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Livre
é quem se compromete
Marcele Barros |
M.Pa |
Quem quiser participar de um gesto profético indicando que o
mundo pode viver em paz a partir de formas alternativas de convivência fraterna
está convidado a vir ao Mosteiro da Anunciação do Senhor em Goiás, neste
domingo 11, para testemunhar o compromisso público que os irmãos Fernando e
José Maria assumirão de viver como monges por toda a sua vida.
O fato de que
estão chegando a Goiás para participar deste ato, alguns casais da Itália,
amigos dos Estados Unidos, um abade da França e outro de Roma, além de
brasileiros de vários estados, revela que este gesto que, aparentemente, diz
respeito apenas à comunidade religiosa do Mosteiro de Goiás, na realidade,
interessa ao mundo todo e tem um significado que vai além da dimensão
unicamente religiosa.
De fato, no mundo todo, mesmo nas sociedades mais mundanas e
indiferentes à religião, renova-se uma espécie de curiosidade e interesse
pelos Mosteiros. Em recente encontro de monges, constatou-se que, nos últimos
cinco anos, o número anual de hóspedes e pessoas que querem conhecer o
ambiente monástico triplicou na maioria dos mosteiros. Esta curiosidade do
mundo para com a vida dos monges não é apenas interesse pelo folclore medieval
dos hábitos longos, por eventuais mistérios, ocultos atrás dos muros da
clausura, nem mesmo só pela mística que deveria reinar nas casas religiosas.
Mesmo que não tenham consciência disso, muitas pessoas, religiosas ou não, se
sentem cada vez mais divididas interiormente e fragmentadas pela sociedade de
consumo. Ora, de acordo com o sentido etimológico do termo, monge é quem busca
a unidade interior e Mosteiro deve ser a oficina da unificação espiritual para
se trabalhar a unidade com os outros. Então, é compreensível que tanta gente
se sinta tocada ao saber que, nestes dias, em Goiás, dois monges farão sua
profissão definitiva.
O significado mais humano e universal da cerimônia que
ocorrerá no Mosteiro de Goiás pode-se explicar pelo fato de que os monges de
Goiás, além de prometerem a Deus cumprir o encargo de monges, se comprometem
também publicamente a consagrar suas vidas ao trabalho pela Paz do mundo,
dedicando-se especialmente ao diálogo entre as diversas religiões e, mais
particularmente à unidade entre as Igrejas cristãs, visando em tudo isso um
serviço à Justiça, Paz e Defesa da natureza.
Na linha dos filósofos do
Personalismo, Dom Hélder Câmara gostava de dizer que “só quem é
verdadeiramente livre é capaz de consagrar-se”. De fato, diante do peso de um
compromisso e da incerteza do amanhã, muitas pessoas têm medo de
comprometer-se. Mesmo namorando um compromisso que julgam belo e importante,
acabam sempre adiando qualquer decisão. Atualmente, mesmo pessoas que se amam
preferem a relação sem compromissos. Quando casam, prometem ficar juntos, até
que seja bom...
De fato, muitas vezes, as pessoas
confundem aliança de vida e contrato. Este é jurídico, formal e válido para
o comércio e o trabalho profissional. A aliança é algo muito mais profunda do
que um mero contrato. Não amarra nem prende. Engaja o coração. Parte do amor.
Por isso, é livre e libertadora. Baseia-se no mais profundo respeito a cada um.
Como definia alguém, a aliança fraterna “reúne pessoas que se consagram a
realizar juntas coisas belas e difíceis”.
Infelizmente, às vezes, os religiosos dão ao mundo a impressão de que
estão mais ligados por um contrato do que por uma aliança. No Mosteiro de Goiás,
o respeito à liberdade de cada um e o fato de não vivermos em função da
instituição, seja ela qual for, ressalta que o importante é a aliança e esta
é profecia para o mundo todo.
De acordo com o Direito vigente na
Igreja Católica, a quase totalidade dos religiosos faz votos de pobreza, obediência
e castidade. Nos mosteiros beneditinos, como prevê a Regra de São Bento, os
monges continuam prometendo “estabilidade, conversão de costumes e obediência”.
Quem conhece a vida peregrina minha
e de tantos monges não pode interpretar a estabilidade como prisão a um
único lugar nem a obediência como mera submissão militar a um superior
hierárquico. Nem a conversão de costumes exige que alguém se despoje
de sua cultura humana. Em Goiás e em outros mosteiros do mundo, compreendemos a
estabilidade como compromisso de viver comunitariamente. Interpretamos a
“conversão de costumes” como o propósito de buscar permanentemente a
conversão pessoal em comunidade. Este voto é vivido pelas pessoas que se
comprometem a nunca se acomodar. A obediência mais profunda e espiritual é a
atitude de buscar sempre a Palavra de Deus no diálogo com os outros e na
disponibilidade de escutar os irmãos e especialmente o monge escolhido para
coordenar a comunidade.
Para quem é cristão, a consagração
é o batismo e nenhuma outra consagração a supera ou substitui. Os votos
religiosos são apenas uma forma de renovar o batismo. Mas, esta renovação
pode ser feita de diversas formas e a profissão religiosa privilegia o caráter
de relação matrimonial que o batismo tem. Pelo batismo, assumimos o fato de
sermos filhos e filhas de Deus. A profissão monástica revela que temos com ele
uma relação de intimidade e fidelidade como a da esposa para com o seu marido.
A cerimônia da profissão feita
pelos monges tem duas dimensões: a primeira é o compromisso que os irmãos
assumem para toda a vida. No mosteiro de Goiás, é costume que, depois de ler a
carta da profissão beneditina, os irmãos se ajoelham diante do “poço” e,
tocando na água, renovam o seu batismo, prometendo a Deus consagrar-se à oração
e ao trabalho pela unidade das Igrejas e pelo diálogo entre as religiões.
Após fazerem a sua promessa pública,
os irmãos recebem do prior do Mosteiro a consagração monástica. É o sinal
de que Deus responde ao gesto que os seres humanos fazem de se comprometer com
ele, consagrando-os. Através desta bênção, o próprio Deus toma posse
daqueles que se dispõem a ser dele.
Esta consagração dos monges interessa ao Mosteiro de Goiás, mas também a vocês todos que buscam a unidade interior e a paz, porque a consagração monástica é feita para lembrar a todos que, como ser humano, você também é chamado/a a ser consagrado/a. Por isso, aos irmãos Fernando e José Maria eu direi o que, agora, escrevo a vocês e que são palavras de Irineu de Lyon, bispo do século II: “Já que és mesmo obra de Deus, espera a mão do teu artesão. Se deixares, ele fará em ti tudo o que convém. Oferece a ele um coração leve e dócil. Conserva a forma que te deu o teu artesão, mantendo algo de maleável para que, endurecendo, não percas os traços do seu dedo divino. Caminhas para a perfeição mantendo este modelo original que as mãos dele plasmaram em ti. A ele entregues o que é teu: a confiança e a tua obediência. Aí tu receberás o selo impresso de sua arte em ti. Serás, então, a obra perfeita de Deus” (Adversus Haereses IV, 39).
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