A nossa cota no cuidado com a Terra
para o futuro da vida
- Marcelo Barros
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M.Paz

Na semana passada, consagrada pela ONU à sustentabilidade da terra, as notícias pareciam pouco animadoras. O norte-americano Jonathan Lash, presidente da organização "World Resources Institute (WRI), reuniu 1360 cientistas de todo o mundo para avaliar a situação da terra. Publicaram um estudo no qual afirmam que a humanidade explorou tanto a natureza que não há garantias de que ela possa dar sustento às novas gerações.

Há duas semanas, ao participar no Rio de Janeiro do Congresso ibero-americano sobre desenvolvimento sustentável, Lash declarou: "Se não mudarmos alguns de nossos hábitos, estaremos roubando o futuro de nossos filhos e netos" (Cf. ISTOÉ/ 1858, 25/ 05/ 2005, p. 94). O tremor de terra que, no final de dezembro de 2004, provocou o tsunami e arrasou o litoral de dez países asiáticos ainda não terminou. "Seis meses depois do terremoto, a terra continua vibrando como um sino", declara Roland Bürgmann, da Universidade da Califórnia.

Entretanto, para nós, brasileiros, a notícia mais triste é que, entre 2003 e 2004, foram devastados 26.130 Km 2 da Amazônia. Desde quando se iniciou a pesquisa, esta é a segunda pior taxa de desmatamento. As causas são sempre as mesmas: soja, pecuária, exploração madeireira, grilagem de terras e falta de controle ambiental. Além da opção do governo federal de ganhar as próximas eleições, costurando alianças com qualquer tipo de partido e pessoa que se apresente disposto a barganhar alguma fatia de poder.

Graças a Deus, na contramão desta corrente, no mundo inteiro, pequenos lavradores e grupos indígenas começam a atuar em um novo modelo de relação entre o ser humano e a Terra. A luta dos índios bolivianos contra a exploração internacional do gás da Bolívia não é apenas um movimento nacionalista.

ícone de Igreja Oriental

A partir da espiritualidade andina, os índios exigem outra forma de tratar a terra e suas riquezas subterrâneas. No Brasil, este cuidado com a Ecologia, também une índios e pequenos lavradores. Como afirma Leonardo Boff: "Para o MST, a Terra não é apenas, como quer a cultura capitalista, meio de produção.

É muito mais: é nossa Casa Comum. Está viva, com uma comunidade de vida única. Nós somos seus filhos e filhas, com a missão de dela cuidar e de libertá-la de um sistema social consumista que a devasta... Este é seu sonho maior (do MST) expressão do novo paradigma civilizatório emergente"(O Popular, 20/ 05/ 2005). No sul do Brasil, nestes dias, ocorre o quarto Encontro de Agro-ecologia. Na Cidade de Goiás, a Festa da Colheita, com a valorização das chamadas "sementes crioulas", no sábado, 18, e o II Congresso Nacional da Comissão Pastoral da Terra confirmam os lavradores neste caminho de amor e cuidado com a vida.

Há alguns anos, muitos cientistas pensavam que a nossa civilização tinha vencido definitivamente a natureza e imposto suas exigências. A partir da eletricidade, o dia e a noite não têm mais o mesmo significado de luz e trevas. Refrigeramos o ar ou o esquentamos, mudando a temperatura natural. Especialistas provocam chuvas. Empresas que exploram estações de esqui fabricam pistas de gelo. E não se fala muito das conseqüências deste tipo de evolução. Todo mundo consome energia elétrica e ninguém procura saber de onde ela vem. Queremos água na torneira e no chuveiro, mas não nos sentimos responsáveis pela situação de nossos rios. A ministra Marina Silva tem chamado a atenção para este problema: "a maioria das pessoas é favorável à ecologia, mas contanto que seja na casa e na terra dos outros".

Quando se fala em aquecimento do clima, poluição das águas e sustentabilidade do planeta, o desafio ecológico parece tão imenso que cada pessoa se sente impotente. Esperam-se soluções dos governos, iniciativas das empresas e mudanças da sociedade, mas é sempre o outro que deve dar o primeiro passo. É urgente mudarmos esta forma de pensar. Cada um tem uma cota a garantir no cuidado com a terra e toda a vida que nos envolve.

Ninguém pode ser dispensado desta luta cotidiana. Todos temos hábitos de consumo que precisamos rever, principalmente a forma de produzir alimentos, usar a água, explorar o petróleo e os seus derivados. Nas cidades, o lixo acumulado a cada momento pela população e por este modelo de sociedade, é um desafio imenso. A Ecologia, ciência que revela a intima conexão que existe entre todos os seres como uma única teia da vida, é um programa de educação para a alteridade. Ela me ensina uma relação mais justa com as outras pessoas e com os outros seres vivos, que têm direito a existir e fazem parte da grande comunidade cósmica da qual sou membro.

Reconhecer este direito do outro e incorporá-lo como essencial para minha própria felicidade é como um método para que eu mesmo me torne, cada dia mais, uma pessoa verdadeiramente humana. A verdadeira Ecologia começa quando todos se engajam na luta não violenta contra injustiças sociais e iniqüidades como a concentração de terra e a discriminação social. Desde a Eco 92, os ecologistas assumem o fato de que o ser humano é o mais ameaçado de todos os animais em extinção.

Só esta percepção de pertença à família humana pode abrir as pessoas à verdadeira inclusão ecológica. Somos todos membros da mesma comunidade cósmica da qual faz parte todo ser vivo. Esta grande energia de amor é que possibilita rever o caminho percorrido e traçar um novo itinerário espiritual de comunhão ecológica.

Numi, um Xamã do Equador, nos adverte: "Vocês que dominam o mundo têm organizado a vida de acordo com o que desejam e sonham. Sonharam fábricas gigantescas, palácios enormes, máquinas sofisticadas. Construíram tantos automóveis quantas são as gotas d'água deste rio (Amazonas). Agora, começam a perceber que, na realidade, o sonho de vocês é um pesadelo. Para que a vida possa continuar e vocês continuem a ser humanos, ensinem a seus filhos e netos a sonhar um sonho novo e diferente".

 

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