Resgatar o tempo na liberdade do lazer
Marcelo Barros[1]
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M.Paz

No Centro-oeste e em outras regiões do Brasil, para quem estuda, trabalha em educação ou organiza sua atividade a partir do turismo, julho é mês de férias. Uma das angústias mais freqüentes do homem de hoje é como administrar o tempo. Se o dia tivesse mais de 24 horas, ainda seriam poucas para o tanto que as pessoas querem fazer. Quanto mais a civilização descobre meios velozes de transporte e instrumentos eficazes de comunicação, mais aumenta a sofreguidão do ser humano de trabalhar, produzir e consumir.

O fato de precisar menos tempo para ir de um lugar a outro e contar com máquinas e técnicas aperfeiçoadas para fazer coisas que, antigamente, eram artesanais, não está tornando as pessoas mais livres para fazer aquilo que gostam. Ao contrário, as pessoas trabalham mais e tem menos qualidade de vida do que na época na qual ninguém viajava de avião, não havia computador e telefone celular. Mesmo quem opta por priorizar as relações humanas e inicia a correria do dia por um tempo de meditação espiritual e quietude, dificilmente escapa da pressão cultural da sociedade do trabalho e da pressa.

No século IV, Santo Agostinho dizia saber o que é o tempo, mas ter dificuldade de defini-lo. A humanidade estuda a evolução dos tempos. A meteorologia estuda a variação dos climas e a História descreve a sucessão das épocas e períodos históricos. Mas, enquanto os capitalistas crêem religiosamente que tempo é dinheiro, muitas comunidades tradicionais continuam sem relógio. Ainda há muita gente no campo e mesmo na cidade que dedica o melhor do seu tempo para conviver, conversar e estar com as pessoas que ama. Vivem o tempo de forma mais gratuita, na relação uns com os outros, com a natureza e com o mistério, fonte de tudo. Em comunidades indígenas que ainda podem viver sua cultura original, homens e mulheres adultos, que devem prover o alimento e organizar o cotidiano, aprendem das crianças a produzir sem perder a dimensão lúdica da vida. Recordam à nossa sociedade que o tempo pode ser pensado e vivido como graça e oportunidade de relacionamento e doação. Todos fazem confidências à lua e namoram as estrelas. A eles as estrelas-guias se queixam dos homens sérios que trabalham tanto que nem mais escutam os sussurros do céu e perdem a orientação nas noites escuras da vida.

Leonardo Boff diz que a civilização ocidental promoveu o trabalho sem, ao mesmo tempo, garantir o cuidado com a vida e a natureza. Olhado como valor em si mesmo e pelo que produz, o trabalho devastou o mundo e corrompeu a alma de muita gente. Na Europa o sociólogo Domenico de Masi chama a atenção para o fato de que, na cultura pós-industrial, o ser humano tende a se tornar uma espécie de autômato, preso à engrenagem do tempo. Corre todo tempo afim de mais produzir e consumir. Masi propõe como alternativa o “ócio criativo”. Não significa preguiça ou passividade, mas outra forma de administrar o tempo; uma espécie de sincretismo entre as atividades produtivas, a arte e o lazer. O ócio criativo é mais uma forma de lidar com o tempo e a vida do que uma atividade que se realiza. Seria um jeito de viver.

É difícil falar em “ócio criativo” para a multidão que, para sobreviver, tem de se submeter a trabalhos pesados, horários estafantes e condições de insalubridade. São milhões que, apesar de tudo, ainda parecem mais realizados do que a massa de desempregados que jaz excluída da modernidade. O capitalismo avança retornando a formas novas de escravidão no campo como na cidade, ao mesmo tempo que, em diversos países, explora o trabalho de crianças e adolescentes. No Brasil o Instituto “Ócio Criativo” tem como objetivo erradicar este tipo de trabalho. É um objetivo nobre e que deve envolver a todos. Mesmo pais e educadores que lidam com crianças e adolescentes economicamente não-carentes, às vezes, incorporam o espírito desta sociedade sem coração. Passam a filhos e educandos uma sensação de desconforto pelo simples fato de não estarem na escola ou trabalhando em algo considerado produtivo. A filosofia do lazer criativo e libertário é necessária e tem muitas dimensões que não podem ser esquecidas ou desvalorizadas.

Em 1960, no nordeste, Ariano Suassuna publicou “A Farsa da Boa Preguiça e o Rico Avarento”. Contava a história do poeta Joaquim Simão que sentia-se discriminado e tido como preguiçoso porque as pessoas não consideravam a poesia e a arte como trabalhos dignos e sérios. No fundo, o mestre Ariano revela na cultura popular brasileira esta resistência cultural à sociedade da produção e defende o direito ao tempo livre e gratuito.

Os mais diversos caminhos espirituais da humanidade têm em seu bojo a sabedoria de ligar trabalho e lazer, atividade e descanso. Na Bíblia, o Eclesiastes diz: “Há tempo para tudo debaixo do céu. Há tempo para trabalhar e tempo para abraçar, tempo para buscar e tempo para o lazer...” (Ecl 3).

[1] - Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo, é autor de 27 livros dos quais está no prelo: “A vida se torna aliança”, introdução ecumênica aos salmos, Ed. CEBI- Rede da Paz, 2005.

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