| Transformar a sociedade para curar o planeta | M.Paz |
Marcelo Barros
Nesta segunda-feira, Dia Mundial do Meio-ambiente, o mundo amanheceu menos otimista. Relatórios novos da comunidade científica atestam que o planeta Terra está muito doente. Se os recursos da natureza continuam a ser explorados predatoriamente em função do lucro de uma minoria ínfima de seres humanos, acontecerá o fim do mundo, anunciado por várias religiões em seus livros sagrados, não por alguma interferência divina, mas por obra dos próprios homens.
Nas últimas décadas, para deter a tragédia, alguns intelectuais tentaram colocar adjetivos no processo a que chamam de desenvolvimento. Há mais de 60 anos, na França, surgiu o movimento por um "desenvolvimento integral", psicólogos da Europa propuseram "um desenvolvimento humano" e a partir da Eco 92, espalhou-se pelo mundo a proposta de um "desenvolvimento sustentável".
Entretanto, cada vez mais se descobre que não é possível desenvolver de forma positiva o que, por sua própria natureza é predatório e violento. Não há como fazer a roda mais ou menos quadrada. No final dos anos 60, na América Latina, surgiu a Teologia da Libertação, insistindo em que o desenvolvimento do mau seria o pior. No lugar de desenvolvimento, propunha libertação, como dizia a conferência dos bispos latino-americanos em Medellín (1968): "libertação de toda pessoa humana e do ser humano por inteiro". O Conselho Mundial de Igrejas assumiu isso e acrescentou também a libertação da natureza.
Hoje, já se fala em pós-desenvolvimento. A própria UNESCO abrigou em abril um congresso de economistas de vários países da Europa e o assunto era: "Linha do horizonte: desfazer o desenvolvimento e refazer o mundo". Para quem aceita percorrer este caminho de reinvenção das relações entre nós, seres humanos e com a natureza, esta Semana do Meio-ambiente pode trazer luz e esperança.
Este processo exige refundar as próprias bases da Política e da Economia. Será impossível avançarmos neste sentido sem um maior diálogo entre sociedade civil e Estado e se não substituímos esta idéia de aliança de blocos comerciais de países por uma aliança mundial de nações, fundamentada sobre a riqueza da diversidade das culturas e o respeito à vida. Como considerar normal que, na Espanha, três jogadores de futebol, dos quais um brasileiro, declarem uma renda anual correspondente ao PIB de 46 países da África? Como a sociedade internacional pode aceitar que, para garantir um preço mais elevado para seus produtos, empresários norte-americanos paguem a fazendeiros africanos para que estes queimem todo o seu estoque de cereais? A vida na Terra e a paz da sociedade humana dependem de que a Economia não seja mais desligada da Ética e principalmente de um cuidado com a vida de todos os seres vivos. Nos séculos antigos, João Crisóstomo e Basílio de Cesaréia, pastores da Igreja, ensinavam que uma economia que visa só o lucro e a competição não merece outro nome do que o de roubo institucionalizado.
Uma das bases em que o sistema vigente se apóia é a Educação que pretende propor valores humanos às crianças e jovens, mas estrutura a Escola em um sistema de competição de notas, valores, concursos e vestibulares, como também, na maioria das vezes, compactua com a cultura consumista tão responsável pelo desequilíbrio ecológico.
Atualmente, grande parte da humanidade olha com curiosidade e esperança para o nosso continente, no qual ressurgem muitos movimentos indígenas e negros que educam seus filhos e filhas para viver relações comunitárias baseadas na solidariedade e no cuidado amoroso com a Terra. A maioria das comunidades indígenas e negras percebem que para vencer este terrível desafio terão de conseguir que os seus jovens e adultos se desencantem com tudo o que, na sociedade moderna, os fascina. É preciso descolonizar a mente dependente da propaganda e libertar o imaginário das prisões do consumo para reinventar a vida de forma sustentável e sadia. O reencontro com as raízes culturais de cada grupo tem sido um bom caminho para este processo.
Algumas comunidades começam a reaproveitar quase tudo o que é jogado fora. Não fazem isso para que possamos produzir mais lixo, já que depois o reciclamos. Isso seria legitimar o sistema predatório. Ao contrário, é para nos educar a novas relações com as coisas e com a natureza. Um exemplo disso é a substituição gradual do plástico. Em países da Europa como a Itália e a Espanha, os super-mercados não oferecem mais sacolas plásticas. Quem precisa tem de comprá-las. Isso faz com que muita gente já traz de casa bolsas e sacos para levar suas compras.
Do pequeno gesto cotidiano até as posturas mais importantes de defesa da natureza, tudo isso tem uma base profunda: uma relação amorosa e de comunhão com a natureza, considerada não como mercadoria a ser comprada e vendida, mas como um conjunto ao qual hoje, estudiosos chamam de "Comunidade da Vida", a qual todos pertencemos e na qual todos temos um lugar próprio e uma missão. Para quem tem uma busca espiritual, este tipo de relação se inscreve no próprio âmbito de uma espiritualidade ecológica e ecumênica que atualiza, hoje, a palavra de um cristão do século II: "Contempla uma árvore e estarás vendo minha presença, sente o roçar do vento em teu corpo, é meu carinho para contigo. Em cada poeira da estrada e nas flores do caminho, tu podes me encontrar Basta levantares uma pedra e ali encontras o teu Deus".
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