O poderoso anel do amor
Marcelo Barros e Thania Coimbra
M.Paz

Ao contar que, no mundo, existe um anel que dá o poder a quem o possui, o filme “O Senhor dos Anéis” é uma alegoria que contém profunda verdade.  No dia dos namorados, os rapazes que dão à suas namoradas um anel de compromisso e os já namorados que celebram seu compromisso em torno de um anel revelam o valor deste símbolo universal e nos fazem refletir sobre o amor, único mistério que realmente dá poder real a quem o vive. Que poder? Será que dá mesmo?

xilogravura de Pulika

Como todos as formas de poder, também o anel do amor pode ser vivido em muitos níveis. Em uma sociedade consumista e hierárquica a maneira mais óbvia é exercendo controle e se apossando do outro. Tanto faz se a implicância com o futebol dele com os amigos ou com o cinema dela com as amigas. São atitudes “inocentes” que provariam o amor mútuo expresso no anel, mas que vão nos familiarizando com a possessividade, tanto quanto a medir o afeto pelo custo dos presentes trocados....

Por outro lado se a moçada aceita a posse como dimensão autêntica e natural do amor e até brincam com isso tatuando-se, usando coleiras e pulseiras com o nome um do outro, é porque venhamos e convenhamos não herdaram modelos mais ricos de amor e afetividade. Na maioria das vezes o amor que conhecem é o que fecha as pessoas em um círculo cada vez menor e auto-referente.

De outra maneira, saudosistas que dizem que hoje não há mais romantismo, que não existe mais amor, se esquecem que os jovens mostrados numa pesquisa recente do Sebrae nacional elegem a família como referência fundamental. Talvez na correria para dar a melhor educação, viagens, um carro à prole, pais e mães privem os filhos e filhas da necessária referência amorosa. Muito parecido com os que querem que crianças gostem de ler ou de comer espinafre que nunca vêem os adultos que admiram fazer.

      Contraditoriamente, em uma cultura na qual “fazer amor” é sinônimo de “ficar, por um momento, com alguém”, amar dá mais medo do que qualquer outra coisa. Nada assusta tanto as pessoas como o amor. Ele revela nossas carências e fragilidades, nos expõe a desilusões, nos desnuda em nossos medos e nossos desejos mais íntimos. Entretanto, por mais que os tempos e a cultura mudem, dentro de nós, o coração continua dizendo que só o amor pode nos tornar felizes.

É claro que o amor é como uma fonte que alimenta muitos rios e riachos. Fala-se em amor de pai e mãe, amor de irmãos, amor de amigos, amor de namorados. Tudo é água da mesma fonte. Apenas variam as expressões e a fundura do rio por onde a água do amor escorre. Em algumas religiões orientais como o budismo e também na tradição católica, quem decide viver o celibato precisa deixar claro para si mesmo e para os outros que não está renunciando a amar e sim a se fechar sobre aquele amor de forma exclusiva. Não pode e não deve ser menos humano do que quem se apaixona e sim assume o humano e busca ir além na capacidade de amar de forma mais universal.

O dia dos namorados lembra o amor na sua primeira força e proposta. É pena que romances, novelas e filmes tendam a mostrar o amor de forma tão idealista e perfeita que absorvemos este modelo como exigência para nós. Quando não o conseguimos, - e isso é normal porque não corresponde ao real – nos decepcionamos e meio que desistimos de viver o amor. É como se um ideal “perfeccionista” e idealista de amor acabasse impedindo as pessoas de viverem o amor em suas formas mais simples e humanas.

É importante que os pais aceitem que os filhos façam as experiências que um dia, eles se deram o direito de viver. Que confiem também na semente que plantaram. Que exerçam com toda a convicção o papel que cabe a eles de zelar, disciplinar, apontar mas que, ainda que seja doloroso, reconheçam que muitas vezes, há uma certa inveja camuflada na preocupação com os filhos. Inveja do arrebatamento, da ousadia, da franqueza, talvez da entrega.

É justo que os filhos aceitem que os pais e mães, principalmente aqueles que não puderam continuar vivendo juntos o casamento, continuam vivos e abertos ao amor. Penso que filhos que se sentem amados e cuidados tolerem isso com mais generosidade e, claro, no limite de compreensão de sua faixa etária. Pais que ensinaram, não só com palavras, mas vivendo, que a vida não é um tanque e que um amor autêntico nos prepara para as outras maneiras de amar, obtém isso com mais facilidade.

Creio que ao contrário do filme “O Senhor dos Anéis”, entre enamorados o mal não é intrínseco ao anel, nem destruí-lo quebra a corrente maligna da dominação, possessividade e autoritarismo. Ao contrário, saber quanto pobre pode ser uma relação, pode nos tornar vigilantes e ansiosos de experimentar uma aliança mais rica e menos narcisística com o outro. Dessa forma, o romance entre parceiros seria um remanso no caudaloso rio do Amor. Quando os apaixonados procuram se embelezar e mostrar o melhor ao outro de uma certa maneira se preparam como noivos rumo ao Grande Encontro.

*)   Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.br
Thania Coimbra é jornalista.
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