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O medo do céu cair sobre nossas cabeças
Marcelo Barros |
M.Paz |
Para quem gosta de história em quadrinhos, a destruição da camada de Ozônio que protege a Terra, assunto ao qual a ONU consagra o dia 16 de setembro, recorda o único medo dos gauleses Asterix e Obelix: "que o céu não caia sobre nossas cabeças". Eles são personagens dos mais famosos quadrinhos franceses de Albert Uderzo e René Goscinny. Nos álbuns, a história começava sempre assim: "Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos. Toda? Não. Uma aldeia, povoada por irredutíveis gauleses, ainda resiste ao invasor...".
De fato, naquela época, apesar de dominar quase o mundo inteiro, César não dispunha do apoio das companhias de petróleo, não tinha se unido com Osama Bin Laden para combater os russos no Afeganistão e nem possuía mísseis nucleares para jogar sobre povos pobres que resistissem ao império. Os intrépidos heróis gauleses podiam se dar ao luxo de ter um medo único: de que o céu caísse sobre suas cabeças. . A diferença entre a realidade atual e o mundo das histórias em quadrinhos é que, atualmente, de fato, o planeta Terra está enfrentando grande risco. Há algum tempo, a humanidade descobriu que, infelizmente, o céu pode cair mesmo sobre nossas cabeças, na forma de raios ultra-violetas do sol que provocam morte e destruição. O que todas as guerras colonialistas não conseguiram fazer, através do capitalismo nosso de cada dia, o império dos Estados Unidos e das empresas multinacionais realizam com muita eficiência: destruir a camada de ozônio que protege a Terra e provocar um aquecimento global nunca antes visto em todo o mundo. O ozônio é um gás atmosférico azul-escuro, encontrado na estratosfera, entre 20 e 40 km de altitude. Forma uma espécie de cortina que protege toda a terra dos raios ultravioletas do Sol. Sem a camada de ozônio, a radiação provocada pelos raios ultra-violeta do sol provoca queimaduras, prejudica a imunidade do corpo e facilita o surgimento de tumores malignos, herpes, hepatite e infecções dermatológicas provocadas por parasitas. Há mais de vinte anos, a humanidade tomou consciência de que esta camada de ozônio que protege a Terra está sendo progressivamente destruída, como um tecido, pouco a pouco, rasgado. Este rombo já atinge várias regiões do mundo. Já no início da década de 90, os jornais publicaram: "A destruição da camada de ozônio atinge o norte da Europa, Sibéria, Alasca, Canadá, Argentina, Chile, Austrália e Nova Zelândia. (…) Nas regiões temperadas não há propriamente um 'buraco' na camada de ozônio, mas falhas, ou seja, zonas onde o gás é muito rarefeito, como um tecido esgarçado que deixa passar a radiação".(Cf. O Estado de S. Paulo - 21.10.91). O protocolo de Kyoto, acordo internacional que visa a redução da emissão de poluentes, que provocam a destruição da camada de ozônio e aumentam o efeito estufa no planeta, revelou-se insuficiente. Entrou em vigor em fevereiro de 2005, mas até agora não conseguiu nenhuma de suas metas. Infelizmente o governo dos Estados Unidos, país que mais emite gases poluentes no mundo, não aceitou o acordo. Não quis comprometer-se a, no prazo de cinco anos, diminuir em 12% a produção de gases poluentes. Isso poderia ameaçar o desenvolvimento industrial do país e seus enormes lucros em todo o mundo. Durante o encontro de Kyoto, o então embaixador dos Estados Unidos declarou: "O modo de viver dos cidadãos dos Estados Unidos não está em questão. Não podemos abrir mão de nosso conforto". Mesmo se não querem, os norte-americanos e europeus são obrigados a renunciar a algo da sua segurança e bem-estar. Tragédias naturais que antes ocorriam uma vez ou outra, agora acontecem em tempos muito próximos e em intensidade nunca vista. Verões de mais de 40 graus à sombra, acompanhados de secas intensas e de incêndios freqüentes, não poupam ninguém. Todo mundo começa a se dar conta de que o problema do aquecimento da terra e dos mares é real e ameaça a todos. "Conforme cientistas de todo o mundo, reunidos em Washington, desde que, com a ajuda de satélites, começaram as observações sistemáticas dos pólos (em 1979), a capa de gelo flutuante sobre as águas do oceano Ártico, como também na Antártica, nunca se reduziu tanto quanto neste verão de 2007" (jornal ABC, Madrid, 11/08/2007). Ainda não conseguiram avaliar todas as conseqüências disso para as correntes marítimas que atravessam os oceanos e influem no clima dos continentes. Em meio disso tudo, uma noticia alvissareira é que, independentemente dos interesses de empresas multinacionais e dos governos que lhes são submissos, grande parte da sociedade civil internacional está cada dia mais consciente de que todos nós, pessoas comuns, temos responsabilidade neste assunto e podemos fazer muita coisa para deter a marcha da morte no planeta Terra e ajudar a nave do destino na direção da vida. No cotidiano, um elemento importante é rever nossa forma de viver e de consumir. Todos temos de aprender a virtude da sobriedade como regra de conduta pessoal e convivência. O tempo que usamos para tomar banho e a quantidade de água que gastamos no banheiro e na cozinha não parecem afetar o equilíbrio da terra, mas se nos unimos a um grande mutirão de cuidado com a Vida, estas pequenas atitudes cotidianas passam a ser significativas e começam a fazer diferença. Nós, humanos, feitos de terra, de água e de ar, somos a Terra que sente, pensa e ama. Cada folha de árvore queimada é como uma célula de nosso próprio corpo, destruída pela gangrena do capitalismo depredador. O mal que se faz à Terra, à Água e ao Ar é, ao mesmo tempo, uma agressão a cada um/uma de nós e a toda uma imensa família da qual fazemos parte, constituída por todos os seres vivos. Hoje, a Água e o ar limpo se constituem como elementos correspondentes ao que, nos quadrinhos de Asterix, era a poção mágica que dava força para resistir aos romanos imperialistas. Como diz Leonardo Boff: "Precisamos respirar juntos com a Terra para conspirar com ela pela paz". |