode compreender a dificuldade que o júri teve para selecionar os 31 filmes que entram na competição final. Além disso, uma preocupação maior para o 9º FICA foi o cuidado de unificar mais sob a temática ecológica todas as atividades artísticas e culturais que este festival costuma abrigar (teatro, exposições plásticas e palestras). Neste sentido, pela primeira vez, o FICA integra em seu bojo o importante fórum sobre "O Clima, a Amazônia o Cerrado", coordenado pelo mestre Washington Novaes e com a participação de personalidades ilustres no campo da Ecologia.
Desde o seu nascimento, o Cinema esteve comprometido com a causa ecológica. A própria noção de Cinema está ligada a um novo olhar para descobrir beleza e encanto nas coisas cotidianas do existir como nas relações humanas que tendem a não ser tão ecológicas assim. Do mesmo modo, como no mercado, não faltam flores de papel e rosas de plástico, algumas perfeitas em sua arte de imitar o real, (mas nem por isso deixam de ser falsas), também o Cinema teve e ainda tem obras que visam apenas o lucro, mesmo se este for obtido pelo sensacionalismo e pela exaltação da violência e da destruição da vida. Entretanto, bons diretores sempre têm oferecido suas câmaras para nos integrar no conjunto do ambiente e nos fazer amar mais a Terra e a comunidade da vida.
Já nas primeiras fases do Cinema, se produziram filmes sobre temas ecológicos como os do Robert Flaherty (Nanuk, 1922, Moana, 1923 e Tabu 1928) sobre a vida dos esquimós ou a integração de uma tribo polinésia com a terra e o mar. Ou como o grande "A Terra" do diretor soviético soviético Alexander Dovzhenko que teve seu filme proibido pelo governo norte-americano sob o pretexto de ser "pessimista demais".
Na década de 60, Hollywood descobriu que a natureza considerada selvagem poderia render bons ingressos. O exotismo da África negra, assim como as aventuras de animais como o golfinho Flipper e a leoa Elza, encantavam crianças e adultos. Não falemos de filmes nos quais os animais parecem sempre ser ameaças ao ser humano como é o caso de Tubarão, Orca, a Baleia assassina e toda uma série de filmes sobre aranhas, serpentes e monstros do mar e da terra.
Já em um tempo de maior consciência ecológica, o assassinato no Quênia, da antropóloga Dian Fossey, que lutava por preservar uma espécie de gorilas ameaçada de extinção é contada por Michael Apted no filme "Na Montanha dos Gorilas" (1988) e, no Brasil, John Frankenheimer fez "Amazônia em Chamas" sobre Chico Mendes e toda a luta dos seringueiros. A Globo não tinha ainda descoberto a possibilidade de faturar milhões com a série Amazônia e estes temas ecológicos.
Sem discorrer diretamente sobre meio ambiente, muitos filmes que encerram um conteúdo de amor à vida contém por isso mesmo um conteúdo de caráter ecológico. Qualquer pessoa que viu Dersu Uzalá, do mestre Akira Kurossawa, ou Zorba, o Grego, do Michael Cacoiamis e tantos outros clássicos do cinema, saiu do cinema mais comprometido com a defesa do planeta. No Brasil, o olhar solidário sobre a natureza aparece em clássicos antigos como o "Canto do Mar" do grande Alberto Cavalcante (1953), reina em muitas obras dos cineastas que fazem do Cinema uma declaração de amor ao universo e nos põem em comunhão com a singularidade de cada região como o Cerrado goiano é visto em O Tronco do Ipê, de João Batista de Andrade.
Há uma década, o FICA se firmou no cenário internacional como o maior festival de filmes temáticos sobre a Ecologia. E tem atraído a Goiás produções do mundo inteiro que, de algum modo, abordam esta temática. Tem cumprido bem a missão de explicitar a relação entre o Cinema e o ambiente, como tem estimulado uma produção nova que a preocupação atual com os problemas ambientais vem suscitando.
Todo mundo concorda que a própria Cidade de Goiás já em si é um cenário cinematográfico permanente. Os visitantes que no FICA acorrem do mundo inteiro podem ter uma lição de ecologia na forma simpática e ordeira como o povo de Vila Boa acolhe a todos. Entretanto, a expectativa que o FICA tem gerado é a de que o festival tenha conseqüências no dia a dia da cidade. Para que a vida e as relações sociais sejam verdadeiramente ecológicas, sempre temos muito a aprender e a caminhar, mas certamente o FICA tem cumprido a missão de, ao menos, acordar autoridades e população para este desafio.
Se o cinema pode exercer tão bem esta função educativa e ecológica, que a realização anual de um festival cinematográfico continue interpelando a sociedade civil e as autoridades sobre o fato de que a cidade de Goiás ainda não conta, durante o resto do ano, com uma única sala de cinema permanente. Temos o belo e tradicional Cine Teatro São Joaquim com todos os equipamentos e condições para funcionar como cinema regular, mas que, por algum segredo esotérico, ainda não cumpre esta função cotidiana. A carência de cinemas nas cidades menores e que não dispõem das multi-salas de shoppings é uma realidade do Brasil, como do mundo todo. Possibilitar que o povo tenha acesso a obras latino-americanas, da África e do mundo dos pobres - que nunca terão acesso às multi-salas de shoppings - é uma tarefa ecológica de justiça e democratização das artes.
Este 9º Festival de Cinema Ambiental ocorre logo depois de uma reunião de presidentes de países ricos que definiram medidas de controle para a destruição ecológica, a serem efetivadas ainda a partir da próxima década. Pelo poder de captar o mundo em imagens, de pôr em diálogo culturas distantes e aproximar o nosso olhar para pingüins da Antártica ou para gorilas da África, o Cinema pode convocar um grande mutirão mundial para, desde agora, curar a Terra e nos solidarizar com o universo agredido.
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