A utopia da fé como força para curar o universo
Marcelo Barros

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M.Paz

Quanto mais se multiplicam guerras e se endurece o sistema econômico que assassina povos inteiros como bomba terrorista, mais se espalha pelo mundo uma rede de pessoas e grupos que se comprometem com a paz e querem transformar o mundo. A multiplicação de acidentes ecológicos revela que a natureza não suporta mais tantas agressões. 

Diante disso, as religiões não podem restringir-se a consolar o coração dos fiéis ou a se fechar em interesses institucionais internos. Seus fundadores deixaram como herança o amor solidário, a compaixão e o cuidado com a humanidade e a terra, carentes de salvação.

Cada vez mais, grupos de fiéis de diversas tradições espirituais e muitos não ligados a nenhuma instituição religiosa procuram viver a espiritualidade como solidariedade e não aceitam gozar da paz interior que a religião propõe sem que o mundo inteiro seja salvo.

Nestes dias, completam-se 42 anos do 11 de outubro no qual João XXIII, um papa idoso e eleito pelos cardeais para não mudar nada, convocou a Roma os bispos católicos de todo o mundo para o Concílio Vaticano II e impulsionou na Igreja Católica novo ar de amorosidade, inesperada primavera de abertura e compromisso de dialogar amigável e respeitosamente com toda a humanidade. É importante sublinhar que ele fez isso em uma Igreja extremamente centralizada e sob o modelo do Império governado por Pio XII e em um mundo no qual norte-americanos e russos se ameaçavam com mísseis atômicos e os marines de Kennedy tinham invadido a Baía dos Porcos.

Mesmo se muitas das sementes plantadas pelo papa João e pelo Concílio não foram posteriormente cultivadas e desenvolvidas pelo Vaticano e por grande grupo da hierarquia eclesiástica, a Igreja Católica nunca mais foi a mesma. Ninguém consegue abafar o Espírito. Algumas intuições fundamentais deste processo de renovação são irreversíveis: a importância da comunidade local como Igreja com rosto e consistência própria, a igualdade de dignidade e direitos entre todos os membros do povo de Deus, a relação entre fé e vida, a centralidade da Palavra de Deus revelada na Sagrada Escritura e a missão de construir um mundo novo como testemunho do reino de Deus.

Na América Latina, o Concílio Vaticano II inspirou a 2a Conferência dos Bispos Católicos em Medellín (1968). Este encontro significou o nascimento de uma Igreja Católica com rosto propriamente latino-americano. Ali, se oficializou a Teologia da Libertação e um modelo de Igreja que não procura converter ninguém à sua fé e sim colaborar com todas as pessoas de paz na construção de um continente libertado e justo. É preciso que ressoe de novo neste continente, a proposta dos bispos daquela época: “Que se apresente cada vez mais nítido, na América Latina, o rosto de uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação do ser humano em sua integralidade e de toda a humanidade” (Medellin. 5, 15 a)

 Agora, mais de quarenta anos depois, vivemos um mundo no qual, em função do mercado, diferentes atividades humanas se associam e se integram em nível planetário. Entretanto, o progresso e bem-estar conquistados pela técnica estão a serviço de uma minoria da humanidade. Apenas 200 multinacionais detêm 80% da riqueza mundial. A Europa e América do Norte aprimoram o seu conforto à custa de um aumento terrível da miséria e da fome de mais de 2/3% da humanidade. Os governos nacionais perdem autonomia e se transformam em meros gerentes locais do Banco Mundial para garantir que os juros da dívida externa sejam pagos. A dignidade de cada ser humano e os direitos de povos são desrespeitados em função da segurança militar do Império norte-americano. Estes desequilíbrios econômicos e sociais provocam terríveis problemas ecológicos. Para servir às leis do mercado, a natureza é saqueada, envenenada e privada de sua bio-diversidade. Muitas discussões sobre Desenvolvimento Sustentável lembram o que os prisioneiros políticos contam sobre as sessões de tortura em porões da ditadura militar. Um médico assistia a tortura para dizer até que ponto o doente poderia suportar os golpes sem riscos de vida. Assim, certas empresas que dizem ter “compromisso ecológico” fazem com a terra, a água e o ar que respiramos.

Os problemas são urgentes e pedem soluções imediatas. Organismos internacionais se mostram impotentes em administrar a crise. Partidos políticos, mesmo os mais puros em seu ideário político, ao chegar ao poder, têm se mostrado iguais a seus antecessores. O divórcio cada vez maior entre Estado e Sociedade civil faz com que mesmo o caminho de encontros e fóruns que a humanidade tem visto ocorrer não conseguem, ao menos por enquanto, influenciar o caminho oficial das nações. De onde pode vir a esperança? Que contribuição dão as pessoas que crêem em Deus como fonte de amor, se as religiões continuam isoladas e presas a seus interesses institucionais e seus problemas internos?

Desde o final dos anos 80, o Conselho Mundial de Igrejas que reúne 340 Igrejas cristãs propõe um processo de diálogo entre Igrejas e um novo Concílio ecumênico, para aprofundar a responsabilidade dos cristãos com a Justiça e a Paz no mundo e a defesa da natureza. Preparando o ano 2000, 40 bispos católicos escreveram uma carta ao papa pedindo um novo Concílio. Esta carta já conta com mais de dez mil assinantes, entre ministros e leigos.

Em janeiro de 2005, antes do 5o Fórum Social Mundial, acontecerá em Porto Alegre um Fórum Mundial sobre Teologia e Libertação para aprofundar os fundamentos teológicos e espirituais do compromisso das religiões e Igrejas com o novo mundo possível.

As maiores dificuldades que as religiões têm para dialogar e se unir a serviço da humanidade vêm de fatores que nada têm a ver com Deus e espiritualidade. São questões ligadas ao poder dos seus líderes e às interpretações dogmáticas da doutrina. A espiritualidade nunca divide ninguém. Ao contrário, cria entre os seres humanos uma Fraternidade do Espírito que pode ser ponto de partida para uma aliança mundial entre todas as pessoas amantes da paz, justiça e comunhão com o universo. Mesmo sem ainda encontros formais, está lançado um grande Fórum Mundial para uma Mística da Vida. Não me peçam para explicar mais. No século IV, dizia Santo Agostinho: “Apontem-me alguém que ame e ele sente o que estou dizendo. Dêem-me alguém que deseje, que caminhe neste deserto, alguém que tem sede e suspira pela fonte da vida. Mostre-me este e ele saberá o que quero dizer” [2]. 

 

[2] - AGOSTINHO, Tratado sobre o Evangelho de João 26, 4. Cit. por Connaissance des Pères de l’Église- dez. 1988, capa.

 ilustração de Pulika

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